Sexta-feira, 5 de junho de 2026 - 07h50

Bagé,
RS, 02.06.2026
Cap Telmo Travassos de Azambuja
Verdades X Mentiras: O Exército Brasileiro na Construção da BR–174
A melhoria da
infraestrutura fez parte das iniciativas para o desenvolvimento do País, no período
de 1964 a 1984. A construção de rodovias como a BR-174, Manaus – Boa vista, com
destaque para o trecho Caracaraí [RR] / Manaus [AM], possibilitando a ligação
dos dois Estados, por inserir-se neste contexto, representou um passo
importantíssimo para a consolidação da Rede Viária Sul-Americana e do Sistema
Pan-Americano de Rodovias (Brasil, Venezuela, Uruguai, Argentina e Paraguai).
Para que a BR-174 pudesse ser construída foi preciso criar, pelo Decreto
Presidencial N° 63.184, em 27.08.1968, o 6° Batalhão de Engenharia de
Construção, sediado em Boa Vista, RR. Posteriormente, em 1970, o DNER e o
Exército Brasileiro assinaram convênio para que a BR-174 fosse construída. Tal
ano é considerado o marco do início das ações efetivas para a construção da BR-174.
Cabe ressaltar
que:
1. No cenário da época vigorava
a chamada “Guerra Fria” [de 1947 a
1991], tendo de um lado a liderança dos Estados Unidos da América – defensor do
capitalismo e da democracia – e de outro a liderança da URSS [União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas], defensora do socialismo e do comunismo.
Aliados na Segunda Guerra Mundial, suas ideologias contrastantes segmentaram a
liderança política, econômica e militar mundial no pós-guerra. Foi neste
contexto que o Governo Brasileiro implantou projetos para segurança, integração
e desenvolvimento da Amazônia, dentro de um planejamento geopolítico para a
região, com base na doutrina de Segurança Nacional, com alinhamento ao
capitalismo e à democracia;
2. A ideia de construção de uma
estrada nos moldes da BR-174 era antiga, tendo sido realizadas várias
tentativas, todas sem sucesso: em 1847, em 1893 e em 1928. O ponto central deste desejo sempre foi a integração da Amazônia ao
restante do
País;
3. Os Waimiri-Atroari na verdade são dois subgrupos de Índios, ambos do Grupo Kinja: os Waimiri, que na época da construção da BR-174 eram liderados pelo Tuxaua [Líder, Cacique ou Capitão] Maroaga, e os Atroari, então liderados pelo Tuxaua Comprido. A comunicação verbal destes grupos é a do ramo Caribe. Os Atroari foram considerados mais belicosos do que os Waimiri, talvez pela influência do temperamento de seu líder Comprido, mais jovem e sem a maturidade de Maroaga [na faixa dos sessenta anos de idade, na época]. Os grupos eram unidos, mesclados, sendo que a companheira de Comprido era filha de Maroaga.

É importante considerar que desde a segunda metade do século XIX a área por onde passaria a rodovia BR-174 serviu de palco para recorrentes conflitos entre os Índios Waimiri-Atroari e garimpeiros, caçadores, castanheiros, tartarugueiros e aventureiros de todo tipo, bem como com a Polícia Militar do Amazonas, esta especialmente atuante nos anos 60. A justificativa da PM do Amazonas de interferir no contato com os Waimiri-Atroari deveu-se à proximidade de algumas aldeias com a Capital Manaus.
Em 1968 uma das mais conhecidas Expedições para consolidar a aproximação com os Índios Waimiri-Atroari dentro das iniciativas denominadas “Frentes de Atração”, coordenadas pela FUNAI, que substituiu o SPI [Serviço de Proteção ao Índio], foi liderada pelo Padre e antropólogo italiano Giovanni Calleri. Onze pessoas fizeram parte de referida expedição, sendo que dez membros da Expedição foram mortos pelos Waimiri-Atroari, sem nenhuma chance de defesa.
O único sobrevivente foi o mateiro Álvaro Paulo da Silva, conhecido como Paulo Mineiro. Calleri foi alertado por Paulo Mineiro que em função do comportamento rude e teimoso com que estava lidando com os Índios havia uma ameaça à vida dos membros da Expedição. Apesar do aviso e da insistência do citado mateiro, Calleri não lhe deu a devida importância. Então, Paulo Mineiro decidiu abandonar a Expedição para salvar a sua vida. No dia em que Paulo Mineiro fugiu, todos os demais membros da Expedição foram mortos pelos Índios, alguns enquanto dormiam. Segundo relato de Paulo Mineiro, ele foi perseguido pelos Waimiri-Atroari ao longo de alguns dias. Somente logrou sobreviver por causa da sua inegável experiência e competência em lidar com a realidade da selva.
