Porto Velho (RO) quinta-feira, 4 de junho de 2026
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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Persona non grata IX


Persona non grata IX - Gente de Opinião

Bagé, RS, 01.06.2026



O Pium


Meu caro amigo de longa data, ST Luiz Mário Severo Ávila, empresário, advogado, escritor e agrimensor, que tive, no dia 09.02.2019, a satisfação de reencontrar, é gaúcho de Santa Rosa, RS, onde nasceu a 14.06.1950. Atualmente junto com seu filho Engenheiro Rodrigo Edson Castro Ávila, exerce trabalhos de Engenharia e Consultoria na Empresa R. E. Castro Ávila e Cia Ltda. Graças a ele e ao Ten Cel Vandir Pereira Soares Júnior tive acesso à coletânea do Periódico “O Pium”, criado em maio de 1974, pelo Sr. Ten Cel Eng QEMA João Tarcízio Cartaxo Arruda, Comandante do 6° BEC, que relatava o dia-a-dia da valorosa família do “Batalhão Simón Bolívar” do qual passarei a reproduzir alguns tópicos referentes à Questão Waimiri-Atroari.

 

O PIUM n° 5, Boa Vista, RR, 20.10.74

 

ô Atroari ô

ô Voltaram a ser Notícia Reagindo Violentamente nas Profundezas da Portentosa Floresta Amazônica ô

 

Desta feita seus alvos foram os próprios funcionários da FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO [FUNAI] que, dedicada amigavelmente tentam pacificá-los, mantendo-os, entretanto, afastados da civilização e do homem Branco.

Agindo com tática e sangue frio, assaltaram o Posto da FUNAI, localizado nas proximidades do Rio Alalaú e a um quilômetro aproximadamente da rodovia BR- 174, em construção, a golpes de terçado [facão] e fazendo uso de seu armamento convencional, arco e flecha. Dos ataques perpetrados já resultaram cinco mortos e três feridos que foram acolhidos por nossa turma de desmatamento. Reconhecimentos aéreos feitos no local demonstraram a aldeia Indígena incendiada, sinal de que os Waimiri-Atroari abandonaram a área. Atualmente o 6° BEC desenvolve seus trabalhos na construção da BR-174 entre os Rios Santo Antônio do Abonari e o misterioso Alalaú, em plena reserva Indígena, trabalhamos desarmados, nossa meta é de unir os brasileiros e a nossa missão é de paz. Venceremos!

 

O PIUM n° 6, Boa Vista, RR, 20.11.74

 

ô Atividades das Companhias ô

 

ô 1ª Companhia de Engenharia de Construção ô

A linha do Equador será seccionada pela BR-174 exatamente no Km 380. Para cortá-la, aceleram-se as máquinas, estafam-se os braços, exige-se sempre mais que INTELIGÊNCIA e VONTADE sejam transformadas em AÇÃO. Ação não faltou aos militares e civis da 1ª Cia, que conseguiram atingir o Rio Alalaú com o desmatamento manual, enquanto poderosos “BULDOZERS” atingiam com suas lâminas o KM 258 da BR-174, no difícil e perigoso trabalho do desmatamento mecanizado. Ainda, até 31 de outubro, a terraplenagem atingia as alturas do Km 253 faltando, portanto, apenas 19 para ser atingido o Território de Roraima. O volume escavado naquele mês foi de 508.238 m3 e há a salientar ainda a construção uma ponte de madeira com vão de 72 metros sobre o Rio MANILHA [Ten “MA”zzotti + Cap Bo”NILHA”] ou TAQUARI como é conhecido pelos Atroari.

 

ô 2ª Companhia de Engenharia de Construção ô

Enfrentando ainda pesados aguaceiros, a 2ª Cia teve durante o mês de outubro seu quinhão de vitórias. O Rio Anauá foi vencido e ultrapassado através de uma balsa metálica levada até àquela altura quando o Rio estava em seu nível máximo e apesar de as margens apresentarem-se pavorosamente desfavoráveis, barrentas e escorregadias, conseguiram os homens da 2ª Cia Eng lançar dois D-8 na margem Sul do Anauá.

Com estas máquinas, trabalhando dia e noite na limpeza e destocamento, a estrada avançou rumo ao Jauaperi onde ansiosos os tratoristas da linha de frente do Destacamento Norte esperam “bater as lâminas” com os do Destacamento Sul. O inatingível e lendário Rio Anauá vai ficando para trás, com suas águas correntes cheias de ferozes piranhas e velozes pirandirás, a alertar aos que a enfrentam desde que as suas águas foram descobertas, mas não domadas, e que mistérios insondáveis existem nas suas correntezas.

 

ô Atroari ô

 

No dia 07.11.1974, seis Índios Atroari mantiveram contatos amistosos com o pessoal de desmatamento da 1ª Cia Eng que está operando na margem Norte do Rio Alalaú. O contato foi o mais cordial possível tendo aqueles Índios inclusive penetrado na barraca do nosso pessoal e se retirado da área, após reconhecerem o Posto da FUNAI, em cujo local funcionários foram sacrificados em cumprimento do dever, no massacre ocorrido no dia 02.10.1974. No dia 13 de novembro, por volta das 16h, repetiram a visita 04 Índios Atroari, desta vez no Km 271 [16 km ao Norte do Alalaú]. Após receberem abastecimento de gêneros alimentícios em troca de seus arcos e flechas, retiraram-se bastante satisfeitos. Todavia, às 12h, do dia 17 de novembro, eis que vinte deles atacaram quatro homens da turma de desmatamento, acampados no Km 25 ao Norte do Alalaú, levando os gêneros que puderam, flechando o restante do material existente. Três homens nossos estão desaparecidos, consoante informação prestada pelo quarto, que fugiu na hora do ataque. Em consequência, os trabalhos de desmatamento tiveram de ser paralisados até que uma “Bandeira Branca” seja levantada, e se fume o “Cachimbo da Paz”.

Quando será?

