Quinta-feira, 4 de junho de 2026 - 08h03

Bagé, RS, 01.06.2026
Meu caro amigo de longa data, ST Luiz Mário Severo Ávila, empresário,
advogado, escritor e agrimensor, que tive, no dia 09.02.2019, a satisfação de
reencontrar, é gaúcho de Santa Rosa, RS, onde nasceu a 14.06.1950. Atualmente
junto com seu filho Engenheiro Rodrigo Edson Castro Ávila, exerce trabalhos de
Engenharia e Consultoria na Empresa R. E. Castro Ávila e Cia Ltda. Graças a ele
e ao Ten Cel Vandir Pereira Soares Júnior tive acesso à coletânea do Periódico
“O Pium”, criado em maio de 1974,
pelo Sr. Ten Cel Eng QEMA João Tarcízio Cartaxo Arruda, Comandante do 6° BEC,
que relatava o dia-a-dia da valorosa família do “Batalhão Simón Bolívar” do qual passarei a reproduzir alguns
tópicos referentes à Questão Waimiri-Atroari.
O
PIUM n° 5, Boa Vista, RR, 20.10.74
ô
Atroari ô
ô Voltaram a ser Notícia Reagindo Violentamente
nas Profundezas da Portentosa Floresta Amazônica ô
Desta feita seus alvos foram os próprios funcionários da FUNDAÇÃO
NACIONAL DO ÍNDIO [FUNAI] que, dedicada amigavelmente tentam pacificá-los,
mantendo-os, entretanto, afastados da civilização e do homem Branco.
Agindo com tática e sangue frio, assaltaram o Posto da FUNAI, localizado
nas proximidades do Rio Alalaú e a um quilômetro aproximadamente da rodovia BR-
174, em construção, a golpes de terçado [facão] e fazendo uso de seu armamento
convencional, arco e flecha. Dos ataques perpetrados já resultaram cinco mortos
e três feridos que foram acolhidos por nossa turma de desmatamento. Reconhecimentos aéreos feitos no local
demonstraram a aldeia Indígena incendiada, sinal de que os Waimiri-Atroari
abandonaram a
área. Atualmente o 6° BEC desenvolve seus
trabalhos na construção da BR-174 entre os Rios Santo Antônio do Abonari e o
misterioso Alalaú, em plena reserva Indígena, trabalhamos desarmados, nossa meta
é de unir os brasileiros e
a nossa
missão é
de paz.
Venceremos!
O
PIUM n° 6, Boa Vista, RR, 20.11.74
ô
Atividades das Companhias ô
ô 1ª Companhia de Engenharia de Construção ô
A linha do Equador será seccionada pela BR-174 exatamente no Km 380. Para
cortá-la, aceleram-se as máquinas, estafam-se os braços, exige-se sempre mais
que INTELIGÊNCIA e VONTADE sejam transformadas em AÇÃO. Ação não faltou aos
militares e civis da 1ª Cia, que conseguiram atingir o Rio Alalaú com o
desmatamento manual, enquanto poderosos “BULDOZERS”
atingiam com suas lâminas o KM 258 da BR-174, no difícil e perigoso trabalho do
desmatamento mecanizado. Ainda, até 31 de outubro, a terraplenagem atingia as
alturas do Km 253 faltando, portanto, apenas 19 para ser atingido o Território
de Roraima. O volume escavado naquele mês foi de 508.238 m3 e há a
salientar ainda a construção uma ponte de madeira com vão de 72 metros sobre o
Rio MANILHA [Ten “MA”zzotti + Cap Bo”NILHA”] ou TAQUARI como é conhecido
pelos Atroari.
ô 2ª Companhia de Engenharia de Construção ô
Enfrentando ainda pesados aguaceiros, a 2ª Cia teve durante o mês de
outubro seu quinhão de vitórias. O Rio Anauá foi vencido e ultrapassado através
de uma balsa metálica levada até àquela altura quando o Rio estava em seu nível
máximo e apesar de as margens apresentarem-se pavorosamente desfavoráveis,
barrentas e escorregadias, conseguiram os homens da 2ª Cia Eng lançar dois D-8
na margem Sul do Anauá.
Com estas máquinas, trabalhando dia e noite na limpeza e destocamento, a
estrada avançou rumo ao Jauaperi onde ansiosos os tratoristas da linha de
frente do Destacamento Norte esperam “bater
as lâminas” com os do Destacamento Sul. O inatingível e lendário Rio Anauá
vai ficando para trás, com suas águas correntes cheias de ferozes piranhas e
velozes pirandirás, a alertar aos que a enfrentam desde que as suas águas foram
descobertas, mas não domadas, e que mistérios insondáveis existem nas suas
correntezas.
ô
Atroari ô
No dia 07.11.1974, seis Índios Atroari mantiveram contatos amistosos com
o pessoal de desmatamento da 1ª Cia Eng que está operando na margem Norte do
Rio Alalaú. O contato foi o mais cordial possível tendo aqueles Índios
inclusive penetrado na barraca do nosso pessoal e se retirado da área, após
reconhecerem o Posto da FUNAI, em cujo local funcionários foram sacrificados em
cumprimento do dever, no massacre ocorrido no dia 02.10.1974. No dia 13 de
novembro, por volta das 16h, repetiram a visita 04 Índios Atroari, desta vez no
Km 271 [16 km ao Norte do Alalaú]. Após receberem abastecimento de gêneros
alimentícios em troca de seus arcos e flechas, retiraram-se bastante
satisfeitos. Todavia, às 12h, do dia 17 de novembro, eis que vinte deles
atacaram quatro homens da turma de desmatamento, acampados no Km 25 ao Norte do
Alalaú, levando os gêneros que puderam, flechando o restante do material
existente. Três homens nossos estão desaparecidos, consoante informação
prestada pelo quarto, que fugiu na hora do ataque. Em consequência, os
trabalhos de desmatamento tiveram de ser paralisados até que uma “Bandeira Branca” seja levantada, e se
fume o “Cachimbo da Paz”.
Quando será?
