Sábado, 13 de junho de 2026 - 08h11

Uma releitura da
figura da vítima em processos judiciais foi proposta durante o painel “Garantia
da Tutela dos Direitos das Vítimas”, apresentado nesta quinta-feira (11/12), em
Porto Velho, como parte da programação do 1º Congresso do Ministério Público de
Rondônia (MPRO). A atividade ofereceu uma visão atual do tema, propondo que
vítimas difusas, pessoas atingidas por discriminações estruturais e
desvantagens indiretas, devem ser objeto de atenção do MP para a busca por
reparações históricas.
Essa compreensão foi
disseminada na palestra “Proteção dos Direitos das Vítimas”, que abriu o
segundo dia de congresso. A atividade teve a moderação da Coordenadora do
Núcleo de Atendimento às Vítimas do MPRO, Promotora de Justiça Eiko Vieira
Araki, e como painelistas os promotores de Justiça Rafael Osvaldo Machado e
Marcele Costa e Faria, integrantes dos Ministérios Públicos do Paraná e Mato
Grosso, respectivamente.
Em sua participação,
o promotor de justiça Rafael Osvaldo Machado Moura (MPPR) fez uma exposição
focada na garantia da tutela de direitos das vítimas, defendendo uma profunda
transformação na cultura institucional do Ministério Público para que pessoas
que sofreram crimes sejam tratadas como sujeitos de direitos, e não apenas como
acessórios do processo judicial.
O integrante do MP
paranaense discorreu sobre a mudança de paradigma e a Resolução nº 243/2021 do
Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), marco que impulsionou o MP a
adotar abordagem centrada nas vítimas, corrigindo a conduta de ignorá-la, por
exemplo, na formação técnica dos integrantes da instituição. “Historicamente, a
vítima era vista como um "incômodo" ou alguém de menor importância no
sistema de justiça”, disse.
Ampliação do conceito
Rafael Moura propôs
uma ampliação do conceito de vítima, enfatizando o papel constitucional do MP
como defensor dos direitos humanos. Na ocasião, destacou a importância de que
os membros se aproximem da compreensão de vítima real, pertencente às diversas
camadas sociais, inclusive os mais vulneráveis.
Nessa perspectiva, o
promotor de Justiça detalhou diferentes categorias de vítimas, citando vítimas
indiretas, familiares que sofrem danos biopsíquicos; vítimas coletivas,
comunidades indígenas, quilombolas e periferias urbanas afetadas por crimes ou
violações sistemáticas, exigindo reparação integral e não apenas punições
individuais e, ainda, vítimas de discriminação estrutural, que são pessoas
negras, mulheres, migrantes, população LGBTQIA+, que suportam desvantagens
permanentes e invisíveis devido ao racismo e sexismo.
Após apresentar essas
diferentes dimensões da vitimização, o promotor destacou que cabe ao Ministério
Público adotar medidas que assegurem a reparação dos danos causados. “O MP tem
o poder e dever de atuar buscando ações para reparações”, afirmou.
Vieses e Estereótipos
Ainda em sua
palestra, Rafael Moura alertou para a existência de vieses inconscientes no
tratamento a vítimas, afirmando ser necessário ter uma atuação técnica,
sensibilizando os membros do MP sobre a importância do uso de protocolos com perspectiva
de gênero e ações afirmativas que buscam remover obstáculos visíveis e
invisíveis (preconceitos e estereótipos) que impedem a resolução justa de um
caso.
Tribunal do Júri
Na sequência, a
promotora de Justiça Marcele Costa e Faria, do MP mato-grossense, trouxe sua
experiência pessoal na atuação junto ao Tribunal do Júri, uma fase da carreira,
conforme disse, que a impulsionou para os estudos de Direitos Humanos,
superação de preconceitos e ideias equivocadas a respeito da geração de impunidade.
Marcele Costa falou
da importância de o MP assumir o protagonismo e acolhimento à vítima, evitando
que outras instituições ocupem esse espaço que é, primordialmente, uma
atribuição ministerial.
Adiante, a integrante
do MP aprofundou a discussão sobre o impacto das decisões da Corte
Interamericana de Direitos Humanos na atuação do Ministério Público e a
necessidade de uma postura mais humana e indignada diante das violações de
direitos.
A esse respeito,
destacou que o Brasil possui 22 condenações na Corte, afirmando que todas
ocorreram em razão de o Estado ter desrespeitado o direito das vítimas ou não
puniu os violadores.
A palestrante
sublinhou a necessidade prática de humanizar a atuação do Ministério Público,
na importância da reparação às vítimas e no papel fundamental da instituição na
investigação de crimes cometidos pelo Estado, promovendo, por exemplo, a
colhimento e reparação financeira.
Ao final de sua
participação, a palestrante alertou que o Ministério Público precisa assumir
seu protagonismo na investigação de crimes envolvendo policiais, sob o risco de
perder essa atribuição para outras instituições.
Alento
Mediadora do painel,
a coordenadora do Navit/MPRO, promotora de Justiça Eiko Daniele Vieira Araki,
agradeceu os painelistas pelas exposições, ressaltando que a atuação em prol
das vítimas é um tema inovador e essencial para renovar o propósito da carreira
ministerial. “Em um 28 anos de carreira, a temática representa um alento e um
novo estímulo”, disse.
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