O sobrevivente Paulo Mineiro, no período em que estive comandando a construção do trecho da estrada pertinente ao Destacamento Norte, foi um dos mateiros com os quais eu contava. Tive a oportunidade única de ouvir dele mesmo, detalhes do ocorrido na Expedição Padre Calleri. Lamentavelmente, após a minha saída, ele faleceu em decorrência de um acidente, quando prestava serviços de manutenção da estrada. Com ele se foi a memória dos detalhes do ocorrido no massacre dos membros da Expedição.
Durante a construção da BR-174 há evidências objetivas de 23 [vinte e três] mortes de colaboradores, sendo que 15 [quinze] delas foram decorrentes de ataques de emboscada pelos Waimiri-Atroari. Na área de responsabilidade do Destacamento Norte nunca revidamos, molestamos, ferimos ou matamos um Índio. Nossos contatos com Índios e informações sobre eles eram sempre através da FUNAI. Nosso lema era o mesmo de Rondon: “morrer, se preciso for, matar, nunca”. Nós é que estávamos cortando as terras que eles consideravam ser deles. A atuação da FUNAI ocorria apenas de forma pacífica, sem violência.
Outras iniciativas geradas pelas “Frentes de Atração”, coordenadas pela FUNAI e seus sertanistas, tiveram sucesso, embora relativo, pois os Waimiri-Atroari tinham comportamento notoriamente ambíguo [momentos de aparente receptividade e outros com doses de agressividade]. Tal variação de conduta dos Waimiri-Atroari provavelmente foi consequência dos contatos e conflitos [segundo pesquisadores, desde 1856], com os invasores já citados no início deste texto.
A construção da BR-174, iniciada em 1970, marcou a efetiva presença do Exército Brasileiro numa área com histórico de conflitos, num ambiente hostil não gerado nem fomentado pelos militares. Tal cenário de atritos, com aproximações e tentativas de aproximação, por décadas, gerou sequelas para todos. As sequelas ocorreram, tanto no lado dos Índios quanto no lado de civis e militares, pelas mais diversas razões [conflitos físicos, mortes, doenças como gripe, malária e outras decorrentes da presença de estranhos no bioma natural da região]. Presenciei, numa das chegadas de um grupo de Waimiri-Atroari no posto da FUNAI na área do Destacamento Norte, em 1976, que vários Índios estavam com sarna, que pegaram de seus cachorros. É importante destacar que epidemias oriundas de contatos dos Índios com invasores de seu território já eram conhecidas há muito tempo. Por exemplo, há registros de que, em 1926, dezenas de Waimiri-Atroari morreram por causa de uma epidemia de gripe.
Apesar das conhecidas quinze perdas humanas causadas pelos Waimiri-Atroari ao longo da construção da BR-174, reitero que nenhum ataque aos Índios nem qualquer morte de um Índio ocorreu por ação do Destacamento Norte do 6° BECnst, Unidade que comandei com muito entusiasmo e energia. O Exército matou Índios durante a construção da BR-174?
É uma pergunta que precisa ser respondida por quem viveu a situação ou por quem analisa informações confiáveis, de forma isenta, e não por pessoas que teorizam sobre a questão. Com a autoridade de quem comandou o Destacamento Norte do 6°BECnst nos anos 1976 e 1977 [portanto, nos dois últimos anos de construção da BR-174] reafirmo que nenhum Índio foi morto por ação militar, em toda a área que cobrimos.
As mentiras em contraponto ao que afirmo são revoltantes, disseminadas por meios de comunicação viciados, por pessoas desinformadas ou ideologicamente fanatizadas, considerando apenas as versões que lhes convêm. Na enorme área que abrangeu minha participação na condução das atividades do Destacamento Norte eu asseguro que tratamos os Índios de maneira respeitosa, mesmo após termos sido agredidos. Antes de ocuparmos a Amazônia os Índios já estavam na terra que chamamos Brasil.