O
PIUM n° 5, Boa Vista, RR, 20.12.74
ô
A Estrada – o Índio ô
Revestido dessa crença de perigo à simples alusão do nome Atroari,
iniciou-se o desmatamento manual, atingindo os trabalhos, sem problemas, o Rio
Abonari, e depois o Alalaú. O primeiro contato entre os trabalhadores da
estrada e os Atroari se deu às margens desse Rio. Àquela altura, era
impraticável o suprimento aéreo para o efetivo de 100 homens; da necessidade de
se utilizar o Rio como via de suprimento, nasceu a decisão de estabelecer o
contato. E ele ocorreu em ambiente festivo, com inúmeras trocas de presentes,
que consistiam da parte dos trabalhadores, em pedaços de plásticos coloridos
previamente preparados e alimentos em geral, e da parte dos Índios em caças
variadas [peixes, aves, jabotis, etc].
Sob esse
clima de
paz, vivendo
quase em
comum, trabalhadores
Brancos e
os Indígenas, durante
seis meses
o desmatamento
manual prosseguiu até atingir o Rio Jauaperi.Nesse ponto
foi interrompido o serviço e a equipe regressou à
Manaus, acompanhada pelos
Índios até
o km 60 da rodovia. Logo após esse regresso ocorreu, em
17.12.1972, o ataque ao acampamento da FUNAI, às margens do Alalaú, próximo à
área desmatada, com o massacre de três funcionários residentes e a fuga com
vida de outro. Mais tarde, já no ano de 1973, na construção de ponte madeira
sobre o Rio Abonari, foram restabelecidos aqueles contatos amistosos iniciais,
sob o mesmo ambiente de paz, embora menos frequentes. Os relatos dos elementos
que viveram tais situações evidenciam uma verdade grotesca: “O Atroari, antes de tudo é um Faminto”.
Numa escala crescente de idade e decrescente de vigor físico, as crianças
apresentam-se saudáveis, expressivos olhos pretos, cabelos aparados curtos de
um preto reluzente, contrastando com os mais velhos raquíticos, aspecto físico
deprimente, a causar pena. Vivem inteiramente nus, as Índias protegendo o sexo
com sementes de açaí ligadas umas às outras lembrando grandes cachos de uvas. No
aspecto geral, seu biotipo não difere do Branco e sua pele é bronzeada; não
possuem hábitos regulares de higiene, à exceção do banho, não muito frequente,
porém, entre as crianças.
ô
Os Últimos Acontecimentos – A Situação
Atual ô
Por imposição de projeto, atualmente, decorridos quase três anos daqueles
contatos amistosos, a estrada avança numa diretriz paralela àquela desmatada, a
partir do Rio Abonari. A equipe mais avançada, a de desmatamento manual [a
cargo do mesmo empreiteiro do serviço anterior] já ultrapassou o Alalaú e
trabalha em território roraimense. Em princípios de outubro de 74, ocorreu o
ataque ao posto da FUNAI do Rio Alalaú, que apoiava essa equipe, conforme
noticiamos no “O Pium N° 5”.
No dia 17 de novembro [“O Pium N° 6”],
quatro trabalhadores da turma de desmatamento manual foram atacados por cerca
de vinte Índios; era domingo e o restante da equipe encontrava-se gozando
dispensa em Manaus.
Dos três que, na ocasião, dávamos como desaparecidos, foram encontrados,
mortos, em lastimável estado que pressupõe uma macabra sequência de torturas,
os trabalhadores José Mendes e Cláudio Pires, o terceiro, João Moraes, continua
desaparecido. Duas flechas ligeiramente menores que as usuais, cravadas junto à
estaca 1.250 [trecho Alalaú Jauaperi] pressupunham a intenção de represália dos
Índios ao avanço dos serviços além daquele limite, o que obrigou o Batalhão a
paralisar os trabalhos de desmatamento manual. “O Pium” lamenta, profundamente ferido, as duas, provavelmente três
primeiras vítimas dos Atroari, diretamente ligadas ao Batalhão. No momento, a
estrada avança [...]; o Destacamento Sul trabalha com uma preocupação maior: a
da segurança. Com pesar, registramos esses últimos acontecimentos; não pudemos
formar uma ideia das causas que deram origem a comportamentos tão diversos
daqueles contatos iniciais. Sugerir-se ser da própria natureza dos Atroari esse
aspecto ambíguo de seu relacionamento social e outras considerações não
passariam do campo das conjecturas. Por enquanto, as teses se confundem, não há
uma conclusão definitiva...
O
PIUM n° 8, Boa Vista, RR, 20.01.75
ô
Atroari – Waimiri ô
A aproximação amistosa, a partida
amigável, o ataque fulminante ao alvorecer: o Índio sutil “inimigo” não catalogado nos manuais de combate. A incrível
coincidência das circunstâncias e dos saldos: superioridade numérica
temporária, sobrevivência de um e apenas um elemento, degola sistemática de um
dos massacrados, destruição do equipamento de comunicações, danificação do
armamento. Assim ocorreu, como os anteriores, o massacre de 29 de dezembro.
Assim transcorreu ao expirar o ano de 1974 no Destacamento Sul do 6° BEC.
Divulgada plenamente nos órgãos de imprensa, eis a história do massacre em
detalhes:
27 de Dez de
1974 – 14h – quatro Índios Waimiri entraram em contato com os
madeireiros Rafael Pereira da Silva e Bento Francisco da Conceição, que
derrubavam uma árvore a 500 metros do acampamento do Destacamento Sul [Km 220].
Conduzidos ao acampamento e apresentados ao Oficial de permanência, Tenente Eng
Tiaraju, foram acolhidos e, como manifestassem fome, levados a almoçar. À mesma
hora, mais três Índios chegaram ao acampamento vindos pela estrada. Todos jovens,
desarmados e demonstrando medo diante do funcionamento das máquinas. Atitudes
amistosas, almoçaram no rancho das Praças, comendo carne de gado pensando que
era de anta, pediram e receberam camisas, calções, bolacha e banana.
14h40 –
os Índios demonstraram desejo de retornar, apontando para o Sol. Embarcados em
viatura, seguiram com o Sgt Goulart até a Ponte Padre Calleri, sobre o Rio
Abonari, [km 226], onde se juntaram a mais vinte Índios que ali se encontravam.
Repetição das atitudes, abraços com Soldados, fotografias, promessa de retorno
trazendo flechas para presentear a tropa.
15h30 –
chegaram de Manaus o Capitão Bonilha e o sertanista Gilberto Pinto trazendo
presentes, alertados da presença de mais trinta Índios no Posto da FUNAI, em
Abonari.