 

O PIUM n° 5, Boa Vista, RR, 20.12.74

ô A Estrada – o Índio ô

Revestido dessa crença de perigo à simples alusão do nome Atroari, iniciou-se o desmatamento manual, atingindo os trabalhos, sem problemas, o Rio Abonari, e depois o Alalaú. O primeiro contato entre os trabalhadores da estrada e os Atroari se deu às margens desse Rio. Àquela altura, era impraticável o suprimento aéreo para o efetivo de 100 homens; da necessidade de se utilizar o Rio como via de suprimento, nasceu a decisão de estabelecer o contato. E ele ocorreu em ambiente festivo, com inúmeras trocas de presentes, que consistiam da parte dos trabalhadores, em pedaços de plásticos coloridos previamente preparados e alimentos em geral, e da parte dos Índios em caças variadas [peixes, aves, jabotis, etc].

 

Sob esse clima de paz, vivendo quase em comum, trabalhadores Brancos e os Indígenas, durante seis meses o desmatamento manual prosseguiu até atingir o Rio Jauaperi.Nesse ponto foi interrompido o serviço e a equipe regressou à Manaus, acompanhada pelos Índios até o km 60 da rodovia. Logo após esse regresso ocorreu, em 17.12.1972, o ataque ao acampamento da FUNAI, às margens do Alalaú, próximo à área desmatada, com o massacre de três funcionários residentes e a fuga com vida de outro. Mais tarde, já no ano de 1973, na construção de ponte madeira sobre o Rio Abonari, foram restabelecidos aqueles contatos amistosos iniciais, sob o mesmo ambiente de paz, embora menos frequentes. Os relatos dos elementos que viveram tais situações evidenciam uma verdade grotesca: “O Atroari, antes de tudo é um Faminto”.

 

Numa escala crescente de idade e decrescente de vigor físico, as crianças apresentam-se saudáveis, expressivos olhos pretos, cabelos aparados curtos de um preto reluzente, contrastando com os mais velhos raquíticos, aspecto físico deprimente, a causar pena. Vivem inteiramente nus, as Índias protegendo o sexo com sementes de açaí ligadas umas às outras lembrando grandes cachos de uvas. No aspecto geral, seu biotipo não difere do Branco e sua pele é bronzeada; não possuem hábitos regulares de higiene, à exceção do banho, não muito frequente, porém, entre as crianças.

 

ô Os Últimos Acontecimentos A Situação Atual ô

 

Por imposição de projeto, atualmente, decorridos quase três anos daqueles contatos amistosos, a estrada avança numa diretriz paralela àquela desmatada, a partir do Rio Abonari. A equipe mais avançada, a de desmatamento manual [a cargo do mesmo empreiteiro do serviço anterior] já ultrapassou o Alalaú e trabalha em território roraimense. Em princípios de outubro de 74, ocorreu o ataque ao posto da FUNAI do Rio Alalaú, que apoiava essa equipe, conforme noticiamos no “O Pium N° 5”.

No dia 17 de novembro [“O Pium N° 6”], quatro trabalhadores da turma de desmatamento manual foram atacados por cerca de vinte Índios; era domingo e o restante da equipe encontrava-se gozando dispensa em Manaus.

 

Dos três que, na ocasião, dávamos como desaparecidos, foram encontrados, mortos, em lastimável estado que pressupõe uma macabra sequência de torturas, os trabalhadores José Mendes e Cláudio Pires, o terceiro, João Moraes, continua desaparecido. Duas flechas ligeiramente menores que as usuais, cravadas junto à estaca 1.250 [trecho Alalaú Jauaperi] pressupunham a intenção de represália dos Índios ao avanço dos serviços além daquele limite, o que obrigou o Batalhão a paralisar os trabalhos de desmatamento manual. “O Pium” lamenta, profundamente ferido, as duas, provavelmente três primeiras vítimas dos Atroari, diretamente ligadas ao Batalhão. No momento, a estrada avança [...]; o Destacamento Sul trabalha com uma preocupação maior: a da segurança. Com pesar, registramos esses últimos acontecimentos; não pudemos formar uma ideia das causas que deram origem a comportamentos tão diversos daqueles contatos iniciais. Sugerir-se ser da própria natureza dos Atroari esse aspecto ambíguo de seu relacionamento social e outras considerações não passariam do campo das conjecturas. Por enquanto, as teses se confundem, não há uma conclusão definitiva...

 

O PIUM n° 8, Boa Vista, RR, 20.01.75

 

ô Atroari – Waimiri ô

 

A aproximação amistosa, a partida amigável, o ataque fulminante ao alvorecer: o Índio sutil “inimigo” não catalogado nos manuais de combate. A incrível coincidência das circunstâncias e dos saldos: superioridade numérica temporária, sobrevivência de um e apenas um elemento, degola sistemática de um dos massacrados, destruição do equipamento de comunicações, danificação do armamento. Assim ocorreu, como os anteriores, o massacre de 29 de dezembro. Assim transcorreu ao expirar o ano de 1974 no Destacamento Sul do 6° BEC. Divulgada plenamente nos órgãos de imprensa, eis a história do massacre em detalhes:

 

27 de Dez de 1974 – 14h quatro Índios Waimiri entraram em contato com os madeireiros Rafael Pereira da Silva e Bento Francisco da Conceição, que derrubavam uma árvore a 500 metros do acampamento do Destacamento Sul [Km 220]. Conduzidos ao acampamento e apresentados ao Oficial de permanência, Tenente Eng Tiaraju, foram acolhidos e, como manifestassem fome, levados a almoçar. À mesma hora, mais três Índios chegaram ao acampamento vindos pela estrada. Todos jovens, desarmados e demonstrando medo diante do funcionamento das máquinas. Atitudes amistosas, almoçaram no rancho das Praças, comendo carne de gado pensando que era de anta, pediram e receberam camisas, calções, bolacha e banana.

 

14h40 os Índios demonstraram desejo de retornar, apontando para o Sol. Embarcados em viatura, seguiram com o Sgt Goulart até a Ponte Padre Calleri, sobre o Rio Abonari, [km 226], onde se juntaram a mais vinte Índios que ali se encontravam. Repetição das atitudes, abraços com Soldados, fotografias, promessa de retorno trazendo flechas para presentear a tropa.

 

15h30 – chegaram de Manaus o Capitão Bonilha e o sertanista Gilberto Pinto trazendo presentes, alertados da presença de mais trinta Índios no Posto da FUNAI, em Abonari.