Na área e no período em que estive na liderança da construção da estrada, até a sua conclusão, dou meu testemunho de que a atuação do Exército foi digna, competente, honesta e altamente profissional. Orgulho-me deste período da minha vida. Vi subordinados adoecerem, alguns morrerem, outros superarem extremas dificuldades, tudo para o bem do Brasil e dentro dos princípios éticos, de cidadania, de patriotismo, de respeito ao próximo, de disciplina, que caracterizam a formação de qualquer militar. Eu também passei por momentos delicados, de grandes riscos e graças a Deus os superei. Trabalhamos vinte e quatro horas por dia, durante todos os anos da construção, equipes de dia e de noite, sem parar. Paradas apenas no período das chuvas torrenciais, que aproveitávamos para manutenção dos equipamentos, capacitação do pessoal e planejamentos.
Nenhuma hora-extra ganhamos ou reivindicamos ao longo do nosso trabalho. O que ganhamos, dinheiro não compra. A conclusão da BR-174 ocorreu em 06 de abril de 1977, dia do histórico e inesquecível encontro entre as frentes Sul [Destacamento Sul, responsável pela construção no sentido Manaus – Boa Vista] e Norte [Destacamento Norte, responsável pela construção no sentido Boa Vista – Manaus] do 6° BECnst.
Eu estava presente no local [km 356,4] deste encontro e não é possível transformar em palavras a sensação, o orgulho da missão cumprida, o sentimento de ter concluído um esforço de muitos anos, conquista de muitas pessoas. O resultado prático da construção da BR-174 nos leva aos seguintes fatos:
1. Índios morreram, mas não por causa ou ação direta de militares do Exército Brasileiro. Pelo menos na área em que eu atuava isso nunca aconteceu;
2. Dos 23 [vinte e três] mortos da equipe de construção, 15 [quinze] foram mortos de maneira covarde [emboscada] pelos Waimiri-Atroari;
3. A integração por rodovia com o resto do Brasil e o desenvolvimento de Roraima, tornaram-se realidade;
4. A magnitude da obra e a capacidade de superação técnica e física dos obstáculos enfrentados com sucesso, é motivo de orgulho para o Brasil, para o Exército Brasileiro como um todo e, particularmente, para a sua Engenharia e Logística [Intendência].
O momento atual pelo qual passa nosso País, também merece algumas considerações:
1. Durante o período em que membros do Exército Brasileiro [EB] lideraram os rumos do Brasil, muito foi realizado, bastando buscar os registros do período, sendo que o principal objetivo [evitar que comunistas pró-Cuba e União Soviética destruíssem o Brasil] foi alcançado;
2. Quando os militares tinham o poder de decisão em suas mãos, democraticamente, nunca se aproveitaram para elevar salários ou gerar benesses próprias. Os salários dos militares sempre foram baixos comparativamente com outros segmentos. Nenhum poderoso militar enriqueceu às custas do dinheiro do povo;
3. De 1984 até o presente momento, os militares continuaram com baixos salários, sofreram grandes quedas em seus orçamentos e ainda passaram a ser tratados com desrespeito pelos ocupantes do poder;
4. Está sendo alimentado pelos poderosos do momento, a maioria oriunda de grupos ideológicos ultrapassados, simpáticos a movimentos antidemocráticos e buscando interesses materiais próprios, um preconceito contra os militares e até retaliações;
5. O povo brasileiro tem orgulho de suas Forças Armadas e boa parte sonha para que assumam novamente as rédeas da Nação, porém tal possibilidade está restrita à ação de intervenção dentro do que especifica o Artigo 142 da nossa Carta Magna;
6. Mentiras são espalhadas, sistematicamente, para desmerecer o comportamento e os feitos do EB [seminários, jornais, filmes, novelas, programas de entrevistas, etc.] quase como um mantra, uma orquestração;
7. Certas análises de valor e de versões dos fatos deixam de levar em conta o cenário, o contexto no período de construção da BR-174, gerando conclusões distorcidas da realidade;
8. Testemunhos e informações coletadas são analisados e levados em conta desde que sirvam de justificativas para o demérito do Exército Brasileiro e do Governo daquela época.