16h – após
entrarem em contato com o Comandante do 6° BEC, em Boa Vista, e, autorizados
seguiram para o Posto Abonari II [20 minutos de barco à montante da ponte],
estabelecendo contato com o Cacique Maroaga, chefe do Grupo Indígena. Contato
amigável, o Cacique pediu para sobrevoar sua maloca, solicitou bolachas,
martelo e panelas grandes.
28 de Dez de
1974 – 07h40 – o avião PT-CYB, do 6° BEC, decola de Boa Vista, cheio de
presentes para os Índios: chapéus, panelas, biscoitos, etc...
12h –
encontro na ponte entre os elementos do Batalhão e os Caciques Maroaga e Mimi,
sempre acompanhados de Gilberto Pinto e mais vinte Índios. Cordialidade troca
de presentes, lanche com refrigerantes, passeio de caminhão. À tarde, no campo
de pouso, repetiram-se as trocas de flechas, pedido de mais panelas grandes,
atendido com as existentes no Rancho do Destacamento e nas casas dos Oficiais,
despedidas do Capitão Bonilha que seguiu para Manaus prometendo trazer mais
panelas.
29 de Dez de
1974 – 08h – o avião retornando de Manaus, sobrevoou o Posto, tendo o Cap
Bonilha constatado que o mesmo estava deserto e um corpo estendido no chão. No
acampamento, a informação do funcionário da FUNAI, Ivan Lima Ferreira: Massacre
ao alvorecer.
12h – um
grupo armado, a comando do Cap Bonilha, seguiu para reconhecer o Posto. Uma
hora após o cenario macabro: mortos por flechas e a golpes de terçado o
Sertanista Gilberto Pinto Figueiredo Costa e os funcionários da FUNAI João A.
Monteiro e João B. Aguiar, este último degolado. Buscas até às dezesseis horas
não conseguiram localizar o corpo de Osvaldo de Souza Leal Filho. Posto
abandonado: os Indígenas levaram o barco a motor da FUNAI, danificaram o
transmissor de rádio e quebraram as espingardas, deixando a munição. Ivan, o
único sobrevivente, além de umas poucas galinhas, 02 cachorros e um filhote de
caititu, jogara-se no Rio e fugira pelo mato, indo refugiar-se no acampamento
de 1ª Cia E. Assim foi o final de ano no Destacamento Sul.
03 de Jan de
1975 – em operação autorizada pela FUNAI, o Destacamento empreendia uma
verdadeira ação de marcha para o combate na selva, a comando do próprio
Comandante do Batalhão, com a finalidade de resgatar o corpo do funcionário da
FUNAI desaparecido, apresar os salvados do posto e reconhecer uma improvável
presença Indígena remanescente. Ligação terra-ar por painéis, grupos de combate
em deslocamentos por lances. Comunicações em terra através transmissores de
mão, vozes de comando inserindo-se à sinfonia da selva, a realidade do combate
presente a cada movimento. E os resultados: resgate do corpo de Osvaldo, morto
quando em fuga, e o recolhimento de flechas, arcos, caixas de materiais
diversos da FUNAI, panelas, armas quebradas, estações-rádio danificadas, barco
Indígena, munições.
O
PIUM n° 10, Boa Vista, RR, 20.03.75
ô
Eu vi minha Pátria Renascer – 31 de Março ô
Eu vi minha Pátria Renascer esplêndida, majestosa, altaneira. Eu vi minha
Pátria reviver em meio das brigas, das lutas, do vendaval pavoroso da multidão
enlouquecida. Era um cenário rude, torpe, muito estranho. O respeito não mais
distinguia os ambientes de trabalho; o calor humano não tinha valor algum
perante os interesses materiais. Só a baderna encontrava destaque nos setores
onde, frequentemente se alicerçava a discórdia. O quadro apresentado nada mais
era do que um cenário de indisciplina e desrespeito. Minha Pátria queria
sobreviver, impor a ordem, dignificar o respeito à criatura humana.
Sentia o peso da responsabilidade que lhe cabia de manter incólume as
glórias de sua tradição; de preservar a ação benemérita de seus antepassado, de
defender o valioso patrimônio histórico de suas glórias, conquistadas através
dos tempos, em longos anos de extremado sacrifício. O panorama da época se
mostrava entristecedor. Não se divisava entendimento. Eram feitos degradantes
onde o ódio palmilhava à risca sua trilha nefanda. O princípio de autoridade
sucumbia de maneira deprimente, cedendo lugar aos abusos da ação licenciosa.
Era um verdadeiro tumulto. Minha Pátria esteve à beira do abismo, seduzida
sorrateiramente pelo engodo de falsos compatriotas, os famigerados do poder
que, no intuito de conquistá-lo, se lançaram no mísero ridículo da hipocrisia.
A dignidade levianamente ia decrescendo de valor, subestimada em detrimento
da maldade, na preservação da imunda crueldade. Só se falava em guerra, greve,
revolta, na luta dos direitos forjados como justificativa de toda desordem. A
ordem e a justiça eram ridicularizadas em plena via pública numa projeção
clamorosa que atingia as raias da traição. Era sem dúvida um quadro deprimente.
Minha Pátria dileta, cuja Bandeira tremula altaneira em nossos mastros, nos
Quartéis, nos navios, nas escolas, nas Unidades de Fronteira, da mais próxima à
mais distante, simboliza em nossos corações o amor arraigado pela Terra que nos
viu nascer. E quando ameaçada em sua soberania, nos estimula ao processo de uma
réplica austera, como sinal de resposta ao insulto provocado. O grupo da
veleidade se constituía de pequena facção e foi por isso que não teve condição
de sobreviver, apesar da força aparente que manifestava ter.
Em boa hora surgiu a Revolução de 31 de março de 1964, que teve como
sustentáculo básico a mão redentora da Divina Providência, permitindo que as
Forças Armadas, alicerçadas em homens de bem e de caráter elevado, assumissem
as rédeas do poder e salvaguardassem e integridade de nossa Pátria, cuja
soberania esteve seriamente comprometida. São decorridos onze anos. Hoje, em
todos os quadrantes do Brasil, comemora-se esta maravilhosa data que representa
o repúdio e extermínio à essa grande chaga do totalitarismo que tentarem lançar
no coração da nossa sacrossanta Nação, batizada que foi com o nome de Terra de
Santa Cruz.
