Sábado, 6 de junho de 2026 - 07h50

Bagé, RS, 04.06.2026
Cel Eng José Antônio Carneiro Borges
Lembranças
da Minha Vida no Destacamento Sul do 6° BEC
Cheguei a Manaus, com minha esposa, no
final de março de 1975 e fomos para a Casa de Hóspedes do 6° BECnst (6°Batalhão
de Engenharia de Construção), situada na Rua Lima Bacuri. Tinha sido
transferido do 3° BECmb (3°Batalhão de Engenharia de Combate), situado em Cachoeira
do Sul (RS) para o 6° BECnst, sediado em Boa Vista (RR). A missão principal na
época era a construção da BR-174 entre Caracaraí (RR) e Manaus (AM). Eu ainda
tinha alguns dias de Trânsito e nós queríamos conhecer um pouco Manaus e sua
famosa Zona Franca.
Estava lá, quando dois dias depois chegou o Cel
Arruda, Comandante do Batalhão, vindo de Boa Vista, junto com o Cap Yamanaka,
Chefe da Seção Técnica. Apresentei-me ao meu novo Comandante e fui comunicado
que iria, por algum tempo, ficar na sede do BEC, onde ficaria preparando a
incorporação dos novos Soldados e que, após a incorporação, eu iria para o
Abonari, pois estava designado para servir na 1ª Cia de Construção que era
diretamente subordinada ao Destacamento Sul. O Cel Arruda tinha ido a Manaus
para receber o Gen Diretor da DOC (Diretoria de Obras de Cooperação) que estava
chegando de Brasília para inspecionar as obras e verificar os problemas do
Destacamento Sul. Fui convidado pelo Cel Arruda para me incorporar à comitiva a
fim de conhecer o Abonari e os trabalhos com que iria me deparar em breve.
No dia seguinte, decolamos cedo em um Búfalo da FAB e
aterramos no pista de pouso do Abonari. Lá estavam para recepcionar a comitiva,
o Maj Balbino, Cmt do Dest Sul, o Ten Mazotti, Cmt da 1ª Cia e outros oficiais.
Seguimos em várias viaturas até a frente de serviço que ficava a alguns
quilômetros adiante, em sentido Norte. Fui em um jeep com o Mazotti, da Turma
de 1971, com quem eu tinha servido no 3° BE Cmb, em Cachoeira do Sul. Durante o
deslocamento soube de alguns detalhes sobre os massacres e também da forma como
a Companhia atuava na construção da rodovia.
Fomos até onde ficava um acampamento de obras e
retornamos ao Abonari, passando pelo Campo de Pouso e chegando ao acampamento
do Destacamento Sul. Lá foi explanado à comitiva, pelo Maj Balbino, a situação
das obras e os cuidados que estavam sendo tomados para o retorno aos trabalhos
com segurança.
O Cel Arruda, o Maj Balbino e o Cap Yamanaka
acompanharam a comitiva em uma visita a todo o acampamento, que ainda estava em
construção, inclusive a Vila onde residiam as famílias. À noite foi realizada
uma pequena recepção para mim pela tenentada: Mazotti, Tiaraju (da minha Turma
72) e um Ten R/2 chamado Eduardo, oriundo do CPORR (Centro de Preparação de
Oficiais da Reserva de Recife). Foram bons momentos com eles e suas esposas na
casa do Mazotti. Nessa reunião eu soube de mais alguns detalhes sobre o que
eles vivenciaram durante os massacres de dezembro de 1974.
No dia seguinte, decolamos para Manaus, onde a
comitiva pousou para uma escala e nós seguimos para Casa de Hóspedes (CHO) onde
permaneci mais alguns dias, antes de seguir para Boa Vista, pois ainda tinha
mais alguns dias de Trânsito. O Cel Arruda e o Cap Yamanaka seguiram para Boa
Vista no mesmo dia, através de um bimotor, locado pelo Batalhão, tendo antes
comparecido ao QG (Quartel General) do 2° GEC (Grupamento de Engenharia de
Construção).