 

16h – após entrarem em contato com o Comandante do 6° BEC, em Boa Vista, e, autorizados seguiram para o Posto Abonari II [20 minutos de barco à montante da ponte], estabelecendo contato com o Cacique Maroaga, chefe do Grupo Indígena. Contato amigável, o Cacique pediu para sobrevoar sua maloca, solicitou bolachas, martelo e panelas grandes.

 

28 de Dez de 1974 – 07h40 – o avião PT-CYB, do 6° BEC, decola de Boa Vista, cheio de presentes para os Índios: chapéus, panelas, biscoitos, etc...

 

12h – encontro na ponte entre os elementos do Batalhão e os Caciques Maroaga e Mimi, sempre acompanhados de Gilberto Pinto e mais vinte Índios. Cordialidade troca de presentes, lanche com refrigerantes, passeio de caminhão. À tarde, no campo de pouso, repetiram-se as trocas de flechas, pedido de mais panelas grandes, atendido com as existentes no Rancho do Destacamento e nas casas dos Oficiais, despedidas do Capitão Bonilha que seguiu para Manaus prometendo trazer mais panelas.

 

29 de Dez de 1974 – 08h – o avião retornando de Manaus, sobrevoou o Posto, tendo o Cap Bonilha constatado que o mesmo estava deserto e um corpo estendido no chão. No acampamento, a informação do funcionário da FUNAI, Ivan Lima Ferreira: Massacre ao alvorecer.

 

12h – um grupo armado, a comando do Cap Bonilha, seguiu para reconhecer o Posto. Uma hora após o cenario macabro: mortos por flechas e a golpes de terçado o Sertanista Gilberto Pinto Figueiredo Costa e os funcionários da FUNAI João A. Monteiro e João B. Aguiar, este último degolado. Buscas até às dezesseis horas não conseguiram localizar o corpo de Osvaldo de Souza Leal Filho. Posto abandonado: os Indígenas levaram o barco a motor da FUNAI, danificaram o transmissor de rádio e quebraram as espingardas, deixando a munição. Ivan, o único sobrevivente, além de umas poucas galinhas, 02 cachorros e um filhote de caititu, jogara-se no Rio e fugira pelo mato, indo refugiar-se no acampamento de 1ª Cia E. Assim foi o final de ano no Destacamento Sul.

 

03 de Jan de 1975 – em operação autorizada pela FUNAI, o Destacamento empreendia uma verdadeira ação de marcha para o combate na selva, a comando do próprio Comandante do Batalhão, com a finalidade de resgatar o corpo do funcionário da FUNAI desaparecido, apresar os salvados do posto e reconhecer uma improvável presença Indígena remanescente. Ligação terra-ar por painéis, grupos de combate em deslocamentos por lances. Comunicações em terra através transmissores de mão, vozes de comando inserindo-se à sinfonia da selva, a realidade do combate presente a cada movimento. E os resultados: resgate do corpo de Osvaldo, morto quando em fuga, e o recolhimento de flechas, arcos, caixas de materiais diversos da FUNAI, panelas, armas quebradas, estações-rádio danificadas, barco Indígena, munições.

 

O PIUM n° 10, Boa Vista, RR, 20.03.75

 

ô Eu vi minha Pátria Renascer – 31 de Março ô

 

Eu vi minha Pátria Renascer esplêndida, majestosa, altaneira. Eu vi minha Pátria reviver em meio das brigas, das lutas, do vendaval pavoroso da multidão enlouquecida. Era um cenário rude, torpe, muito estranho. O respeito não mais distinguia os ambientes de trabalho; o calor humano não tinha valor algum perante os interesses materiais. Só a baderna encontrava destaque nos setores onde, frequentemente se alicerçava a discórdia. O quadro apresentado nada mais era do que um cenário de indisciplina e desrespeito. Minha Pátria queria sobreviver, impor a ordem, dignificar o respeito à criatura humana.

 

Sentia o peso da responsabilidade que lhe cabia de manter incólume as glórias de sua tradição; de preservar a ação benemérita de seus antepassado, de defender o valioso patrimônio histórico de suas glórias, conquistadas através dos tempos, em longos anos de extremado sacrifício. O panorama da época se mostrava entristecedor. Não se divisava entendimento. Eram feitos degradantes onde o ódio palmilhava à risca sua trilha nefanda. O princípio de autoridade sucumbia de maneira deprimente, cedendo lugar aos abusos da ação licenciosa. Era um verdadeiro tumulto. Minha Pátria esteve à beira do abismo, seduzida sorrateiramente pelo engodo de falsos compatriotas, os famigerados do poder que, no intuito de conquistá-lo, se lançaram no mísero ridículo da hipocrisia.

 

A dignidade levianamente ia decrescendo de valor, subestimada em detrimento da maldade, na preservação da imunda crueldade. Só se falava em guerra, greve, revolta, na luta dos direitos forjados como justificativa de toda desordem. A ordem e a justiça eram ridicularizadas em plena via pública numa projeção clamorosa que atingia as raias da traição. Era sem dúvida um quadro deprimente. Minha Pátria dileta, cuja Bandeira tremula altaneira em nossos mastros, nos Quartéis, nos navios, nas escolas, nas Unidades de Fronteira, da mais próxima à mais distante, simboliza em nossos corações o amor arraigado pela Terra que nos viu nascer. E quando ameaçada em sua soberania, nos estimula ao processo de uma réplica austera, como sinal de resposta ao insulto provocado. O grupo da veleidade se constituía de pequena facção e foi por isso que não teve condição de sobreviver, apesar da força aparente que manifestava ter.

 

Em boa hora surgiu a Revolução de 31 de março de 1964, que teve como sustentáculo básico a mão redentora da Divina Providência, permitindo que as Forças Armadas, alicerçadas em homens de bem e de caráter elevado, assumissem as rédeas do poder e salvaguardassem e integridade de nossa Pátria, cuja soberania esteve seriamente comprometida. São decorridos onze anos. Hoje, em todos os quadrantes do Brasil, comemora-se esta maravilhosa data que representa o repúdio e extermínio à essa grande chaga do totalitarismo que tentarem lançar no coração da nossa sacrossanta Nação, batizada que foi com o nome de Terra de Santa Cruz.

