Porto Velho (RO) segunda-feira, 29 de junho de 2026
opsfasdfas
×
Gente de Opinião

Opinião

Porto Velho City


Porto Velho City - Gente de Opinião

Porto Velho parece ter virado um grande rascunho urbano, onde cada autoridade se sente no direito de pegar a caneta e redesenhar a cidade ao seu gosto. A cada intervenção, um pedaço da memória coletiva é apagado, repintado, renomeado ou simplesmente ignorado. E tudo isso acontece sob o silêncio cúmplice de quem deveria proteger justamente aquilo que está sendo descaracterizado.

A troca do nome de trechos da Avenida Farquhar e da Rua José Camacho, feita para agradar desembargadores, é um exemplo claro dessa fase. Não houve consulta pública, não houve justificativa histórica, não houve diálogo. Apenas a velha prática de transformar vias públicas em moeda de prestígio. A população, que vive nesses espaços, assiste a tudo como espectadora de um espetáculo que não pediu para ver, enquanto a memória urbana vai sendo reescrita ao sabor das conveniências.

A antiga Prelazia, com sua imponência histórica, também foi vítima dessa onda de intervenções. A cor original foi substituída por um tom que muitos chamam de “preto caveirão”, uma escolha que não dialoga com a história do prédio nem com sua função simbólica na cidade. A descaracterização não é apenas estética; é simbólica. Quando se muda a cor, muda-se também a narrativa que aquele espaço preservava. E nesse processo, chama atenção a omissão do IPHAN — órgão que deveria zelar pelo patrimônio histórico, mas que parece ter adotado a política do “não vi, não ouvi, não sei”.

O Prédio do Relógio virou laboratório de intervenções improvisadas. Primeiro veio a escada de fuga, instalada de maneira tão destoante que parece mais obra emergencial do que solução arquitetônica pensada. Agora, com a Copa do Mundo, pintaram a fachada voltada para a Farquhar nas cores verde, amarelo e azul — aquele tipo de pintura “depois a gente repinta”, que transforma patrimônio em decoração temática. A Copa vai passar e o prédio seguirá carregando marcas de decisões que não respeitam sua história. E mais uma vez, o IPHAN permanece quieto, como se a descaracterização fosse detalhe menor.

Agora, a Praça João Nicoletti entra na fila das mudanças. Estão reformando o espaço, o que é ótimo e necessário. Mas, como virou moda, reforma vem acompanhada de rebatismo. Muda-se o piso, muda-se o banco, muda-se o nome. A praça, que carrega história e afeto, corre o risco de virar produto de marketing urbano. E novamente, o órgão responsável pela preservação da memória coletiva permanece quieto, como se a troca de nomes fosse apenas formalidade, quando na verdade é parte do processo de apagamento simbólico da cidade.

E o que mais preocupa é o que vem pela frente. Já se fala em reforma do Estádio Aluísio Ferreira e da Praça Marechal Rondon. Vixe Maria! Será que deveremos pedir para não reformarem? Porque, do jeito que anda, cada “reforma” parece sinônimo de descaracterização: foi assim com a própria Praça Marechal Rondon e com a Praça Aluízio Ferreira, a Avenida Abunã que não é mais ou a Avenida Rio Madeira que se recusa a mudar de nome. Até mesmo eventos já tradicionais mudaram de nome, como se isso fosse melhor. Não é disso que a cidade precisa; restauração não é reinvenção.

O que une todos esses episódios é a falta de compromisso com a identidade cultural de Porto Velho. A cidade precisa de respeito ao que já existe. Entendam: memória não é tinta lavável, história não é obstáculo e patrimônio não é brinquedo. Acima de tudo, precisamos de instituições que cumpram o papel para o qual foram criadas. Se continuar assim, a pergunta que hoje ecoa — que diacho tá acontecendo? — vai se transformar em um triste lamento diante de uma cidade que já não reconhecemos.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoSegunda-feira, 29 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

 O ENAMED, A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A DEFESA DO ESTADO DE DIREITO: POR QUE A AVALIAÇÃO DO ENSINO É COMPETÊNCIA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E NÃO DAS CORPORAÇÕES PROFISSIONAIS

O ENAMED, A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A DEFESA DO ESTADO DE DIREITO: POR QUE A AVALIAÇÃO DO ENSINO É COMPETÊNCIA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E NÃO DAS CORPORAÇÕES PROFISSIONAIS

Poucas iniciativas governamentais, nos últimos anos, merecem tantos aplausos quanto a edição da Medida Provisória nº 1.370, de 19 de junho de 2026,

Muito dinheiro em caixa e baixa qualidade na prestação de serviços médico-hospitalares

Muito dinheiro em caixa e baixa qualidade na prestação de serviços médico-hospitalares

Na coluna da semana passada, tratei sobre a dificuldade para agendar uma consulta com um ginecologista para minha mulher na rede credenciada do Ipam

O Palacio de Versalhes brasileiro: Juízes  Procuradores agora ficam seis meses sem trabalhar por ano

O Palacio de Versalhes brasileiro: Juízes Procuradores agora ficam seis meses sem trabalhar por ano

Tem horas que se mostrar revoltado com tantas aberrações nesse país,  parece não adiantar muita coisa. É o chamado Jus sperniandi. Chore com mais e

Os erros do acordo ortográfico entre unificação e empobrecimento

Os erros do acordo ortográfico entre unificação e empobrecimento

Pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante sem as apagarPreservar o «tu» e o «vós» não é saudosismo; é o último dique contra a prolet

Gente de Opinião Segunda-feira, 29 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)