Brasileiros fieis que somos, ainda miramos espantados os perigos porque
passamos e nos rejubilamos com o evento da grande data, que nos restituiu a
paz, e confiança e a tranquilidade de vivermos numa terra ordeira, onde se
cultiva o amor, atributo legado de nossos antepassados. No momento preciso,
saberemos sempre nos defender com denodo, espírito da brasilidade e alma
verdadeiramente patriótica. (Ten Saraiva)
O
PIUM n° 10, Boa Vista, RR, 20.03.75
ô Waimiri-Atroari,
uma de Nossas Preocupações ô
O 6° BEC prossegue em seu ritmo dinâmico, de trabalho ativo, corrido e
acelerado. Há uma pressa generalizada em todas as atividades: o fim do ano está
próximo, e os dias esplêndidos de verão redobrarão o nosso entusiasmo em
produzir mais. A 1ª Companhia de Engenharia de Construção, o Destacamento Sul,
está atuando na região do Rio Alalaú: divisa do Estado do Amazonas com o
Território de Roraima, em plena área dos Silvícolas Waimiri-Atroari, que tem
sido até hoje um dos grandes obstáculos ao prosseguimento dos trabalhos. Depois
dos episódios dramáticos e cruéis, em que várias vidas foram sacrificadas pelos
temíveis Índios, agora, pelos fatos recentes ocorridos na linha de frente,
indicam que os Silvícolas, tomaram a iniciativa
de manter
contatos amistosos,
talvez como prelúdio de uma convivência mais pacífica.
ô Um Contato Breve e Amistoso ô
No dia 08.10.1975, por volta das 13h, no Km 240, na direção
Manaus-Caracaraí, a turma de desmatamento foi surpreendida com o aparecimento
repentino de Índios Atroari, que surgiram da selva desarmados carregando cestos
com bananas, pupunhas e cana de açúcar; se mostravam muito nervosos e
apreensivos, num estado psicológico de muita intranquilidade e até certo ponto
desconcertante. Depois dos primeiros contatos com o pessoal da linha frente,
retornaram à mata e, logo a seguir, apareceram mais 04 Índios, todos
desarmados, conduzindo às costas jamaxis cheios de frutas silvestres.
O Chefe do Grupo foi identificado como filho do Cacique Comprido. Eram
dois adultos, 01 garoto de aproximadamente 10 anos e 02 de 14 anos. Os 02
primeiros foram reconhecidos, pelo pessoal da linha de frente, como sendo os
mesmos que vieram no encontro do dia 14 de agosto passado. O garoto de dez anos
apresentava um ferimento no pé direito, resultante da mordida de um porco
selvagem, que foi prontamente atendido pelo enfermeiro
do acampamento, que
lhe fez
o curativo
devido.
O receio dos Silvícolas foi desaparecendo na medida em que se prolongava
o contato com o pessoal do Acampamento. E, como estavam famintos, almoçaram com
a equipe de limpeza. Queriam mais comida, sal, açúcar, redes [maquera].
Retornaram à selva prometendo voltar dois dias depois.
ô Novo Contato com os Índios WA ô
Os Silvícolas, cumprindo a promessa que fizeram, regressaram ao trecho em
construção da BR-174, na zona de ação da 1ª Cia E Cnst, no Destacamento Sul, às
15h do dia 12 de outubro. O evento ocorreu na manhã de domingo e os Atroari que
numa coincidência talvez, querendo homenagear o “Dia da Criança”, trouxeram em sua equipe 03 crianças, para
mostrar-lhes o mundo civilizado que desconheciam, portando frutas silvestres
diversas, arcos e flechas. O filho do Capitão Comprido também fazia parte desse
grupo e há quem diga que a equipe era liderada pelo Tuchaua Ponta de Lança que
mostrava para os curumins [crianças] o “caminzão”
[estrada]. Ponta de Lança era Capitão de outra maloca, que aproveitou a
oportunidade e também nos visitou.
Esses Indígenas residem à margem direita da estrada a aproximadamente
4.000 metros do eixo e foram atraídos pelo barulho das máquinas da equipe de
limpeza, que segue logo após a equipe de desmatamento.
Era meio-dia de domingo e as turmas regressavam dos diferentes locais de
trabalho, bueiros, caminhos de serviço, desmatamento das baixadas de Igapós
etc, para o almoço e aproveitar a tarde desse dia para folga merecida e alguns
afazeres pessoais. O Tenente de serviço, na linha de frente, tomou a iniciativa
de transportar
em caminhão
esses Silvícolas
acompanhados
de alguns elementos
da FUNAI
até o
acampamento
provisório do
Km 297,
onde foram
efetuadas as
trocas de
brindes. Naquele acampamento, 05 Índios
dos mais velhos e 03 crianças, apavorados com
o número
de trabalhadores
que se
acercou do
local, se
evadiram bruscamente
em direção à selva. Os demais Silvícolas permaneceram no
acampamento por cerca de uma hora, aproximadamente, na troca amistosa de
presentes.
Depois
retornaram no
mesmo caminhão
para a
linha de
frente, de
onde seguiram pela
mesma trilha
para suas
malocas e prometeram retornar dentro de 03
dias. O Aborígene Atroari já olha a
equipe bequiana como “Baré” [amiga,
bacana, legal, boa] e é através da troca de presentes e abraços, fato que se
renova a cada encontro que ele procura comprovar essa amizade que
se estreita
a cada
dia que
passa. Ainda no desenrolar destes acontecimentos, registramos dois diálogos
entre militares e os visitantes. Um dos Silvícolas da segunda equipe perguntou
ao Cabo Teles:
Caminzão, pra onde?
Ao que o Cabo respondeu:
‒ Pra Boa Vista.
O Índio voltou a falar, dizendo
num português bem ruim:
‒ Boa Vista, marupá [ruim, não é
amiga].
Na última visita, um dos
militares presentes perguntou a cada um dos visitantes:
‒ Cadê Maria?
E cada um respondeu:
‒ Maria, não.
Foi, então a vez de um Silvícola
indagar do militar.
‒ E Maria?
E o militar respondeu:
‒ Maria longe, Manaus.
E o Índio retrucou:
‒ Manaus, bom, muita Maria.
Desta forma, pelo desenrolar dos acontecimentos, acreditamos que em breve, iremos vencer mais
uma das grandes dificuldades que se antepuseram na dura e espinhosa caminhada de nossa vibrante
jornada.