Durante o deslocamento que realizei com o Mazotti e no
jantar daquela noite, aprendi muitas coisas sobre a obra e me inteirei da
situação com os Indígenas. Eles me informaram que a 1ª Cia Cnst e o Dest Sul
ocupavam, até então, o mesmo acampamento, mas que de agora em diante o
Destacamento ficaria no Abonari e a 1ª Cia seguiria se deslocando e realizando
a obra. Esses acampamentos mudavam constantemente de localização à medida que a
obra avançava. Naquele momento o acampamento do Abonari estava em conclusão e
ficava localizado a 220 km de Manaus. O acampamento que estava sendo
desmobilizado era o de Santa Cruz, a 140 km de Manaus, próximo a atual cidade
de Presidente Figueiredo.
Na sede do Destacamento, além do Comando, permanecia o
pessoal do 6° BEC encarregado da segurança, a Seção de Saúde, as oficinas, os
depósitos de suprimento, os locais de armazenamento de combustíveis, a
subsistência e demais setores de logística, bem como as Vilas para as famílias
de alguns militares. Soube também que o Abonari estava sendo reforçado com a
construção de uma alta cerca de arame farpado, guaritas de segurança e
recebendo mais militares da sede.
Além dessas medidas, a FUNAI iria refazer seus quadros
que haviam sido destroçados pelos massacres, como vou relatar pelas informações
recebidas. Segundo estas informações, o que ocorreu em dezembro de 1974, foi o
seguinte:
Antes do Natal o Destacamento Sul entrou em uma
dispensa de fim de ano e só retornaria aos trabalhos nos primeiros dias de
janeiro de 75. Quando ocorriam essas dispensas, chamadas de “arejamento”, ficavam alguns homens de
serviço no acampamento, havendo sempre um Oficial no comando. Naquela dispensa
o Oficial era o Tenente Tiaraju que permaneceu no Abonari com o pessoal de
serviço e sua esposa, a senhora Olinda.
O acampamento do Destacamento ficava a alguns
quilômetros do Rio Abonari e entre eles ficava o Campo de Pouso. Partindo do
acampamento do Destacamento, chegando ao Rio Abonari e navegando para montante,
no caso para a esquerda, em alguns minutos de deslocamento, por voadeira (canoa
motorizada), chegava-se ao acampamento da FUNAI. Lá ficava um grupo de homens
Chefiados pelo Sertanista Gilberto, responsável pela Fundação na área. O
relacionamento entre os componentes da FUNAI e do Exército era bom, mas havia
um problema até então, qual seja, a não existência de comunicação rádio entre
ambos.
Alguns dias após o início da dispensa, um grupo de
Índios Atroari apareceu na entrada do acampamento do Destacamento e o Ten
Tiaraju foi informado e se dirigiu ao encontro deles. O encontro foi amigável,
os Indígenas receberam alimentação, andaram um pouco pelo acampamento,
passearam em uma caçamba, conheceram o pessoal de serviço e também a esposa do
Ten Tiaraju. Enquanto isso ocorria, um mensageiro foi ao acampamento da FUNAI
dar conhecimento do fato. O Sertanista Gilberto, único que conhecia a língua
dos Atroari, seguiu com alguns de seus homens ao Destacamento, sendo que de lá
voltou à sua Base levando os Índios consigo.
Passaram-se poucos dias e nenhuma notícia chegou ao
Destacamento, até que um dos funcionários da FUNAI apareceu na estrada com uma
flecha atravessada no corpo. A flecha entrou nas suas costas e cruzou o tórax
abaixo da clavícula esquerda. Ele foi evacuado prontamente para Manaus, mas
antes deu a sua versão sobre o ocorrido. Seguiu de viatura para atendimento
médico, tendo antes de partir recebido os primeiros socorros dados pelo pessoal
do 6° BEC.
Ele disse que chegaram ao acampamento da FUNAI no fim
da tarde e jantaram com os Indígenas e após a refeição se dirigiram para os
seus alojamentos e os Índios ficaram em um tapiri construído com a finalidade
de recepcioná-los. Pela manhã, o sobrevivente foi à margem do Rio para fazer
sua higiene e quando estava se lavando ouviu um alvoroço no acampamento olhou
para trás e viu um Índio apontando uma flecha para ele. Instintivamente ele
mergulhou no Rio e foi flechado. Fingiu-se de morto a correnteza o levou até
próximo da ponte, de onde ele percorreu a estrada e chegou ao Destacamento. Não
sabia mais do que isso, não sabia dos outros seis homens da FUNAI, nem tampouco
dos Índios.