 

Brasileiros fieis que somos, ainda miramos espantados os perigos porque passamos e nos rejubilamos com o evento da grande data, que nos restituiu a paz, e confiança e a tranquilidade de vivermos numa terra ordeira, onde se cultiva o amor, atributo legado de nossos antepassados. No momento preciso, saberemos sempre nos defender com denodo, espírito da brasilidade e alma verdadeiramente patriótica. (Ten Saraiva)

 

O PIUM n° 10, Boa Vista, RR, 20.03.75

 

ô Waimiri-Atroari, uma de Nossas Preocupações ô

 

O 6° BEC prossegue em seu ritmo dinâmico, de trabalho ativo, corrido e acelerado. Há uma pressa generalizada em todas as atividades: o fim do ano está próximo, e os dias esplêndidos de verão redobrarão o nosso entusiasmo em produzir mais. A 1ª Companhia de Engenharia de Construção, o Destacamento Sul, está atuando na região do Rio Alalaú: divisa do Estado do Amazonas com o Território de Roraima, em plena área dos Silvícolas Waimiri-Atroari, que tem sido até hoje um dos grandes obstáculos ao prosseguimento dos trabalhos. Depois dos episódios dramáticos e cruéis, em que várias vidas foram sacrificadas pelos temíveis Índios, agora, pelos fatos recentes ocorridos na linha de frente, indicam que os Silvícolas, tomaram a iniciativa de manter contatos amistosos, talvez como prelúdio de uma convivência mais pacífica.

 

ô Um Contato Breve e Amistoso ô

 

No dia 08.10.1975, por volta das 13h, no Km 240, na direção Manaus-Caracaraí, a turma de desmatamento foi surpreendida com o aparecimento repentino de Índios Atroari, que surgiram da selva desarmados carregando cestos com bananas, pupunhas e cana de açúcar; se mostravam muito nervosos e apreensivos, num estado psicológico de muita intranquilidade e até certo ponto desconcertante. Depois dos primeiros contatos com o pessoal da linha frente, retornaram à mata e, logo a seguir, apareceram mais 04 Índios, todos desarmados, conduzindo às costas jamaxis cheios de frutas silvestres.

O Chefe do Grupo foi identificado como filho do Cacique Comprido. Eram dois adultos, 01 garoto de aproximadamente 10 anos e 02 de 14 anos. Os 02 primeiros foram reconhecidos, pelo pessoal da linha de frente, como sendo os mesmos que vieram no encontro do dia 14 de agosto passado. O garoto de dez anos apresentava um ferimento no pé direito, resultante da mordida de um porco selvagem, que foi prontamente atendido pelo enfermeiro do acampamento, que lhe fez o curativo devido.

 

O receio dos Silvícolas foi desaparecendo na medida em que se prolongava o contato com o pessoal do Acampamento. E, como estavam famintos, almoçaram com a equipe de limpeza. Queriam mais comida, sal, açúcar, redes [maquera]. Retornaram à selva prometendo voltar dois dias depois.

 

ô Novo Contato com os Índios WA ô

 

Os Silvícolas, cumprindo a promessa que fizeram, regressaram ao trecho em construção da BR-174, na zona de ação da 1ª Cia E Cnst, no Destacamento Sul, às 15h do dia 12 de outubro. O evento ocorreu na manhã de domingo e os Atroari que numa coincidência talvez, querendo homenagear o “Dia da Criança”, trouxeram em sua equipe 03 crianças, para mostrar-lhes o mundo civilizado que desconheciam, portando frutas silvestres diversas, arcos e flechas. O filho do Capitão Comprido também fazia parte desse grupo e há quem diga que a equipe era liderada pelo Tuchaua Ponta de Lança que mostrava para os curumins [crianças] o “caminzão” [estrada]. Ponta de Lança era Capitão de outra maloca, que aproveitou a oportunidade e também nos visitou.

Esses Indígenas residem à margem direita da estrada a aproximadamente 4.000 metros do eixo e foram atraídos pelo barulho das máquinas da equipe de limpeza, que segue logo após a equipe de desmatamento.

 

Era meio-dia de domingo e as turmas regressavam dos diferentes locais de trabalho, bueiros, caminhos de serviço, desmatamento das baixadas de Igapós etc, para o almoço e aproveitar a tarde desse dia para folga merecida e alguns afazeres pessoais. O Tenente de serviço, na linha de frente, tomou a iniciativa de transportar em caminhão esses Silvícolas acompanhados de alguns elementos da FUNAI até o acampamento provisório do Km 297, onde foram efetuadas as trocas de brindes. Naquele acampamento, 05 Índios dos mais velhos e 03 crianças, apavorados com o número de trabalhadores que se acercou do local, se evadiram bruscamente em direção à selva. Os demais Silvícolas permaneceram no acampamento por cerca de uma hora, aproximadamente, na troca amistosa de presentes.

 

Depois retornaram no mesmo caminhão para a linha de frente, de onde seguiram pela mesma trilha para suas malocas e prometeram retornar dentro de 03 dias. O Aborígene Atroari já olha a equipe bequiana como “Baré” [amiga, bacana, legal, boa] e é através da troca de presentes e abraços, fato que se renova a cada encontro que ele procura comprovar essa amizade que se estreita a cada dia que passa. Ainda no desenrolar destes acontecimentos, registramos dois diálogos entre militares e os visitantes. Um dos Silvícolas da segunda equipe perguntou ao Cabo Teles:

 

    Caminzão, pra onde?

 

Ao que o Cabo respondeu:

 

  Pra Boa Vista.

 

O Índio voltou a falar, dizendo num português bem ruim:

 

  Boa Vista, marupá [ruim, não é amiga].

 

Na última visita, um dos militares presentes perguntou a cada um dos visitantes:

 

  Cadê Maria?

 

E cada um respondeu:

 

  Maria, não.

 

Foi, então a vez de um Silvícola indagar do militar.

 

  E Maria?

 

E o militar respondeu:

 

  Maria longe, Manaus.

 

E o Índio retrucou:

 

  Manaus, bom, muita Maria.

 

Desta forma, pelo desenrolar dos acontecimentos, acreditamos que em breve, iremos vencer mais uma das grandes dificuldades que se antepuseram na dura e espinhosa caminhada de nossa vibrante jornada.

