Sábado, 6 de junho de 2026 - 13h16

Bagé,
RS, 05.06.2026
Termo de Depoimento do Sr.José Antônio
Carneiro Borges
Aos
29 dias do mês de agosto de 2022, às 16h30 (Horário de Brasília), em audiência
virtual, realizada por intermédio da plataforma Teams, tendo como objetivo
compor o laudo pericial antropológico do Assistente Técnico da União dos autos
da ação cívica Waimiri-Atroari n° 1001605-06.2017.4.01.3200, vamos iniciar a
inquirição com o testemunho do Cel QEM José Antônio Carneiro Borges. [...]
Vamos
então às perguntas:
Pergunta: o Sr. serviu [trabalhou ou
prestou serviço] no 6° Batalhão de Engenharia de Construção [6° BECnst] em que
período?
Resposta: Sim, eu servi em dois
períodos, no 6° BECnst, o primeiro período foi do início de fevereiro de 1975
ao final de fevereiro de 1976 e o outro período de fevereiro de 1980 a
fevereiro de 1982.
Pergunta: o Sr. participou da
construção da BR-174, caso positivo qual sua função e em que período?
Resposta: Eu trabalhei na construção da
BR-174, nestes dois períodos. A primeira vez eu cheguei e fiquei dois meses na
sede do Batalhão e depois fui para o Abonari, sede do Destacamento Sul, e
fiquei lá até completar o meu tempo de serviço que foi em fevereiro de 1976,
quando fui para o Rio de Janeiro, para o 1° BECmb. A segunda vez após a
conclusão do curso do IME (Instituto Militar de Engenharia) eu fui para o 6°
BECnst chegando lá em fevereiro de 1980 e fique por lá até fevereiro/março de
1982.
Pergunta: o Sr.
tomou conhecimento, na época, dos massacres perpetrados pelos Waimiri-Atroari
ao Posto Alalaú II [no dia 01.10.1974], à turma de desmatamento – os
maranhenses [no dia 18.11.1974], e ao Posto Alalaú I [no dia 29.12.1974]?
Resposta: Eu soube dos massacres quando
eu cheguei ao Abonari a primeira vez por contatos com outras pessoas que tinham
participado principalmente do resgate dos corpos do pessoal massacrado no
Abonari e também me falaram sobre estes dois outros massacres, mas “an passant” ([1]), porque
quem sabia exatamente como tinha sido já não estava por lá, mas os massacres do
Abonari eu conheci pessoalmente as pessoas que trabalharam e tiveram contato
com os Índios, no caso o Coronel Tiaraju, na época Tenente da minha turma e também
fez o recolhimento dos corpos do pessoal da FUNAI
Pergunta: o Sr. após estes massacres
observou mais alguma atividade hostil por parte dos nativos?
Resposta: Bom como eu cheguei no
Batalhão depois de terem acontecido os massacres, eu não vi nenhuma diferença
do antes e do depois, porque eu não tive o antes, só tive o depois. Mas o
depois, eu fui para Boa Vista, quando cheguei e fiquei dois meses lá e por volta
do mês de abril eu fui para o Destacamento Sul, trabalhar na 1ª Cia Cnst, do 6°
BECnst que ficava no Alalaú e aí que eu comecei a ter contatos quase que
diários, ainda tinha pessoal com medo, receoso, a obra tinha ficado parada após
os massacres e tinha reiniciado novamente. Então não sei te dizer se ouve uma
diferença do antes e do depois porque eu não estive lá antes.
Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade
viu ou ouviu supostas rajadas de metralhadora ou a explosão de dinamite para
afugentar os nativos? Caso positivo, presenciou ou apenas ouviu à distância
ruídos que se assemelhavam a disparos e explosões, qual a frequência destes
eventos, teve a oportunidade de identificar quem eram os autores e como se
vestiam?
Resposta: Não. Nunca ouvi falar nada
sobre isso, sobre estes tiros, rojões, etc. Nunca vi nem ouvi falar que isso
tenha ocorrido.
Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade
viu Índios serem transportados por caminhões do Exército?
Resposta: Não, nunca vi.
Pergunta: o Sr. notou, neste período, o
sobrevoo de alguma aeronave militar sobre a área, além do avião da FUNAI ou do
6° BECnst?