O Ten Tiaraju informou, ao pessoal que estava em dispensa em Manaus, o que ocorreu, e preparou uma pequena Expedição seguindo para o acampamento da FUNAI, onde encontrou os cadáveres dos outros funcionários, inclusive o de Gilberto. O acampamento estava muito danificado e não foi possível se comunicar com ninguém da FUNAI na área ou em Manaus, via rádio. Os corpos foram recolhidos ao Destacamento e colocados em um caminhão frigorífico, de onde, posteriormente, seguiram para Manaus.

Nesta mesma época houve dois outros massacres, um em um acampamento da FUNAI no Rio Alalaú, onde todos os funcionários foram encontrados mortos a flechadas e um terceiro em uma equipe de desmatamento manual. Não sei quem participou do resgate ou enterrou os mortos. Este acampamento da FUNAI às margens do Rio Alalaú para montante, tinha seu acesso somente por água. O Rio Alalaú, como sabemos, é a divisa entre os Estados do Amazonas e Roraima, e que na época era um Território Federal.
Vista de cima, a chamada Planície Amazônica parece um tapete, pois todas as árvores crescem a procura da luz solar e parece uma imensa planura. Todavia lá embaixo a situação é diferente, existem ondulações no terreno e em todas as áreas mais baixas existe água e solo lodoso, seja água corrente formando Igarapés (Arroios) ou água parada formando os chamados Igapós.
O primeiro trabalho na execução de uma estrada na floresta é o desmatamento e no caso da BR-174, era executado de duas formas. O principal era realizado por grandes tratores com cabine tipo Komatsu 155 e Caterpilar D8. Esses tratores não conseguiam trabalhar nas baixadas por causa de seu peso, pois atolavam. Nas baixadas o desmatamento era manual, utilizando homens de uma empreiteira com motosserras, foices e facões. Além do desmatamento manual, esses homens faziam com os troncos das árvores caídas, um caminho para a passagem dos tratores para a região mais alta seguinte. O tamanho das baixadas era muito variável e a quantidade de homens do desmatamento em cada uma delas dependia da sua extensão, chegando, em alguns casos, a ter mais de vinte. Como os tratores desmatavam em um ritmo muito grande e para que eles não parassem, o desmatamento manual estava sempre muitas baixadas à frente.
O massacre aconteceu então em uma pequena baixada onde três homens trabalhavam, quando foram atacados pelos Indígenas. Pelo que soube dois morreram e o terceiro desapareceu, provavelmente ferido e nunca mais encontrado. Após esses massacres, que ocorreram no final de 1974, o (CMA) Comando Militar da Amazônia ordenou a suspenção das obras até haver segurança para todos, pois os quadros da FUNAI na área estavam a zero junto à obra e havia necessidade de mais proteção.
Esses foram os fatos que tomei conhecimento. Como disse me encontrava em Manaus, onde fiquei alguns poucos dias e segui para Boa Vista, sede do 6° BEC. Lá trabalhei no preparo da incorporação e no início dela, até que chegou, transferido, também do 3° BE de Cachoeira do Sul para o 6° BEC, o Ten Cláudio, que me substituiu e eu segui com a esposa para o Abonari. Neste período a minha mudança já tinha chegado ao Destacamento Sul e, inclusive, o meu Fuscão 73.