 

O PIUM n° 18, Boa Vista, RR, 20.11.75

 

ô Atroari ô

 

Durante um dos trajetos do Alalaú até a clareira, a equipe sobrevoou o Posto de Atração da FUNAI, no Km 310, e por coincidência se deparou com grupo de seis Índios Atroari trocando presentes com os elementos que ali se achavam no momento. Aproveitando a oportunidades foi feito pouso para fotografar e filmar os Silvícolas. Os mesmos não se assustaram com o barulho do helicóptero e ficaram muito contentes em “posar” para os tripulantes, houve uma verdadeira confraternização entre os Índios, elementos da FUNAI e funcionários do Batalhão, provando assim, um relacionamento cada vez maior e diminuindo a rivalidade tão agressiva dos moradores da selva, que tantas marcas lamentavelmente tem deixado no desenvolvimento da nossa missão. [...]

O PIUM n° 19, Boa Vista, RR, 20.12.75

 

 

ô Notícias do Batalhão ô

ô Jauaperi Ultrapassado ô

 

Primeiro foi a equipe de desmatamento mecânico, que, no dia 21.03.1975, ultrapassou sem muitas delongas para nos deixar cheios de ansiosa expectativa o “Rio Jauaperi”. Depois foi a vez do “Trairí”, atingido no dia 23.10.1975 que ficou rapidamente para trás, e consequentemente visado está o “Rio Branquinho”, mito que deixará de existir logo mais... Parabéns à toda equipe, pois apesar da necessidade do bem-estar dos seus lares, fazem a força, unificada, transformar-se em grande serviço de derrubada das árvores de tamanhos descomunais, para acontecer o encontro alegre, que está previsto e esperado por todos do Destacamento Norte, 6° BEC e aos observadores, na “reta de chegada já bem próxima”.

 

Na parte recuada, do desmatamento, segue a turma que vai disputando com barro, areia, pedra, piçarra, chapas metálicas, madeira e tudo enfim, pedindo lançamentos de bueiros e tudo mais que é necessário para irem mais rápido ainda. A turma de terraplenagem que também não só ultrapassou o “Jauaperi” no dia 03 de novembro próximo passado a 430.900 metros da Capital Amazonense, como conseguiu a melhor produção, do ano de 1975, com 460.060 metros cúbicos de material escavado e lançado no eixo da estrada. Com o famoso “Jauaperi” à retaguarda, seguem agora, a passos largos, em direção ao “Trairí”, ansiosos, desde já pela chegada do Natal e com a acolhida sonhada em seus, nossos, de todos os lares na cidade. Entretanto, o “Trairí” fica próximo agora. Em frente companheiros, pois que estamos perto do objetivo ‒ “CONCLUSÃO da BR-174”, fator que impulsionará o progresso de Roraima.

 

ô Homenagem a João Morais ô

ô Flecha Atroari Impede a Marcha de Morais ô

 

O fatídico incidente ocorreu em plena selva Amazônica, já no Território de Roraima, no trecho considerado reserva Indígena. Na época foi manchete em todos os jornais do País e agora, passado um ano, vamos reviver o fato para prestar ao João Morais a homenagem que ele bem merece. A tragédia se deu a 17.11.1974, era cedo ainda quando Morais saia para caçar, uma vez que ele era uma das molas mestras da firma Clodan Nunes, responsável pelo desmatamento manual da BR-174.

Por volta das 10h, ouviu-se o estampido de arma de fogo ecoar pela floresta sombria. Depois voltou o silêncio, a calma, a tranquilidade. Só a mata com seus pássaros buliçosos e alegres, mais o farfalhar das folhas e o balouçar das flores silvestres enchiam o ar com aquele aroma peculiar da selva.

 

Quando do retorno ao acampamento, seus companheiros notaram a sua ausência. Julgaram-no perdido, apesar do conhecimento profundo da região.

Combinaram-se e partiram para o tronco de uma grande árvore [Sucuubeira] onde com machado dariam batidas diversas para que pelo eco, pudessem ajudar o amigo retornar ao acampamento. Dos três trabalhadores, um só ficou e quando a dupla se aproximava da árvore em mira, foi atacada e trucidada pelos Atroari. Com a algazarra dos Indígenas, o outro trabalhador saiu para ver o que se passava e, diante do horrendo espetáculo que assistiu, fugiu apavorado em direção ao acampamento do BEC, onde relatou a ocorrência. O trágico acontecimento se deu no local onde hoje está plantada a estaca 1.125 [quilômetro 22,5 do trecho Alalaú-Branquinho]. Ao tomar conhecimento do fato, a equipe de busca do Destacamento Sul, adentrou à selva no intuito de localizar algum sobrevivente ou os cadáveres. Os dois trabalhadores foram localizados, mas, o cadáver de João Morais não foi encontrado.

 

Hoje, a BR-174, como uma gigantesca sucuri serpenteia a selva Amazônica como a exibir o seu lombo vermelho da piçarra, às vésperas do encontro acalentado por séculos nos seios amazônidas, mormente, o roraimense.

Esse encontro deixará de ser um sonho para tornar-se a realidade da década. Mas, antes que isso acontecesse era necessário que muitas e preciosas, vidas fossem sacrificadas, muitas lágrimas fossem derramadas, muitas noites mal dormidas, muito suor e sangue fosse derramado. Era necessária coragem, bravura e, sobretudo, amor à Pátria. Isso é natural dos grandes empreendimentos. Foi na Independência do Brasil, na Batalha do Riachuelo, na Tomada de Monte Castelo, na construção da Belém-Brasília, Transamazônica e assim, na construção da Perimetral Norte e BR-174, que interligará Roraima ao resto do gigantesco Brasil.

 

Nessa hora de satisfação para nós, queremos lembrar o João Morais que sem dúvida nenhuma deu a sua parcela de colaboração, pagou com a vida a ousadia de ir bem à frente da estrada da integração Manaus-Boa Vista e, em sua homenagem, que a ponte construída cobre o Igarapé do Km 253 receberá o nome João Morais.