O
PIUM n° 18, Boa Vista, RR, 20.11.75
ô Atroari ô
Durante um dos trajetos do Alalaú
até a clareira, a equipe sobrevoou o Posto de Atração da FUNAI, no Km 310, e
por coincidência se deparou com grupo de seis Índios Atroari trocando presentes
com os elementos que ali se achavam no momento. Aproveitando a oportunidades
foi feito pouso para fotografar e filmar os Silvícolas. Os mesmos não se
assustaram com o barulho do helicóptero e ficaram muito contentes em “posar” para os tripulantes, houve uma
verdadeira confraternização entre os Índios, elementos da FUNAI e funcionários
do Batalhão, provando assim, um relacionamento cada vez maior e diminuindo a
rivalidade tão agressiva dos moradores da selva, que tantas marcas lamentavelmente
tem deixado no desenvolvimento da nossa missão. [...]
O
PIUM n° 19, Boa Vista, RR, 20.12.75
ô Notícias do Batalhão ô
ô Jauaperi Ultrapassado ô
Primeiro foi a equipe de
desmatamento mecânico, que, no dia 21.03.1975, ultrapassou sem muitas delongas
para nos deixar cheios de ansiosa expectativa o “Rio Jauaperi”. Depois foi a vez do “Trairí”, atingido no dia 23.10.1975 que ficou rapidamente para
trás, e consequentemente visado está o “Rio
Branquinho”, mito que deixará de existir logo mais... Parabéns à toda
equipe, pois apesar da necessidade do bem-estar dos seus lares, fazem a força,
unificada, transformar-se em grande serviço de derrubada das árvores de
tamanhos descomunais, para acontecer o encontro alegre, que está previsto e
esperado por todos do Destacamento Norte, 6° BEC e aos observadores, na “reta de chegada já bem próxima”.
Na parte recuada, do
desmatamento, segue a turma que vai disputando com barro, areia, pedra,
piçarra, chapas metálicas, madeira e tudo enfim, pedindo lançamentos de bueiros
e tudo mais que é necessário para irem mais rápido ainda. A turma de
terraplenagem que também não só ultrapassou o “Jauaperi” no dia 03 de novembro próximo passado a 430.900 metros da
Capital Amazonense, como conseguiu a melhor produção, do ano de 1975, com
460.060 metros cúbicos de material escavado e lançado no eixo da estrada. Com o
famoso “Jauaperi” à retaguarda,
seguem agora, a passos largos, em direção ao “Trairí”, ansiosos, desde já pela chegada do Natal e com a acolhida
sonhada em seus, nossos, de todos os lares na cidade. Entretanto, o “Trairí” fica próximo agora. Em frente
companheiros, pois que estamos perto do objetivo ‒ “CONCLUSÃO da BR-174”, fator que impulsionará o progresso de
Roraima.
ô Homenagem
a João Morais ô
ô Flecha
Atroari Impede a Marcha de Morais ô
O fatídico incidente ocorreu em
plena selva Amazônica, já no Território de Roraima, no trecho considerado
reserva Indígena. Na época foi manchete em todos os jornais do País e agora,
passado um ano, vamos reviver o fato para prestar ao João Morais a homenagem
que ele bem merece. A tragédia se deu a 17.11.1974, era cedo ainda quando
Morais saia para caçar, uma vez que ele era uma das molas mestras da firma
Clodan Nunes, responsável pelo desmatamento manual da BR-174.
Por volta das 10h, ouviu-se o
estampido de arma de fogo ecoar pela floresta sombria. Depois voltou o
silêncio, a calma, a tranquilidade. Só a mata com seus pássaros buliçosos e
alegres, mais o farfalhar das folhas e o balouçar das flores silvestres enchiam
o ar com aquele aroma peculiar da selva.
Quando do retorno ao acampamento,
seus companheiros notaram a sua ausência. Julgaram-no perdido, apesar do
conhecimento profundo da região.
Combinaram-se e partiram para o
tronco de uma grande árvore [Sucuubeira] onde com machado dariam batidas
diversas para que pelo eco, pudessem ajudar o amigo retornar ao acampamento. Dos
três trabalhadores, um só ficou e quando a dupla se aproximava da árvore em
mira, foi atacada e trucidada pelos Atroari. Com a algazarra dos Indígenas, o
outro trabalhador saiu para ver o que se passava e, diante do horrendo
espetáculo que assistiu, fugiu apavorado em direção ao acampamento do BEC, onde
relatou a ocorrência. O trágico acontecimento se deu no local onde hoje está
plantada a estaca 1.125 [quilômetro 22,5 do trecho Alalaú-Branquinho]. Ao tomar
conhecimento do fato, a equipe de busca do Destacamento Sul, adentrou à selva
no intuito de localizar algum sobrevivente ou os cadáveres. Os dois
trabalhadores foram localizados, mas, o cadáver de João Morais não foi
encontrado.
Hoje, a BR-174, como uma
gigantesca sucuri serpenteia a selva Amazônica como a exibir o seu lombo
vermelho da piçarra, às vésperas do encontro acalentado por séculos nos seios
amazônidas, mormente, o roraimense.
Esse encontro deixará de ser um
sonho para tornar-se a realidade da década. Mas, antes que isso acontecesse era
necessário que muitas e preciosas, vidas fossem sacrificadas, muitas lágrimas
fossem derramadas, muitas noites mal dormidas, muito suor e sangue fosse
derramado. Era necessária coragem, bravura e, sobretudo, amor à Pátria. Isso é
natural dos grandes empreendimentos. Foi na Independência do Brasil, na Batalha
do Riachuelo, na Tomada de Monte Castelo, na construção da Belém-Brasília,
Transamazônica e assim, na construção da Perimetral Norte e BR-174, que
interligará Roraima ao resto do gigantesco Brasil.
Nessa hora de satisfação para
nós, queremos lembrar o João Morais que sem dúvida nenhuma deu a sua parcela de
colaboração, pagou com a vida a ousadia de ir bem à frente da estrada da
integração Manaus-Boa Vista e, em sua homenagem, que a ponte construída cobre o
Igarapé do Km 253 receberá o nome João Morais.