Depois de passar pouco mais de dois meses em Boa Vista, sede do 6° BEC, envolvido na instrução dos novos recrutas, segui viagem para o meu destino final daquela empreitada, ou seja, trabalhar na construção da BR-174, entre Manaus e Caracaraí. Minha esposa e eu embarcamos em um avião monomotor que estava locado pelo Batalhão para dar apoio ao Destacamento Sul, seu prefixo era PT-JOH e pertencia a uma empresa de táxis aéreos de Santarém-Pará e seu piloto era o Cmt Márcio. Foi um voo tranquilo, onde se pode observar bem a vegetação. Inicialmente era o lavrado de Roraima e logo após Caracaraí, a transição para a floresta e finalmente, a esplendorosa Floresta Amazônica, nossa Hyloea. Pousamos no Campo de Pouso do Abonari, onde fomos recebidos e embarcamos em uma camionete de onde seguimos para o acampamento do Destacamento. Existia uma Vila de oficiais, onde uma casinha recém-construída estava à nossa espera. A Vila era formada por seis casas iguais e as esposas do Mazotti, do Tiaraju e do Eduardo nos aguardavam. A esposa do Eduardo estava com um filhinho de aproximadamente dois anos no colo. Enquanto as mulheres se conheciam, eu me dirigi ao Pavilhão de Comando, para me apresentar oficialmente ao Maj Balbino, Cmt do Destacamento Sul e receber as suas orientações sobre o meu trabalho que seria na frente de serviço, como Chefe da Terraplenagem.
Conheci com mais detalhes o acampamento tendo como cicerone o Ten Tiaraju que era, na realidade, o “Prefeito do Abonari”. Passei aquela tarde no acampamento e à tardinha regressou ao Abonari, o Ten Mazotti. Ficamos conversando até tarde e na madrugada seguinte segui com ele para a frente de serviço, já que o CMA havia suspenso a ordem de paralização das obras e elas recomeçaram.
Os trabalhos estavam se desenrolando lentamente devido a insegurança e principalmente porque a época de chuvas na área ainda não tinha terminado, estávamos em uma transição do inverno para o verão, era junho de 1975. As obras de terraplenagem estavam além de um morro conhecido como Morro da Voada e que tinha se transformado em um atoleiro devido às chuvas intensas. Da frente de terraplenagem até o Rio Alalaú eram cerca de oito quilômetros desmatados, onde havia um caminho de serviço precário e intransitável para veículos.
Para a travessia do Rio fora lançada uma balsa que se movimentava utilizando um cabo de aço como guia e que havia transportado dois tratores para a margem Norte, ou seja, para Roraima. Essas máquinas haviam desmatado uma cabeça de ponte de aproximadamente duzentos metros e haviam lá ficado à espera do fim da dispensa. Neste período os Indígenas quebraram os painéis de instrumentos dos tratores, rasgaram o estofamento dos assentos e fizeram outros pequenos estragos.
Ali começaria a minha odisseia na Amazônia e talvez a maior missão de minha vida. Foi determinado, pelo Comando do Destacamento, que parte da 1ª Cia avançasse para além do Rio Alalaú, enquanto o grosso da mesma chegasse com a estrada até a balsa. Coube a mim Chefiar estes homens que foram trabalhar além do Alalaú, no Território de Roraima. Montamos um acampamento precário junto a margem Norte do rio e começamos a trazer máquinas da retaguarda para junto da margem Sul e fazíamos a travessia das mesmas com a balsa. Meu segundo homem no comando era o Sgt Okamura, um veterano nas obras da BR-174. Enquanto a travessia era realizada e as máquinas colocadas em condições de operação, algumas delas faziam um desmatamento em um terreno mais alto, à direita do futuro eixo da estrada. Este local passaria a ser a sede da 1ª Cia até a junção das frentes de desmatamento do Destacamento Sul e Destacamento Norte que se deu em dezembro daquele ano de 1976. Atualmente, ali fica um posto da FUNAI.
Aos poucos a travessia das máquinas foi realizada e o acampamento definitivo foi ficando pronto. A frente do acampamento, no local da rodovia, a pista de rolamento foi alargada em uma grande extensão, de modo que servisse de Pista de Pouso para aeronaves pequenas e até aviões do porte dos Búfalos da FAB. Essa maneira de fazer pistas já estava incorporada à rotina do BEC, pois as pistas de Santa Cruz e Abonari tinham sido feitas dessa forma e a futura pista de pouso do Jundiá também seria.
