Segunda-feira, 29 de junho de 2026 - 12h13

Porto Velho parece ter
virado um grande rascunho urbano, onde cada autoridade se sente no direito de
pegar a caneta e redesenhar a cidade ao seu gosto. A cada intervenção, um
pedaço da memória coletiva é apagado, repintado, renomeado ou simplesmente
ignorado. E tudo isso acontece sob o silêncio cúmplice de quem deveria proteger
justamente aquilo que está sendo descaracterizado.
A troca do nome de
trechos da Avenida Farquhar e da Rua José Camacho, feita para agradar
desembargadores, é um exemplo claro dessa fase. Não houve consulta pública, não
houve justificativa histórica, não houve diálogo. Apenas a velha prática de
transformar vias públicas em moeda de prestígio. A população, que vive nesses
espaços, assiste a tudo como espectadora de um espetáculo que não pediu para
ver, enquanto a memória urbana vai sendo reescrita ao sabor das conveniências.
A antiga Prelazia, com
sua imponência histórica, também foi vítima dessa onda de intervenções. A cor
original foi substituída por um tom que muitos chamam de “preto caveirão”, uma
escolha que não dialoga com a história do prédio nem com sua função simbólica
na cidade. A descaracterização não é apenas estética; é simbólica. Quando se
muda a cor, muda-se também a narrativa que aquele espaço preservava. E nesse
processo, chama atenção a omissão do IPHAN — órgão que deveria zelar pelo
patrimônio histórico, mas que parece ter adotado a política do “não vi, não
ouvi, não sei”.
O Prédio do Relógio
virou laboratório de intervenções improvisadas. Primeiro veio a escada de fuga,
instalada de maneira tão destoante que parece mais obra emergencial do que
solução arquitetônica pensada. Agora, com a Copa do Mundo, pintaram a fachada
voltada para a Farquhar nas cores verde, amarelo e azul — aquele tipo de
pintura “depois a gente repinta”, que transforma patrimônio em decoração
temática. A Copa vai passar e o prédio seguirá carregando marcas de decisões
que não respeitam sua história. E mais uma vez, o IPHAN permanece quieto, como
se a descaracterização fosse detalhe menor.
Agora, a Praça João
Nicoletti entra na fila das mudanças. Estão reformando o espaço, o que é ótimo
e necessário. Mas, como virou moda, reforma vem acompanhada de rebatismo.
Muda-se o piso, muda-se o banco, muda-se o nome. A praça, que carrega história
e afeto, corre o risco de virar produto de marketing urbano. E novamente, o
órgão responsável pela preservação da memória coletiva permanece quieto, como
se a troca de nomes fosse apenas formalidade, quando na verdade é parte do
processo de apagamento simbólico da cidade.
E o que mais preocupa é
o que vem pela frente. Já se fala em reforma do Estádio Aluísio Ferreira e da Praça
Marechal Rondon. Vixe Maria! Será que deveremos pedir para não reformarem?
Porque, do jeito que anda, cada “reforma” parece sinônimo de descaracterização:
foi assim com a própria Praça Marechal Rondon e com a Praça Aluízio Ferreira, a
Avenida Abunã que não é mais ou a Avenida Rio Madeira que se recusa a mudar de
nome. Até mesmo eventos já tradicionais mudaram de nome, como se isso fosse
melhor. Não é disso que a cidade precisa; restauração não é reinvenção.
O que une todos esses episódios é a falta de compromisso com a identidade cultural de Porto Velho. A cidade precisa de respeito ao que já existe. Entendam: memória não é tinta lavável, história não é obstáculo e patrimônio não é brinquedo. Acima de tudo, precisamos de instituições que cumpram o papel para o qual foram criadas. Se continuar assim, a pergunta que hoje ecoa — que diacho tá acontecendo? — vai se transformar em um triste lamento diante de uma cidade que já não reconhecemos.
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