O exposto neste texto tem por objetivo trazer uma parte da verdade à tona, tendo como foco a BR-174, particularmente quanto à atuação do Destacamento Norte do 6° BECnst, no período de 1976 e 1977. Este meu testemunho é fundamental, neste momento em que se divulgam mentiras, do pós-verdade [“post-truth”, onde boatos ou versões apoiadas em apelos e crenças pessoais têm o mesmo peso em relação a fatos objetivos], do cinismo, da hipocrisia, das “fake news” [notícias falsas], de manipulações de dados e informações de todo tipo, visando interesses sórdidos de pessoas e grupos que assaltam a Nação sem nenhuma piedade com seu povo, tão deseducado para entender o quanto é manobrado, o quanto é incapaz de separar o joio do trigo.
Espero que um dia uma Verdadeira “Comissão da Verdade” exponha para a Nação o fiel retrato do que ocorreu e do que está ocorrendo.
Rio de Janeiro – RJ, 01 de novembro de 2017
(Telmo Travassos de Azambuja)
As duas fotos com os Índios Wai-Wai, merecem uma explicação:

Em 1976, quando estava inspecionando a parte já construída da BR-174, vi um grupo de Índios na borda da selva, próximo às margens da BR-174. Parei o carro e eles vieram até mim, amistosamente. Meu motorista era de origem Indígena (se chamava Aniceto / faleceu após 1977, num acidente com uma balsa na BR-174). Nem eu nem o Aniceto entendíamos o que falavam. Após algum sucesso na comunicação corporal, coloquei uns oito Índios na caminhonete, três dentro da cabine e outros tantos na parte aberta de trás do veículo, comunicando que iria levá-los até um Posto da FUNAI. Demais Índios permaneceram na selva. Levei-os até o Posto da FUNAI, onde foram recebidos. Segundo os funcionários da FUNAI houve um contato anterior entre a FUNAI e os Wai-Wai para ocuparem aquela área da selva próxima ao Posto. Por esta razão eles se deslocaram para o encontro. O Wai-Wai na foto comigo era o tuxaua dos Wai-Wai.
Chegando ao Posto eu passei apenas a observar os diálogos deles com o pessoal da FUNAI e acompanhei a apresentação inicial do local, na mata, pelo pessoal da FUNAI, onde os Wai-Wai analisaram o solo, a vegetação, se espalhando pela selva. Após as fotos me retirei do local e voltei à BR-174 para a minha rotina. Soube, depois, pelo pessoal da FUNAI, que os Wai-Wai não gostaram da área e optaram por não ocupá-la. A ideia básica da FUNAI era que com a presença dos Wai-Wai (já com fortes laços com os Brancos) naquela área a belicosidade dos Waimiri-Atroari diminuiria ([1]).
Encontrei esta histórica (Imagem 03) que mostra, após a euforia do primeiro contato das frentes Norte e Sul da BR-174, as lideranças presentes se cumprimentando em continência, para registro oficial do encontro, à margem da estrada. À direita da foto está o então 1° Tenente Eng Cardoso Ramos (representando o Destacamento Norte) e à esquerda (de camiseta branca) um militar (não sei quem é) representando o Destacamento Sul. Note que os trabalhadores das frentes observam, com respeito, a saudação dos dois representantes, marcando a união das frentes pela importante etapa da missão, alcançada.
Eu cheguei à BR-174 em janeiro de 1976 e comandei o Destacamento Norte até a inauguração oficial da estrada, em abril de 1977. Com a minha chegada, em 1976, o Cardoso Ramos passou a ser meu principal colaborador. Ele foi promovido a Capitão em 1976, tendo continuado a ser meu principal colaborador no Destacamento Norte. Dou meu testemunho do quanto ele foi importante na construção da BR-174, antes da minha chegada e depois me ajudando na condução da missão que recebi. Acho que esta foto (com menção ao Marcos Cardoso Ramos), teu relato do primeiro encontro ficará completo ([2]).
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
[1] Nota: vários Índios Wai-Wai estavam resfriados. Neste contato peguei uma gripe violenta e no dia seguinte tive que me deslocar com urgência para Boa Vista para tratamento médico. Diagnosticada pneumonia. Fiz tratamento forte por duas semanas e retornei para comandar o Destacamento Norte. Esta pneumonia, parcialmente curada, somente foi me deixar anos depois, por volta de 1984. Para você ter uma ideia do poder do virus gripal oriundo de Indígenas. (Telmo Travassos de Azambuja)
[2] Me surpreendi ao achar esta inacreditável foto. (Telmo Travassos de Azambuja)
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