Resposta: Não. Somente naquela época o
que mais voava por lá eram os aviões fretados pelo Batalhão, um monomotor que
ficava no Destacamento Sul e outro que ficava Destacamento Norte, avião militar
nenhum.
Pergunta: o Sr. sabe informar se a
FUNAI, a partir de 1975, acompanhava os trabalhos de abertura das picadas pela
equipe de topografia?
Resposta: As picadas da topografia
foram na verdade realizadas pela equipe que fez o projeto da Estrada e esta
empresa, se não me falha o nome, que eu me recordo que estava escrito nos
projetos eu acho que era empresa LASA. A LASA é que executou os projetos e as
picadas da topografia. Então não tinha ninguém da FUNAI acompanhando as picadas
da topografia que eu saiba. Se houve foi antes do meu período e deve ter sido,
se ouve, alguém da equipe do Gilberto que morreu.
Pergunta: o Sr. sabe informar se houve
alguma iniciativa, por parte da FUNAI, para afastar os Indígenas das frentes de
trabalho?
Resposta: Não, não sei de nenhuma, de
nada que tentassem fazer com que os Índios saíssem, ao contrário, que eu saiba
eles tentavam estabelecer contatos através de Índios que eles levaram de outras
tribos para lá, principalmente Suruís que levaram de Rondônia para lá.
Pergunta: o Sr.
presenciou algum suposto ato hostil por parte dos trabalhadores em relação aos
Waimiri-Atroari?
Resposta: Não. O pessoal até tinha
medo, mas eles ficavam a maior parte do tempo no eixo da estrada, então ato
hostil mesmo depois que houve os contatos que eu presenciei nunca houve nenhum
ato hostil que eu tenha visto de qualquer militar ou civil que estivesse
trabalhando lá contra os Índios.
Pergunta: o Sr. poderia relatar qual a
orientação dos Comandantes das frentes de trabalho em relação aos
Waimiri-Atroari?
Resposta: A ordem era tratar os Índios
com benevolência, tentar sempre a amizade deles, então podemos dizer que a
orientação que nos foi dada era de que jamais deveríamos nos mostrar como
inimigos e sim, sempre como amigos dos Índios. A primeira relação deveria ser a
mais amistosa possível e também a primeira coisa que deveríamos fazer assim que
tivéssemos contato com os Índios era avisar a FUNAI, às vezes não era possível,
ou quando ela chegava o contato já tinha sido feito, mas nunca houve nada
hostil contra os Índios. E também a ideia era essa sempre tentar manter a
amizade e até aprendemos algumas palavras da linguagem deles uma é “maré” e a outra é “marupá” – “maré”
significa tudo que é bom e “marupá”
tudo que é ruim, então quando nós víamos os Índios de longe já começavam a
dizer “maré, maré, maré”. Essa era a
nossa orientação.
Pergunta: o Sr. notou a presença de
algum estrangeiro na área neste período?
Resposta: Sim. A FUNAI depois que houve
o massacre do Abonari, praticamente ficou sem ninguém lá e houve necessidade de
refazer seus quadros e levaram para lá três Sertanistas. Sendo que um deles já
tinha certo renome – Apoena Meireles, era da família Meireles. Os irmãos
Meireles também junto com os irmãos Villas-Bôas eram praticamente os ídolos da
FUNAI. Então foi o Apoena Meireles para lá e junto com ele foi um sertanista,
daqui do Rio Grande do Sul, Aimoré e outro conhecido com Zebel (acho que deve
ser apelido – José Belo, ou algo assim).
Pergunta: o Sr. poderia relatar qual o
comportamento da mídia, em geral, às ações Governo Nacional no período chamado
Regime Militar?
Resposta: Poderia te dizer que haviam
duas mídias, uma mídia que era favorável, ou pelo menos se mostrava favorável
ao Regime e uma outra que tentava prejudicar e hostilizar tudo que acontecia.
Estas eram as duas posições da mídia, sendo que esta segunda estava sempre procurando
algo que ela pudesse espezinhar o Governo.
Pergunta: o Sr. não acha que qualquer
ataque perpetrado pelas Forças Armadas, no final da década de 60 e 70 seria
amplamente explorado pela mídia?
Resposta: Sim, seria um “prato feito”
para eles
e se tivesse acontecido
alguma
coisa com
certeza eles
explorariam
e teriam
conhecimento o mais rápido possível.
Pergunta: o Sr. gostaria de acrescentar
mais algum comentário?