 

O PIUM n° 20, Boa Vista, RR, 20.01.76

 

ô Marcamos um Encontro com o Impossível Para Vencê-lo ô

 

Em 22 de dezembro de 1975, o 6° BEC concluiu o desmatamento da BR-174, com o encontro das duas frentes de serviço, aproximadamente sobre a linha do Equador, na altura do Km 362. A conclusão desse trabalho possibilita, pela primeira vez, a ligação, por via terrestre entre Boa Vista, Capital do Território de Roraima e Manaus, através de uma rodovia de classe pioneira, com 776 Km de extensão, dos quais 86 Km ora em caminho de serviço, construído ao longo da faixa desmatada de 70 m roubados à floresta. Este significativo evento cresce de importância, e se constitui num verdadeiro feito heroico ao considerarmos que, no afã de concluir os trabalhos antes do Natal de 1975 antecipando-se aos prazos previstos as duas equipes de desmatamento mecânico, sob as chuvas dos últimos quilômetros, conseguiram o expressivo rendimento de 72 Km em apenas um mês de trabalho.

 

Fato interessante ocorreu nos últimos dias que precederam o histórico encontro. Simultaneamente com o avanço dos tratores derrubando a mata virgem, procedia-se o estudo de uma variante no Rio Branquinho. A contagem regressiva indicava que no dia 18 de dezembro, faltavam apenas 07 Km para o fechamento; logo, verificou-se que houve engano da informação; a variante tinha alongado o traçado e na realidade faltavam 12 Km para se atingir o Rio Branquinho, meta da chegada das duas equipes de desmatamento mecânico. Era quase impossível proceder-se a junção das duas frentes de serviço antes do Natal.

 

No dia 20.12.1975, o Destacamento Sul atingiu o Rio Branquinho e iniciou imediatamente a construção de uma “pinguela” para transpô-lo com suas máquinas. Nesse dia o Ten Cardoso Ramos, do Destacamento Norte venceu a pé, os últimos quilômetros de pântano e fez ligação com o Ten Cláudio do Destacamento Sul. Juntos hastearam a Bandeira Nacional nas margens conquistadas do Rio Branquinho. O tempo passou a ser ameaçador e pesadas chuvas fizeram subir águas do Rio, dificultando ainda mais a construção da ponte pinguela. O Cap Seabra, Cmt do Destacamento Norte, fez ligação com o Cmt do Batalhão e marcaram a data de 22 de dezembro, para o encontro impossível. Rapidamente o Cmt do Destacamento Norte transmitiu a ordem ao Chefe da Equipe de Desmatamento Mecânico, Sgt Garcia:

 

  Cumpra-se a previsão!

 

Enquanto o Destacamento Sul, embora tenha sido o 1° a chegar ao lendário Rio Branquinho, permanecia imobilizado nas jornadas de 20 e 21, detido pela fúria desse Rio ainda não domado, redobraram-se os esforços do Destacamento Norte, agora tendo à frente um imenso pântano de quase 05 km formado pelas últimas chuvas caídas. No dia 21 dez, três tratores de lâmina do Destacamento Sul conseguiram transpor o Rio. Trabalhou-se dia e noite ininterruptamente quando na tarde de 22.12.1975, nas turmas dos Destacamentos Norte e Sul ouviu-se mais forte o ronco dos tratores. Diante de nós tombou a última das grandes árvores, cujo estrondo concretizou finalmente, o desfecho da grande epopeia, como Éolo ([1]) que sacudiu nossas mentes de intensificadas vibrações depois de estabelecer a inscrição do epônimo ([2]) de quantos se imolaram na íngreme e exaustiva caminhada. Por fim, às 16h, deu-se o tão esperado “encontro”.

 

Companheiros que vibraram no afã de incontrolável contentamento da vitória e se defrontaram com chavascais quase pântanos onde geralmente ficavam enraizadas ao terreno duas e às vezes três máquinas, mas sempre ajudadas por uma quarta, que lhes servia como tábua de salvação naqueles instantes quase angustiosos para o insofismável encontro, que se daria dali a horas... Prosseguiram, vendo já as colunas de fumaça que as máquinas do Destacamento Sul levantavam ao derrubar cortar e forcejar em direção Norte, e isso dava uma sensação de saber-se necessário, pois na posteridade seria lembrado com bravura, já que a guerra, luta contra a natureza adversa havia vencido e isso fazia a todos que estavam presentes, sentir a euforia de verem por terra os primeiros a virem de Manaus até o nosso Território em veículos, coisa jamais conseguida antes... Encontraram-se; pararam e olharam-se; operadores, Chefes de equipes e, como duvidassem do feito, correram e abraçaram-se cheios de alegria, concretizando-se em seus lábios:

 

  UFA! Vencemos companheiros!

 

Passados os primeiros instantes onde a emoção tomou conta das palavras, mesmo cheios de lama em suas roupas, foi pedido o encontro das lâminas dos tratores do Norte com os do Sul, sempre irmanados pelo objetivo alcançado, e tiraram fotos debaixo da fina chuva que caía implacável desde há muitos dias. O objetivo, inesperadamente conquistado, alenta-nos o propósito de prosseguir com a experiência conquistada, para a definitiva ligação de Manaus ao BV-8. A Hileia intransponível chega finalmente ao término de sua inviolável penetração. O último desvão do Território Nacional que ainda restava, ligado agora ao resto do País, demonstrando à Nação e ao Mundo que nos olha que o temeroso desafio fora sobejamente conquistado para, gáudio de todos os brasileiros, que neste momento nos rejubilamos com a conquista do evento.

 

Nosso preito de gratidão, de reconhecimento e de saudade, àqueles que tombaram, no próprio campo de trabalho e que a posteridade não irá esquecer.

Foram 23 companheiros, de Germano Miranda a Severino Xavier Filho, verdadeiros lídimos da Engenharia Militar de Construção que tudo deram de si, à sua Pátria, até mesmo o sacrifício da própria vida. Aqui fica a nossa homenagem póstuma.

O PIUM n° 23, Boa Vista, RR, 20.04.76

 

ô Nosso Entrevistado ô

ôO Cearense de Cedroô

 

Estatura mediana, mãos calejadas e pele curtida pelo Sol do Equador, semblante alegre e conversa pausada, caracterizam o Cearense de Cedro, André Moreira Nunes, que apesar do seu corpo franzino, é como disse Euclides da Cunha, ‒ “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Chamado de “Pai André” pelos arredios Índios Atroari, o grande pioneiro e desbravador, iniciou seus trabalhos de desmatamento na Amazônia, no 5° BEC por ocasião da abertura da BR-364 e continuou no 6° BEC, a partir de 1973, sendo o encarregado de uma das turmas de desmatamento manual que atuou na frente Sul da BR-174. Pioneiro da grande Rodovia viveu os mais diversos episódios e imprevistos impostos pela natureza da região inóspita da selva, destacando-se a passagem pela Reserva Indígena, como o problema mais extenso. Sempre sorrindo, relatou passagens difíceis da sua tarefa, demonstrando grande tranquilidade.