O
PIUM n° 20, Boa Vista, RR, 20.01.76
ô Marcamos um Encontro com o Impossível Para Vencê-lo
ô
Em 22 de dezembro de 1975, o 6°
BEC concluiu o desmatamento da BR-174, com o encontro das duas frentes de
serviço, aproximadamente sobre a linha do Equador, na altura do Km 362. A
conclusão desse trabalho possibilita, pela primeira vez, a ligação, por via
terrestre entre Boa Vista, Capital do Território de Roraima e Manaus, através
de uma rodovia de classe pioneira, com 776 Km de extensão, dos quais 86 Km ora
em caminho de serviço, construído ao longo da faixa desmatada de 70 m roubados
à floresta. Este significativo evento cresce de importância, e se constitui num
verdadeiro feito heroico ao considerarmos que, no afã de concluir os trabalhos
antes do Natal de 1975 antecipando-se aos prazos previstos as duas equipes de
desmatamento mecânico, sob as chuvas dos últimos quilômetros, conseguiram o expressivo
rendimento de 72 Km em apenas um mês de trabalho.
Fato interessante ocorreu nos
últimos dias que precederam o histórico encontro. Simultaneamente com o avanço
dos tratores derrubando a mata virgem, procedia-se o estudo de uma variante no
Rio Branquinho. A contagem regressiva indicava que no dia 18 de dezembro,
faltavam apenas 07 Km para o fechamento; logo, verificou-se que houve engano da
informação; a variante tinha alongado o traçado e na realidade faltavam 12 Km
para se atingir o Rio Branquinho, meta da chegada das duas equipes de
desmatamento mecânico. Era quase impossível proceder-se a junção das duas
frentes de serviço antes do Natal.
No dia 20.12.1975, o Destacamento
Sul atingiu o Rio Branquinho e iniciou imediatamente a construção de uma “pinguela” para transpô-lo com suas
máquinas. Nesse dia o Ten Cardoso Ramos, do Destacamento Norte venceu a pé, os
últimos quilômetros de pântano e fez ligação com o Ten Cláudio do Destacamento
Sul. Juntos hastearam a Bandeira Nacional nas margens conquistadas do Rio
Branquinho. O tempo passou a ser ameaçador e pesadas chuvas fizeram subir águas
do Rio, dificultando ainda mais a construção da ponte pinguela. O Cap Seabra,
Cmt do Destacamento Norte, fez ligação com o Cmt do Batalhão e marcaram a data
de 22 de dezembro, para o encontro impossível. Rapidamente o Cmt do
Destacamento Norte transmitiu a ordem ao Chefe da Equipe de Desmatamento
Mecânico, Sgt Garcia:
‒ Cumpra-se a previsão!
Enquanto o
Destacamento Sul, embora tenha sido o 1° a chegar ao lendário Rio Branquinho,
permanecia imobilizado nas jornadas de 20 e 21, detido pela fúria desse Rio
ainda não domado, redobraram-se os esforços do Destacamento Norte, agora tendo
à frente um imenso pântano de quase 05 km formado pelas últimas chuvas caídas. No
dia 21 dez, três tratores de lâmina do Destacamento Sul conseguiram transpor o
Rio. Trabalhou-se dia e noite ininterruptamente quando na tarde de 22.12.1975,
nas turmas dos Destacamentos Norte e Sul ouviu-se mais forte o ronco dos
tratores. Diante de nós tombou a última das grandes árvores, cujo estrondo
concretizou finalmente, o desfecho da grande epopeia, como Éolo ([1])
que sacudiu nossas mentes de intensificadas vibrações depois de estabelecer a
inscrição do epônimo ([2])
de quantos se imolaram na íngreme e exaustiva caminhada. Por fim, às 16h,
deu-se o tão esperado “encontro”.
Companheiros que vibraram no afã
de incontrolável contentamento da vitória e se defrontaram com chavascais quase
pântanos onde geralmente ficavam enraizadas ao terreno duas e às vezes três
máquinas, mas sempre ajudadas por uma quarta, que lhes servia como tábua de
salvação naqueles instantes quase angustiosos para o insofismável encontro, que
se daria dali a horas... Prosseguiram, vendo já as colunas de fumaça que as
máquinas do Destacamento Sul levantavam ao derrubar cortar e forcejar em
direção Norte, e isso dava uma sensação de saber-se necessário, pois na
posteridade seria lembrado com bravura, já que a guerra, luta contra a natureza
adversa havia vencido e isso fazia a todos que estavam presentes, sentir a
euforia de verem por terra os primeiros a virem de Manaus até o nosso
Território em veículos, coisa jamais conseguida antes... Encontraram-se;
pararam e olharam-se; operadores, Chefes de equipes e, como duvidassem do
feito, correram e abraçaram-se cheios de alegria, concretizando-se em seus
lábios:
‒ UFA! Vencemos companheiros!
Passados os primeiros instantes
onde a emoção tomou conta das palavras, mesmo cheios de lama em suas roupas,
foi pedido o encontro das lâminas dos tratores do Norte com os do Sul, sempre
irmanados pelo objetivo alcançado, e tiraram fotos debaixo da fina chuva que
caía implacável desde há muitos dias. O objetivo, inesperadamente conquistado,
alenta-nos o propósito de prosseguir com a experiência conquistada, para a
definitiva ligação de Manaus ao BV-8. A Hileia intransponível chega finalmente
ao término de sua inviolável penetração. O último desvão do Território Nacional
que ainda restava, ligado agora ao resto do País, demonstrando à Nação e ao Mundo que nos olha que o temeroso
desafio fora sobejamente conquistado para, gáudio de todos os brasileiros, que
neste momento nos rejubilamos com a conquista do evento.
Nosso preito de gratidão, de
reconhecimento e de saudade, àqueles que tombaram, no próprio campo de trabalho
e que a posteridade não irá esquecer.
Foram 23 companheiros, de Germano
Miranda a Severino Xavier Filho, verdadeiros lídimos da Engenharia Militar de
Construção que tudo deram de si, à sua Pátria, até mesmo o sacrifício da
própria vida. Aqui fica a nossa homenagem póstuma.
O
PIUM n° 23, Boa Vista, RR, 20.04.76
ô Nosso Entrevistado ô
ô “O Cearense
de Cedro” ô
Estatura mediana, mãos calejadas
e pele curtida pelo Sol do Equador, semblante alegre e conversa pausada,
caracterizam o Cearense de Cedro, André Moreira Nunes, que apesar do seu corpo
franzino, é como disse Euclides da Cunha, ‒ “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Chamado de “Pai André” pelos arredios Índios
Atroari, o grande pioneiro e desbravador, iniciou seus trabalhos de
desmatamento na Amazônia, no 5° BEC por ocasião da abertura da BR-364 e
continuou no 6° BEC, a partir de 1973, sendo o encarregado de uma das turmas de
desmatamento manual que atuou na frente Sul da BR-174. Pioneiro da grande
Rodovia viveu os mais diversos episódios e imprevistos impostos pela natureza
da região inóspita da selva, destacando-se a passagem pela Reserva Indígena,
como o problema mais extenso. Sempre sorrindo, relatou passagens difíceis da
sua tarefa, demonstrando grande tranquilidade.