Eu trabalhava na coordenação de todos os serviços realizados do lado Norte do Alalaú e de dois em dois dias ia até minha casa no Abonari. Chegava em casa à noite, quando o gerador já havia sido desligado e voltava de madrugada. Normalmente ia com o Mazotti, em uma camionete, até o acampamento antes do Morro da Voada. De lá seguia em um jeep até onde fosse possível e depois continuava a pé por mais de uma hora caminhando na área desmatada e que deveria ter sido um caminho de serviço, antes do inverno. O caminho era totalmente enlameado devido às chuvas e ao tráfego das máquinas e veículos, que seguiram do morro até à balsa, na maioria das vezes, tracionados por tratores que ainda continuavam no afã, pois tinham que levar combustível para a frente de trabalho.
Todos os Oficiais e Sargentos trabalhavam armados, eu usava um pistola .45 e uma carabina .30. A ordem era não atirar a não ser se fosse atacado. Neste meio tempo a FUNAI tinha refeito seus quadros e o 1° BIS [Batalhão de Infantaria de Selva], sediado em Manaus tinha colocado à disposição do BEC, um Pelotão reforçado, com 4 Grupos de Combate e aproximadamente 40 homens, sob o comando de um Tenente.
A FUNAI tinha mandado para a região três sertanistas e mais outros funcionários. Esses sertanistas eram Apoena Meireles, Zé Bel e Aimoré. Para dar segurança ao meu pessoal foi designado um dos GC [Grupo de Combate], sob o Comando de um Sargento.
Aos poucos as condições melhoraram, começamos a receber óleo diesel por balsas que chegavam pelo Rio Alalaú partindo de Manaus, o tempo melhorou e a terraplenagem que estava para traz, chegou até o Alalaú, unindo toda a estrada. Durante este período não se soube nada a respeito dos Indígenas. Por volta do mês de julho, o Ten Cláudio também chegou à frente de trabalho da 1ª Cia, que era a executante da obra no Sul, que ficou assim constituída:
ôô Comandante da Companhia: 1° Ten Mazotti;
ô Chefe da Terraplenagem: 2° Ten Carneiro;
ô Chefe do Desmatamento: 2° Ten Cláudio.
A frente de obras se dividia em várias equipes ao longo do trecho. Na vanguarda estava o desmatamento com seu time de máquinas para derrubar a floresta e junto a este pessoal, no máximo três baixadas à frente, o Desmatamento Manual. Também estava subordinada ao Ten Cláudio uma pequena equipe que mantinha uma ligação do restante da Cia até esse pessoal. Era a chamada equipe do Caminho de Serviço. Entre o Desmatamento e a Terraplenagem havia homens que eram de uma pequena empreiteira que montava bueiros metálicos. Logo depois vinham as equipes de terraplenagem, constituídas de máquinas diversas para a construção propriamente dita, da estrada. Eram duas equipes de máquinas, que trabalhavam 24 horas, havendo, portanto, no mínimo quatro equipes de homens e mais os reservas. Após encontrava-se a equipe de revestimento primário que, com caçambas, executava o encascalhamento da rodovia.
Além dessas grandes equipes havia outras menores, tais como as de topografia, de manutenção e mecânica, de construção de pontes de madeira, de abastecimento, de confecção e distribuição de alimentação, etc. Eram centenas de homens envolvidos, sem contar com os militares do BIS e o pessoal da FUNAI que tinham como missão dar segurança e contatar com os Índios, respectivamente. O tempo foi passando e chegamos ao mês de agosto, a obra estava se desenvolvendo bem e não tínhamos tido nenhum contato direto com os Indígenas. Vez por outra encontrávamos alguns vestígios, tais como pegadas, jabutis amarrados em árvores e algum resto de alimento. Como curiosidade, os Índios costumavam sair para caçar e quando encontravam jabutis, eles faziam um pequeno furo no casco e o amarravam com cipó à uma árvore. Se caçassem algo maior ou melhor, deixavam o jabuti preso como reserva de alimento. Caso não tivessem êxito, retornavam e comiam o animal. Sabíamos, portanto, que os Indígenas estavam perto de nós, mas não os víamos.
Como foi relatado, deu para ver que o nosso desdobramento ao longo do trecho era longo e só tínhamos dois Grupos de Combate para fazer efetivamente a segurança das equipes, pois um dos quatro grupos permanecia sempre com o pessoal do desmatamento e outro ficava de sobreaviso no acampamento do BIS, podendo se deslocar a qualquer momento. Esse acampamento era chamado de Base e tinha ligação via rádio com todos os Grupos, além de viaturas rápidas para sua locomoção.