Resposta: Sim, o que eu poderia dizer é
o seguinte: posso ler? Eu escrevi algumas coisas sobre isso... O melhor não é
ler é falar. Quando eu cheguei ao Abonari, Destacamento Sul, maio/junho havia
sempre aquela, pairava aquele problema no ar que os Índios nunca mais tinham
feito contato direto, não se sabia o que ocorreria em um próximo encontro e
aconteceu algo interessante no mês de agosto foi à frente de serviço um Padre,
um Capelão Militar chamado Quinto. O Padre Quinto passou pelo Abonari, ele
ficava pouco no Abonari, e assim que ele passou pelo Abonari e, foi com a
autorização do comando do Destacamento ele foi até a Frente de Serviço, até o
Alalaú onde ficava a sede da Companhia e lá ele exerceu suas funções
religiosas, acho que rezou uma missa, eu não sei bem porque eu não sou
católico, e ele queria ira para Frente de Serviço, até a ponta de serviço e
foi, ele insistiu tanto que dormiu de 13 para 14 de agosto de 1975 (eu me
lembro do dia porque é o dia do aniversário do meu pai). O Padre Quinto foi até
a frente de serviço e passou por todas as nossas equipes bueiros,
terraplenagem, revestimento primário, e chegou à ponta do desmatamento onde
estava o Ten Cláudio. Enquanto ele lá estava e as máquinas trabalhavam fazendo
o desmatamento mecânico, dali a pouco apareceram três Índios, e assim que
surgiram estes três Índios todo mundo parou, as máquinas pararam e ficou aquele
clima tenso a equipe sentiu que estava cercada e como havia muito barulho no
mato deveriam ter muitos Índios por ali.
O
Cláudio não estava sozinho com esse pessoal, estava com ele um GC (Grupo de
Combate) do 1° BIS de Manaus, nove homens comandados por um Sargento e armados
de FAL e o clima ficou tenso e o Padre Quinto teve a iniciativa de tirar um
cintura um cinto NA, que ele levava na cintura, e entregou a um dos três Índios
que estavam armados de arco e flecha e esse Índio pegou e deu uma flecha ao
Padre Quinto. Isso aí então quebrou uma barreira, o último contato com eles com
os Brancos que nós conhecemos tinha sido em dezembro, um dia ou dois antes do
massacre do Posto do Abonari.
Então
desde dezembro foram oito meses, e ali as coisas começaram a melhorar, aos
poucos os Índios foram se aproximando de nós, eles surgiam quando a gente menos
esperava. Eu mesmo tive três ou quatro contatos com eles, Eles sempre apareciam
querendo fazer trocas. O Padre deu o cinto e recebeu uma flecha outras vezes
biju, redes e outros apetrechos deles em troca de coisas que a gente tinha.
Então sempre tínhamos algo para dar para eles, espelhos, facões, panelas, e coisa
que eles mais gostavam de tudo era a lima. A lima para eles era o máximo, pois
eles pegavam os outros objetos metálicos e limavam e faziam pontas de flecha. Nestes
contatos, e foram vários, no começo só apareciam os Índios adultos, os homens,
depois começaram a aparecer adolescentes e por último começaram a aparecer
mulheres e crianças e com isso aí as coisas começaram a ficar compactuadas
nunca mais, que eu saiba teve algum contato inamistoso com os Índios.
Eu
fui embora transferido para o Rio de Janeiro e de lá para o 1° B E Cmb e de lá
para o IME, e três anos depois eu voltei para o 6° BECnst, fui corresponsável
técnico pela construção da ponte do Alalaú, fronteira do Estado do Amazonas e,
na época, Território Federal de Roraima, hoje Estado de Roraima. E naquela
época os Índios já estavam, a meu ver, os que estavam próximos ao Posto,
aculturados, o acampamento deles era o nosso antigo acampamento da 1ª Cia E Cnst
do lado Norte do Rio Alalaú. E nesse período a Reserva já estava consolidada
começando no Rio Abonari e indo até Jundiá. Então são estas considerações,
jamais vi qualquer encontro inamistoso com os Índios.
E
como nada mais disse e nem lhe foi perguntado dou por encerrado o Presente
depoimento à 16h54 (Horário de Brasília).
Depoente: Cel Eng José Antônio Carneiro Borges
_________________________________
Cel Eng Hiram Reis e Silva
(Assistente Técnico da União)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
(2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola
Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
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