 

  André: iniciamos o trabalho de desmatamento manual no Km 86 até o Rio Jauaperí e foi justamente nesse trabalho, que tivemos o primeiro contato com os Índios Waimiri-Atroari, na ocasião da chegada ao Rio Alalaú.

 

  Repórter: qual a sua reação ao se deparar com uma tribo Indígena, você teve receio de prosseguir na missão ou continuou com esta tua maneira tranquila?

 

  André: bem, eu já estava prevenido de que iria encontrá-los e como deveria proceder, porém passaram-se dois dias e não, apareceram, o que indiretamente me forçou a realizar o primeiro encontro após o Massacre do Padre Calleri.   Fui pela lógica do serviço, se tínhamos de enfrentá-los, tínhamos de achá-los. Não me causou nenhuma surpresa, apesar de ser um problema a mais, no desenvolvimento dos nossos trabalhos; considero-os um acontecimento secundário ante a grandeza e importância da nossa missão.

 

  Repórter: que atitude você tomou para criar uma situação amistosa entre os Silvícolas e o seu pessoal?

 

  André: foi muito fácil, levamos brindes e fiz-lhes um convite a visitar o nosso acampamento. Daí sucederam-se as visitas em caráter inteiramente amistoso, o que possibilitou prosseguirmos tranquilamente até alcançarmos o Rio Jauaperí, ponto de conclusão desse trabalho.

 

  Repórter: André, quando aconteceu e como você procedeu com o primeiro alarme de um provável massacre?

 

  André: justamente quando os trabalhos já alcançavam os 30 Km, após o Alalaú. Na ocasião, eu estava aqui na Sede e o Coronel Oliveira, Comandante do Batalhão, na época, havia recebido um alarme de que os Índios atacariam o pessoal da topografia e solicitavam autorização para suspender os trabalhos. Tranquilizei o Comandante e retornei imediatamente pedindo-lhe apenas que ficasse em contato permanente comigo pela Estação Rádio do Batalhão. E tudo aconteceu como eu previra era apenas um alarme falso, um alvoroço sem nenhum significado. Apenas realizaram um dos seus costumeiros rituais. Dançavam entre batuques de tambores e gritos, em volta do pessoal da topografia. E conforme transcorria o festival, eu transmitia ao Comando e demais Oficiais do 6° Batalhão, as ocorrências através do rádio.

 

  Repórter: quando realmente ocorreu o primeiro massacre e quais as causas que o provocaram?

 

  André: o Batalhão, por razões técnicas, modificou o traçado da rodovia, o que nos fez refazer todo o serviço de desmatamento manual a partir do Rio Abonari. E nesse trabalho, no dia 17 de novembro de 1974, aconteceu o primeiro massacre, onde lamentavelmente padeceram três funcionários da minha equipe de serviço. Como aconteceu no primeiro alarme, eu estava aqui na Sede e retornei imediatamente ao acampamento a fim do estudar um meio de encontrar e resgatar os corpos.Os trabalhos foram paralisados, até segunda ordem, pelo General Fernando Belfort Bethlen, Comandante Militar da Amazônia, e somente após seis dias encontramos dois corpos completamente trucidados e em alto estado de putrefação. O terceiro corpo do trabalhador João Morais até hoje continua desaparecido. Quanto as causas não posso lhe dizer nada, pois não cheguei a nenhuma conclusão. Apenas o que pude constatar foi que alguém permaneceu guardando [vigiando] os corpos por dois ou três dias.

 

  Repórter: e o que o levou a concluir isso?

 

  André: os vestígios deixados. Alguém armou uma espécie de acampamento provisório, com palhas de buriti, para proteger-se do Sol ou da chuva.

 

  Repórter: como você reagiu após o massacre?

 

  André: com mesma tranquilidade de antes, eles não me assustam. A minha reação foi de curiosidade, de observação e não de medo. Sempre me relacionei bem com eles e não consegui entender até hoje o porquê do massacre.

 

  Repórter: durante o contato com esses Índios você aprendeu a linguagem deles ou se entendiam apenas de forma mímica?

 

  André: a linguagem deles é uma repetição contínua, portanto, fácil de aprender. Eu mesmo forçava algum acontecimento, para provocar uma repetição, para ligar o que diziam com o que eu entendia.

 

    São dotados de uma grande inteligência e tem uma facilidade de memorizar e de reconhecer o valor das coisas o que muito me impressionou.

 

  Repórter: Você pode citar algum exemplo da rapidez de memória e reconhecimento do valor que eles demonstraram para convencê-lo?

 

  André: a facilidade de memorizar reconheci pelo seguinte teste; juntei um grupo dos nossos funcionários, chamei um Índio e conforme apontava para cada um deles, dizia-lhe o nome. Afastei-me do grupo e chamei o mesmo Índio e disse-lhe:

 

   Marcondes, cigarro mim [Marcondes, era um dos meus funcionários que foi vitimado num desastre de carro em setembro de 1975].

 

    Ele foi até o Marcondes e disse-lhe:

 

   Pai André cigarro.

 

    E, em seguida, entregou-me. Quanto ao reconhecimento do valor, foi muito fácil, logo entendê-lo. Uma vez queria conseguir uma rede Indígena feita de palha de buriti e em troca ofereci um pequeno brinde que eles recusaram, voltei no dia seguinte e levei-lhes uma rede das nossas e imediatamente aceitaram.

 

  Repórter: essa passagem da Reserva Indígena que foi vencida tão heroicamente, você considera a sua grande realização nessa missão?

 

  André: não, não a considero como minha grande realização. Como já disse antes, o Índio é um fator secundário na minha tarefa. As duas grandes realizações foram:

 

   1ª Cruzamento dos dois tratores de lâminas no Rio Branquinho, ocorrido no dia 20.12.1975, que dependeu da construção de uma ponte tipo pinguela, onde foi necessário o trabalho de 4 dias e 4 noites sem dormir, para atingirmos o outro lado do Rio.