‒ André: iniciamos o
trabalho de desmatamento manual no Km 86 até o Rio Jauaperí e foi justamente
nesse trabalho, que tivemos o primeiro contato com os Índios Waimiri-Atroari,
na ocasião da chegada ao Rio Alalaú.
‒ Repórter: qual a sua
reação ao se deparar com uma tribo Indígena, você teve receio de prosseguir na
missão ou continuou com esta tua maneira tranquila?
‒ André: bem, eu já estava
prevenido de que iria encontrá-los e como deveria proceder, porém passaram-se
dois dias e não, apareceram, o que indiretamente me forçou a realizar o
primeiro encontro após o Massacre do Padre Calleri. Fui pela lógica do serviço, se tínhamos de enfrentá-los,
tínhamos de achá-los. Não me causou nenhuma surpresa, apesar de ser um problema
a mais, no desenvolvimento dos nossos trabalhos; considero-os um acontecimento secundário
ante a
grandeza e
importância
da nossa
missão.
‒ Repórter: que atitude
você tomou para criar uma situação amistosa entre os Silvícolas e o seu
pessoal?
‒ André: foi muito fácil,
levamos brindes e fiz-lhes um convite a visitar o nosso acampamento. Daí
sucederam-se as visitas em caráter inteiramente amistoso, o que possibilitou
prosseguirmos tranquilamente até alcançarmos o Rio Jauaperí, ponto de conclusão
desse trabalho.
‒ Repórter: André, quando
aconteceu e como você procedeu com o primeiro alarme de um provável massacre?
‒ André: justamente quando
os trabalhos já alcançavam os 30 Km, após o Alalaú. Na ocasião, eu estava aqui
na Sede e o Coronel Oliveira, Comandante do Batalhão, na época, havia recebido
um alarme de que os Índios atacariam o pessoal da topografia e solicitavam
autorização para suspender os trabalhos. Tranquilizei o Comandante e retornei
imediatamente pedindo-lhe apenas que ficasse em contato permanente comigo pela
Estação Rádio do Batalhão. E tudo aconteceu como eu previra era apenas um
alarme falso, um alvoroço sem nenhum significado. Apenas realizaram um dos seus
costumeiros rituais. Dançavam entre batuques de tambores e gritos, em volta do
pessoal da topografia. E conforme transcorria o festival, eu transmitia ao
Comando e demais Oficiais do 6° Batalhão, as ocorrências através do rádio.
‒ Repórter: quando
realmente ocorreu o primeiro massacre e quais as causas que o provocaram?
‒ André: o Batalhão, por
razões técnicas, modificou o traçado da rodovia, o que nos fez refazer todo o
serviço de desmatamento manual a partir do Rio Abonari. E nesse trabalho, no
dia 17 de novembro de 1974, aconteceu o primeiro massacre, onde lamentavelmente
padeceram três funcionários da minha equipe de serviço. Como aconteceu no
primeiro alarme, eu estava aqui na Sede e retornei imediatamente ao acampamento
a fim do estudar um meio de encontrar e resgatar os corpos.Os trabalhos foram
paralisados, até segunda ordem, pelo General Fernando Belfort Bethlen,
Comandante Militar da Amazônia, e somente após seis dias encontramos dois
corpos completamente trucidados e em alto estado de putrefação. O terceiro
corpo do trabalhador João Morais até hoje continua desaparecido. Quanto as
causas não posso lhe dizer nada, pois não cheguei a nenhuma conclusão. Apenas o
que pude constatar foi que alguém permaneceu guardando [vigiando] os corpos por
dois ou três dias.
‒ Repórter: e o que o levou
a concluir isso?
‒ André: os vestígios
deixados. Alguém armou uma espécie de acampamento provisório, com palhas de
buriti, para proteger-se do Sol ou da chuva.
‒ Repórter: como você
reagiu após o massacre?
‒ André: com mesma
tranquilidade de antes, eles não me assustam. A minha reação foi de
curiosidade, de observação e não de medo. Sempre me relacionei bem com eles e
não consegui entender até hoje o porquê do massacre.
‒ Repórter: durante o
contato com esses Índios você aprendeu a linguagem deles ou se entendiam apenas
de forma mímica?
‒ André: a linguagem deles
é uma repetição contínua, portanto, fácil de aprender. Eu mesmo forçava algum
acontecimento, para provocar uma repetição, para ligar o que diziam com o que
eu entendia.
São dotados de uma grande inteligência e tem uma facilidade de
memorizar e de reconhecer o valor das coisas o que muito me impressionou.
‒ Repórter: Você pode citar
algum exemplo da rapidez de memória e reconhecimento do valor que eles
demonstraram para convencê-lo?
‒ André: a facilidade de
memorizar reconheci pelo seguinte teste; juntei um grupo dos nossos funcionários,
chamei um Índio e conforme apontava para cada um deles, dizia-lhe o nome.
Afastei-me do grupo e chamei o mesmo Índio e disse-lhe:
‒ Marcondes, cigarro mim [Marcondes, era um dos
meus funcionários que foi vitimado num desastre de carro em setembro de 1975].
Ele foi até o Marcondes e
disse-lhe:
‒ Pai André cigarro.
E, em seguida, entregou-me. Quanto ao
reconhecimento do valor, foi muito fácil, logo entendê-lo. Uma vez queria
conseguir uma rede Indígena feita de palha de buriti e em troca ofereci um
pequeno brinde que eles recusaram, voltei no dia seguinte e levei-lhes uma rede
das nossas e imediatamente aceitaram.
‒ Repórter: essa passagem
da Reserva Indígena que foi vencida tão heroicamente, você considera a sua
grande realização nessa missão?
‒ André: não, não a
considero como minha grande realização. Como já disse antes, o Índio é um fator
secundário na minha tarefa. As duas grandes realizações foram:
‒ 1ª Cruzamento dos dois tratores de lâminas no
Rio Branquinho, ocorrido no dia 20.12.1975, que dependeu da construção de uma
ponte tipo pinguela, onde foi necessário o trabalho de 4 dias e 4 noites sem
dormir, para atingirmos o outro lado do Rio.