O avião PT-JOH tinha várias e importantes missões na nossa atividade, tais como levar doentes ou acidentados, em situações graves, para Manaus, buscar peças importantes para que as máquinas parassem o menos possível, ligação do Destacamento Sul com a sede do 6° BEC em Boa Vista, pois não havia ligação por terra. E mais uma foi acrescida a partir dos massacres que ocorreram em dezembro de 1974, executar voos de reconhecimento sobre as malocas para ver onde havia fumaça e com isto identificar onde os Índios estavam naquele momento. Estes voos eram realizados com o Ten do BIS e algum dos nossos Oficiais. Sabendo quais as malocas estavam habitadas no momento, o Oficial do BIS poderia distribuir melhor os seus homens.
De vez em quando recebíamos uma visita inusitada como a que vou relatar. Era dia 13 de agosto e o Capelão do CMA, Padre Quinto chegou ao acampamento do Alalaú, passou o dia conosco e rezou uma missa no final da tarde. Ele queria ir até a ponta do desmatamento, ou seja, percorrer toda a obra e nós insistíamos para que não fosse devido a segurança, mas ele era muito determinado e no dia seguinte seguiu em um jeep até onde se encontrava o Ten Cláudio. Estavam observando o desmatamento mecanizado quando surgiram da mata três Índios armados de arco e flecha. Foi dada a ordem de paralização das máquinas e o Grupo de Combate se posicionou em torno da frente de serviço. Ouviram ruídos na selva e dava para sentir que haviam mais guerreiros na floresta. O momento era tenso, os Índios estavam com as flechas nos arcos e os Soldados com seus fuzis. O Padre Quinto tomou a iniciativa, tirou de sua cintura um cinto do uniforme e deu para um dos Índios e este deu-lhe, em troca, uma flecha e retornaram para a floresta. Este encontro no dia 14 de agosto foi o primeiro que ocorreu naquele ano. A FUNAI foi informada, mas não chegou a tempo de presenciar o contato.
Após esse encontro, vários outros ocorreram neste ano, eu me recordo de ter participado de três deles. Todos foram amistosos, com troca de presentes, eles nos dando biju, flechas, balaios, redes e algumas frutas e nós dando-lhes bijuterias, panela, espelhos, facões e o mais valioso de todos, lima que eles passaram a chamar de cricri pelo som que fazia quando utilizada. Era muito valiosa, pois com ela, eles faziam pontas para suas flechas desmanchando objetos metálicos. Em um destes encontros consegui algo que era muito caro para eles, em troca de algumas limas. Consegui um belo arco. As flechas eram munição, mas o arco era a arma e valia muito. No início, aos encontros só vinham homens, depois passaram a vir crianças maiores e, por último, mulheres e crianças menores.
Aos poucos os Atroari e os Waimiri foram se tornando menos ariscos. Passamos a conhecer algumas palavras, sendo que duas eram fundamentais. Maré era tudo de bom, amigo, gostoso, companheiro e belo. Marupá era o contrário, inimigo, ruim, dor, machucado e feio. Quando víamos um ou mais Índios nos aproximávamos gritando, maré, maré.
A FUNAI também conseguiu outros contatos com os Índios, tendo levado Indígenas oriundos de Rondônia, da tribo Suruí para os auxiliarem. Também levou um casal de antropólogos americanos para estudar o idioma dos Atroaris e que passou a residir no acampamento da FUNAI do Abonari. Assim continuou a nossa vida até dezembro daquele ano e na antevéspera do Natal as frentes de desmatamento dos dois destacamentos se encontraram e estava aberta a BR-174, ligação de Manaus até a fronteira com a Venezuela, no marco BV8.
A abertura ao tráfego demorou mais de um ano, pois assim que terminou a junção das frentes, iniciou um inverno com muitas chuvas. Fiquei mais uns meses no Destacamento Sul e fui transferido, a meu pedido, para o Rio de Janeiro. Fui classificado no 1° BECmb, sediado no bairro de Santa Cruz.
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
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