 

   2ª Construção da Ponte de 130 metros sobre o Rio Abonari, sem apoio de rodovia.

Um dos encargos mais difíceis a mim confiado foi a construção, no Km 238, de uma pista de pouso onde tivemos de lançar todo o material necessário, inclusive de rancho, através de um avião Cesna. Ainda na fase final de construção, tivemos que pousar naquela pista para retirar 02 operários doentes. Todavia, gosto de trabalhar na linha de frente e recomeçaria novamente, se necessário, fosse.

 

Além das grandes realizações citadas e das passagens difíceis que a selva lhe reservou, André teve as suas traquinagens e improvisações necessárias ao seu trabalho. É o maior “caroneiro” do Destacamento Sul, não há viatura para Manaus ou avião para Boa Vista que ele não “pirue” uma vaga. Seus meios de transporte são os mais diversificados. Para um bate-estaca, improvisou uma balsa, para uma serra, usou a cabeça dos peões e assim por diante. E visando melhorar aqueles meios, comprou um jeep e para incentivar sua equipe, escreveu no para-choque dianteiro RUMO NORTE. Mas, como não tem Serviço de Transporte Automóvel [STA] – oficina de equipamento, o seu jeep não resistiu às baixadas e, foi encontrado na região do encontro das duas frentes de serviço, sob uma castanheira, todo depenado, porém ostentando como símbolo, sua contribuição para a arrancada final que motivou a junção das duas equipes de desmatamento: RUMO NORTE.

 

ô Piada do André – Peão – D-155 ô

 

André retornava de Manaus, na carroceria alguns peões de volta ao trabalho, quando no Km 17 da BR-174, foi barrado pelo guarda da Patrulha Rodoviária, ocasião em que o seguinte diálogo foi mantido:

 

  Guarda: o Sr. não pode conduzir pessoal na carroceria.

 

  André: Sr. guarda nós somos trabalhadores da estrada e retornamos para o serviço.

 

  Guarda: é, mas não pode.

 

Nisso, um peão desce desconsolado e se dirige ao guarda.

 

  Peão: Seu guarda, nós somos mesmo azarados, iguais ao D-155.

 

O guarda não entendeu a comparação do peão, ficou atrapalhado e perguntou:

 

  Guarda: D-155... azarado? Por que rapaz?

 

  Peão: Olha seu guarda, nós somos do desmatamento manual da BR-174, abrimos esta estrada, do km 50 ao 360. Fomos mordidos por cobra, picados por abelha, atacados pelos Índios e no fim de tudo, não podemos andar na estrada! Pois é, com o trator D-155 é a mesma coisa. Ele derruba as árvores, constrói os aterros, abre os cortes e no fim de tudo, quando a, plataforma da estrada está pronta, só pode andar se for trepado na carreta.

É ou não muito azar seu guarda?

 

O PIUM n° 23, Boa Vista, RR, 20.04.76

 

ô 6° BEC e os Waimiri-Atroari ô

 

Após o Massacre do Posto Abonari II em que pereceram o Sertanista Gilberto Pinto e mais 3 funcionários da FUNAI, os Índios Waimiri-Atroari permaneceram nas suas malocas, não mantendo nenhum contato com os elementos da FUNAI ou do 6° BEC, durante o 1° semestre de 1975. Quando o desmatamento mecânico atingia o Km 280,8 ao Norte do Rio Alalaú, 10 Índios Atroari assustados e medrosos, porém armados de arcos e flechas estabeleceram o 1° contato do ano com a turma de desmatamento do 6° BEC em 14.08.1975.

Seguiram-se no decorrer deste ano e até março de 1976, 16 contatos de Índios Atroari com os trabalhadores e militares do 6° BEC e da FUNAI, e cuja sequência cronológica é a constante do documento anexo publicado no “O Pium” do mês de abril passado.

 

No entanto, até a presente data os Índios Waimiri, que habitam as cabeceiras do Abonari, continuam desaparecidos. Eles deverão voltar. É imprevisível saber qual deverá ser sua intenção se amistosa como a dos Atroari, ou se repetirão o massacre traiçoeiro de 29.12.1974. O ano de 1975 foi decisivo na atração dos arredios Índios Atroari. O 6° BEC cruzou a sua Reserva Indígena de Sul a Norte, com a preocupação única de implantar a estrada, tendo seus elementos, civis e militares, não se adentrado 01 metro sequer além da faixa de domínio da BR-174.

 

A iniciativa dos contatos foi deixada, por acertada tática, combinada com a FUNAI, à iniciativa dos Silvícolas. Os 16 contatos amistosos de agosto de 1974 a março de 1976 é uma prova irrefutável de que o tratamento dispensado pelo Batalhão e FUNAI foi correto, que foram respeitados usos e costumes dessas tribos, que houve brandura no trato, que a confiança dos Silvícolas no pessoal que “invadia” suas terras foi criada, em razão deles sentirem quais as verdadeiras intenções desses novos pioneiros, construtores de estradas e não predadores de Índios, ou destruidores da sua caça, pesca e das suas reservas alimentares, tais como: a pupunha, o patauá, a castanha, o cacau, etc.

 

O precioso legado deixado pelo Marechal Rondon aos nossos bravos sertanistas, traduzido na frase célebre: “Morrer, se preciso for, matar, nunca”; foi inteiramente seguida pelos Soldados e Civis do 6° BEC, que seguindo seus belos ensinamentos, prestaram relevantes serviços à causa Indígena. Deixamos à FUNAI a missão da proteção e progressiva aculturação das tribos Waimiri-Atroari, após a BR-174 ser entregue ao tráfego e que ocorrerá no decorrer do ano de 1976, certo de que o ciclo de massacres e atrocidades por parte desses Silvícolas, no passado, se tenha encerrado. (Ten Cel Arruda)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul (1989;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2014);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) (2015 a 2019);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)



[1]    Éolo: deus dos ventos. (Hiram Reis)

[2]    Epônimo: palavra que significa dar ou emprestar seu nome próprio a um evento, regime, invento... (Hiram Reis)

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