Domingo, 11 de novembro de 2012 - 14h03
Por Humberto Pinho da Silva
Que grande parte do mérito de cada um depende dos amigos que tem, e da cor política que defende, todos nós sabemos.
Assim como sabemos que prémios e concursos, sejam literários ou científicos, mesmo quando são atribuídos com justiça, escondem, quase sempre, interesses e amizades.
Acabo de ler a “Carta do Canadá”, que a jornalista Fernanda Leitão, envia periodicamente desse país, onde vive. A determinado passo, a conhecida jornalista, assevera: “ Jorge Amado devia ter sido o primeiro Prémio Nobel da língua portuguesa, e não foi. Ele mesmo disse o porquê numa entrevista na tarde da vida: “ Eu nunca neguei ter recebido da União Soviética a Ordem de Estaline e outras distinções, não escondo nada, mas abandonei o comunismo, por isso eu acho que o Nobel vai para o Saramago.” - “ O Inesquecível baiano” - “ A Ordem” 27/Set./2012.
Não se enganou o grande mestre da literatura portuguesa, de facto Saramago viria a receber o maior prémio de literatura do mundo.
Ao ler isto recordei a conversa que meu pai teve na livraria Guimarães, em Lisboa, com certo escritor, seu amigo:
Lamentava-se o prosador da dificuldade que há em editar uma obra. E a propósito contou que certa ocasião foi apresentado a célebre escritor, para que avaliasse o mérito de manuscrito.
Decorrido semanas de ansiedade, apareceu a desejada carta. Aberta com sofreguidão, e lida de jacto, ficou dececionado:
Após palavras elogiosas ao estilo e desenrolar do romance, a missiva declarava que teria muito gosto de o apresentar ao editor, mas que o livreiro só editava se fosse militante de determinado partido.
Meu pai, que era jornalista, viu muitas crónicas rejeitadas pelos diretores de empresas, apenas porque era conectado como homem da direita, ainda que fosse mais de esquerda, que muitos que se dizem esquerdistas
Houve até chefe da redação, de diário lisboeta, que lhe disse que gostaria muito de publicar seus artigos, que taxava de brilhantes, mas para isso teria que deixar de publicar a coluna no periódico “X”.
Essa recusa não foi por motivo de ética, porque o jornal em questão, era editado a centenas de quilómetros de distância.
Assim se mede o mérito em Portugal, e infelizmente não é só neste país. Dá-se mais valor à filiação política, ao cargo que ocupa, e até à crença que professa, que ao mérito.
Mas isso não são modernices. Sempre assim foi e por certo assim será.
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