Sexta-feira, 26 de junho de 2026 - 11h26

Tem horas que se mostrar revoltado com tantas
aberrações nesse país, parece não
adiantar muita coisa. É o chamado Jus sperniandi. Chore com mais
essa! Enquanto o cidadão comum enfrenta a dureza da jornada de trabalho e o
dilema de equilibrar as contas com salários muitas vezes corroídos pela
inflação, uma casta privilegiada do
serviço público parece habitar uma realidade paralela. O recente debate sobre a
reestruturação das férias e folgas de juízes e procuradores no Brasil expõe não
apenas uma lacuna na gestão pública, mas um abismo ético entre o Estado e a
sociedade a quem deveriam servir.
A polêmica matemática que circula, em análises
críticas, aponta que ao fracionar
sessenta dias de férias em até doze parcelas o Judiciário encontrou uma fórmula
engenhosa para maximizar o tempo de ócio. Olhe que, para eles, sessenta dias de
férias era pouco. A conta é simples, mas
revoltante: Ao intercalar os sessenta
dias de descanso com finais de semana, o número de dias úteis efetivamente
trabalhados diminuiu drasticamente, culminando em uma projeção de quase cento e
setenta e oito dias de folga por ano. O ponto central desta questão não é o
direito ao descanso fundamental a qualquer trabalhador, mas a autonomia
ilimitada com a qual essa classe define suas próprias benesses. Sem passar pelo
crivo do Congresso, sem audiências
públicas ou qualquer sinal de debate transparente com a população, o Judiciário
consolida um modelo de governança interna que ignora a realidade orçamentária
do país.
A discussão sobre as folgas é apenas a ponta do
iceberg. Quando olhamos para as planilhas de gastos, o cenário é de
perplexidade. Estamos falando de um Judiciário que custou aos cofres públicos
cento e quarenta e seis bilhões de reais em dois mil e vinte e cinco. É um
montante que supera o montante que o Brasil destinou a áreas vitais como
saneamento básico, meio ambiente e infraestrutura. O acúmulo de auxílios
moradia, alimentação e os famosos penduricalhos elevam vencimentos a patamares
que violam na prática o próprio teto constitucional. Quando noventa e oito por
cento de uma categoria ganha acima do limite estabelecido pela Carta Magna, o
teto deixa de ser uma regra e se transforma em uma sugestão ignorada.
O silêncio do Congresso diante de tais práticas é
talvez o aspecto mais preocupante de toda essa engrenagem. A omissão dos
parlamentares sinaliza uma paralisia das instituições. Em Brasília, o teatro
político sobrevive enquanto a eficiência do Estado morre. O Brasil é um país
que arrecada trilhões de impostos. Bateu
recorde espremendo o setor produtivo e a população, mas a pergunta que se impõe é sobre a
prioridade desse desse dinheiro.
Enquanto o dinheiro público sustenta, o que críticos
chamam de um Palácio de Versalhes, faltam investimentos básicos para o cidadão
nas periferias e nos hospitais públicos. E não estou sequer falando dos bilhões
desviados na corrupção. Aí o cano seria mais grosso. Não se trata de atacar o Judiciário como
instituição pilar essencial da democracia, mas de questionar a moralidade de um
sistema que se tornou um fim em si mesmo. A democracia brasileira não
sobreviverá se a desigualdade entre quem legisla e julga e quem trabalha for
mantida nos níveis atuais. Sem vergonha na cara de quem administra o orçamento
e sem uma pressão popular incisiva para frear esses privilégios, o Brasil
continuará sendo um país onde a lei quando se trata de privilégios parece ser
no mínimo seletiva.
Não foi por acaso que, recentemente, que Tribunal
Superior do Trabalho (TST) contratou a instalação e manutenção de uma sala VIP
exclusiva para seus ministros no Aeroporto Internacional de Brasília. O
contrato, que custaria cerca de R$ 1,5 milhão em dois anos, mas foi cancelado
depois de varias criticas. O espaço de 44 metros quadrados ficaria localizado
nas dependências do terminal brasiliense e incluía: Traslado privativo, com carros exclusivos para o transporte entre o
terminal e as aeronaves; Atendimento exclusivo: acompanhamento por funcionários
do aeroporto para os 27 ministros da Corte.
Em outra ponta, o mesmo tribunal possui um contrato de R$ 8,6 milhões anuais
voltado para a manutenção predial. O que chama a atenção nesse caso é o escopo
dos serviços oferecidos pela empresa terceirizada (Renovar Engenharia) nos
apartamentos funcionais dos ministros em Brasília, que vai muito além da
manutenção básica estrutural. Os funcionários atuam como uma espécie de
"faz-tudo VIP" executando tarefas domésticas e particulares, tais
como: Mudar móveis de lugar entre os cômodos,instalar televisores e
eletrodomésticos; pendurar quadros nas paredes e até trocar lâmpadas. Teve o
caso de um ministro que, não satisfeito, pediu para a empresa trocar as
lâmpadas brancas de seu imóvel por lâmpadas amarelas, pois ficava bem mais
estiloso
Mas o que foi apurado
revelou que técnicos da empresa foram enviados até a casa particular de
um ministro que optou por não morar no imóvel funcional do tribunal. Na
ocasião, o serviço realizado foi o reparo de um cabo de rede de internet.
O tribunal defendeu a legalidade do contrato argumentando que todos os serviços prestados entram na categoria de manutenção de imóveis. Em relação ao atendimento na residência particular, a justificativa oficial foi a necessidade de garantir uma conexão de internet segura para o acesso remoto aos sistemas do tribunal. Chega! Não dá mais pra ficar de braços cruzados diante de tanta agressão contra o povo brasileiro. Temos que tomar uma atitude…
Rubens Nascimento é Jornalista, Bacharel em Direito, sócio do escritório Barros e Barros, mestre maçom- GOB e Ativista do Desenvolvimento.
* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.
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