‒ 2ª Construção da Ponte de 130 metros sobre o
Rio Abonari, sem apoio de rodovia.
Um dos encargos
mais difíceis a mim confiado foi a construção, no Km 238, de uma pista de pouso
onde tivemos de lançar todo o material necessário, inclusive de rancho, através
de um avião Cesna. Ainda na fase final de construção, tivemos que pousar naquela
pista para retirar 02 operários doentes. Todavia, gosto de trabalhar na linha
de frente e recomeçaria novamente, se necessário, fosse.
Além das grandes realizações
citadas e das passagens difíceis que a selva lhe reservou, André teve as suas
traquinagens e improvisações necessárias ao seu trabalho. É o maior “caroneiro” do Destacamento Sul, não há
viatura para Manaus ou avião para Boa Vista que ele não “pirue” uma vaga. Seus meios de transporte são os mais
diversificados. Para um bate-estaca, improvisou uma balsa, para uma serra, usou
a cabeça dos peões e assim por diante. E visando melhorar aqueles meios,
comprou um jeep e para incentivar sua equipe, escreveu no para-choque dianteiro
RUMO NORTE. Mas, como não tem Serviço de Transporte Automóvel [STA] – oficina
de equipamento, o seu jeep não resistiu às baixadas e, foi encontrado na região
do encontro das duas frentes de serviço, sob uma castanheira, todo depenado,
porém ostentando como símbolo, sua contribuição para a arrancada final que
motivou a junção das duas equipes de desmatamento: RUMO NORTE.
ô Piada
do André – Peão – D-155 ô
André retornava de Manaus, na
carroceria alguns peões de volta ao trabalho, quando no Km 17 da BR-174, foi
barrado pelo guarda da Patrulha Rodoviária, ocasião em que o seguinte diálogo
foi mantido:
‒ Guarda: o Sr. não pode
conduzir pessoal na carroceria.
‒ André: Sr. guarda nós
somos trabalhadores da estrada e retornamos para o serviço.
‒ Guarda: é, mas não pode.
Nisso, um peão desce desconsolado
e se dirige ao guarda.
‒ Peão: Seu guarda, nós
somos mesmo azarados, iguais ao D-155.
O guarda não entendeu a
comparação do peão, ficou atrapalhado e perguntou:
‒ Guarda: D-155... azarado?
Por que rapaz?
‒ Peão: Olha seu guarda,
nós somos do desmatamento manual da BR-174, abrimos esta estrada, do km 50 ao
360. Fomos mordidos por cobra, picados por abelha, atacados pelos Índios e no
fim de tudo, não podemos andar na estrada! Pois é, com o trator D-155 é a mesma
coisa. Ele derruba as árvores, constrói os aterros, abre os cortes e no fim de
tudo, quando a, plataforma da estrada está pronta, só pode andar se for trepado
na carreta.
É ou não muito azar seu guarda?
O
PIUM n° 23, Boa Vista, RR, 20.04.76
ô 6° BEC e os Waimiri-Atroari ô
Após o Massacre do Posto Abonari II em que pereceram o Sertanista
Gilberto Pinto e mais 3 funcionários da FUNAI, os Índios Waimiri-Atroari
permaneceram nas suas malocas, não mantendo nenhum contato com os elementos da
FUNAI ou do 6° BEC, durante o 1° semestre de 1975. Quando o desmatamento
mecânico atingia o Km 280,8 ao Norte do Rio Alalaú, 10 Índios Atroari
assustados e medrosos, porém armados de arcos e flechas estabeleceram o 1°
contato do ano com a turma de desmatamento do 6° BEC em 14.08.1975.
Seguiram-se no decorrer deste ano e até março de 1976, 16 contatos de
Índios Atroari com os trabalhadores e militares do 6° BEC e da FUNAI, e cuja
sequência cronológica é a constante do documento anexo publicado no “O Pium” do mês de abril passado.
No entanto, até a presente data os Índios Waimiri, que habitam as
cabeceiras do Abonari, continuam desaparecidos. Eles deverão voltar. É
imprevisível saber qual deverá ser sua intenção se amistosa como a dos Atroari,
ou se repetirão o massacre traiçoeiro de 29.12.1974. O ano de 1975 foi decisivo
na atração dos arredios Índios Atroari. O 6° BEC cruzou a sua Reserva Indígena
de Sul a Norte, com a preocupação única de implantar a estrada, tendo seus
elementos, civis e militares, não se adentrado 01 metro sequer além da faixa de
domínio da BR-174.
A iniciativa dos contatos foi deixada, por acertada tática, combinada com
a FUNAI, à iniciativa dos Silvícolas. Os 16 contatos amistosos de agosto de
1974 a março de 1976 é uma prova irrefutável de que o tratamento dispensado
pelo Batalhão
e FUNAI
foi correto,
que foram
respeitados
usos e
costumes dessas
tribos, que
houve brandura
no trato,
que a confiança dos Silvícolas no pessoal que “invadia” suas terras foi criada, em razão deles sentirem quais as
verdadeiras intenções desses novos pioneiros, construtores de estradas e não
predadores de Índios, ou destruidores da sua caça, pesca e das suas reservas
alimentares, tais como: a pupunha, o patauá, a castanha, o cacau, etc.
O precioso legado deixado pelo Marechal Rondon aos nossos bravos
sertanistas, traduzido na frase célebre: “Morrer,
se preciso for, matar, nunca”; foi inteiramente seguida pelos Soldados e
Civis do 6° BEC, que seguindo seus belos ensinamentos, prestaram relevantes
serviços à causa Indígena. Deixamos à FUNAI a missão da proteção e progressiva
aculturação das tribos Waimiri-Atroari, após a BR-174 ser entregue ao tráfego e
que ocorrerá no decorrer do ano de 1976, certo de que o ciclo de massacres e
atrocidades por parte desses Silvícolas, no passado, se tenha encerrado. (Ten
Cel Arruda)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
(2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola
Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
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Persona non grata VII Hiram Reis e Silva Hiram Reis e Silva
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Bagé, RS, 26.05.2026 Ordens do General Gentil MINISTÉRIO DO EXÉRCITOCOMANDO MILITAR DA AMAZÔNIA2° GRUPAMENTO DE ENGENHARIA DE CONSTRUÇÃO

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