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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – XXXIX


Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – XXXIX - Gente de Opinião

Bagé, 24.02.2025

 

Continuando engarupado na memória:

 

 

Tribuna da Imprensa n° 4.306, Rio, RJ

Sábado, 21 e Domingo 22.03.1964

 

Na Praça que é do Povo

(Hélio Fernandes)

 

 

Na praça que é do povo, na rua que é do povo”, como diria o sr. João Goulart, reuniu-se finalmente o povo que, ainda segundo o mesmo Jango, “é a alma da democracia, é a fonte de todo o poder democrático”. Em São Paulo, numa marcha empolgante que ia da Praça da República à Praça da Sé, reuniu-se, desta vez, o povo. Mas, contrariando, decepcionando, estarrecendo e encabulando o sr. João Goulart, reuniu-se para defender a Democracia e a Constituição e prestigiar o Congresso, transmitindo-lhe a sua confiança. E era povo mesmo, sem “cheiro” de “pelego”.

 

É preciso que se assinale, antes de mais nada, que nestes dias conturbados o povo ainda não se havia reunido. O comício da Central, com os seus 100 mil participantes, foi um equívoco, no máximo uma mobilização de “pelegos”. Preparado e anunciado com dois meses de antecedência, custou aos cofres públicos 350 milhões de cruzeiros criminosamente esbanjados pelos “pelegos” numa estarrecedora parada publicitária. E as massas foram arrebanhadas pelas viaturas das autarquias, ministérios e pelas frotas da Petrobrás. Foi uma concentração de massas a Cr$ 3.500,00 por cabeça. Nunca um comício espontâneo, com povo mesmo.

 

Agora, não. O que houve em São Paulo, entusiasmando e comovendo o País inteiro, renovando a esperança de muitos que poderiam sentir-se temerosos, foi uma concentração do povo, límpida e espontânea, tanto assim que o País inteiro ignorava a disposição dos paulistas de irem às ruas. Não custou um vintém do dinheiro do contribuinte. Era o acontecimento que estava faltando, mas era o acontecimento que não poderia deixar de ocorrer. Pois até então tinham falado os “pelegos”, os agitadores, os comunistas, a minoria subversiva. Até então, houvera o monólogo na Central, com as massas cercadas pelas metralhadoras e baionetas dos soldados de Jair, obrigados por sua vez a proteger cartazes com a foice e o martelo. Até então, havia apenas as massas trazidas como gado humano para a Central, e livres apenas para bater palmas e aplaudir. Ou levantar as mãos a um gesto de Brizola. Era o monólogo totalitário. Faltava o diálogo, “na praça que é do povo, na rua que é do povo”. E este diálogo surgiu em São Paulo. Meio milhão de pessoas do povo mostrou que a esmagadora maioria livre, pacífica e confiante está a serviço da legalidade, da liberdade e da democracia, contra a frenética minoria que pretende mergulhar o Brasil na miséria de uma ditadura para, com isto, esconder a miséria da inflação.

 

Contra as vagas totalitárias estipendiadas pela Petrobras e pelo indecoroso sindicalismo, surgiu finalmente o mar humano da democracia. Fiel ao seu papel histórico na vida brasileira, São Paulo, o baluarte constitucionalista de 32, transmitiu a mensagem que, em todo o País, estava sendo esperada. Esta mensagem não se dirige apenas a todas as consciências democráticas. Esta mensagem da imensa e maciça maioria paulista não se dirige apenas imensa e maciça maioria de todo o País. Dirige-se, em sinal de advertência, à veraz, ambiciosa e obsessiva minoria empenhada em subverter as instituições. Esta mensagem do homem e também da mulher paulista, mãe, irmã, mulher e filha dos trabalhadores urbanos, dos soldados, de todas as classes sociais, dirige-se de modo especial ao sr. João Goulart que, a pretexto de implantar reformas, trama o fechamento do Congresso, a legalidade do Partido Comunista e a implantação de uma República Campônio-Sindicalista. E também aos iludidos ministros militares de Jango.

 

Meio milhão de paulistas advertiu o sr. Goulart e seus asseclas de que a posição do povo é de defesa intransigente do regime e das instituições democráticas, contra qualquer forma de extremismo. É de inteira solidariedade ao Congresso, reconhecido e proclamado como único poder competente para promover as reformas, que devem surgir do diálogo democrático não do monólogo totalitário.

 

Sendo um brado de alerta e mobilização, o comício de são Paulo reafirma e estado de espírito do todo o povo brasileiro em todos os recantos. Foi mais do que um comício, foi, realmente, um plebiscito, o comparecimento do povo a uma espécie de urna invisível colocada na rua e na praça. “Na rua que é do povo, na praça que é do povo”, como diria, embora terrivelmente enganado por si mesmo e pela sua récua ([1]) de pelegos e de comuno-carreiristas, o doutor Jango Goulart.

 

O Comício de São Paulo é a resposta do povo a Jango, resposta que Jango não queria e talvez não queira ouvir ainda. Mas que será forçado a ouvir um dia, quer queira ou não, se continuar tapando os ouvidos às vozes de meio milhão de paulistas, que são as vozes do Brasil. Anteontem, em São Paulo, houve o plebiscito da democracia, nas ruas do povo, nas praças do povo.

 

# Revolução de Cima é Golpe de Estado #

 

Belo Horizonte (Sucursal) – Afirmando que “a revolução comandada de cima não é outra coisa senão Golpe de Estado” a que Minas está disposta a lutar contra o Golpe, o Governador Magalhães Pinto, disse em manifesto de “Minas Gerais ao Brasil” que:

 

Não reconhece a autenticidade dos que, apresentando-se como donos das reformas, delas se utilizam como pretexto para agitação, visando a perpetuar grupos e pessoas no poder.

 

Lembrando ainda que: “já não há lugar para e reprodução de sistemas ditatoriais arquivados em nossa história”, advertiu que Minas espera uma atitude franca e clara do Presidente da República, uma atitude clara e coerente do Congresso Nacional e uma atitude clara e consequente das Forças Armadas, pois:

 

A lei maior fez deles não defensores de parcialidades do País, mas de toda a Pátria, não garantidoras de um, sim de todos os poderes constitucionais. Este é um pronunciamento do povo de Minas Gerais. De Minas parte esta conclusão ao País.

 

Ao Governador do Estado cumpre o dever de interpretar as aspirações, as angústias e a atitude da gente mineira. Faz, com todo o povo, uma só frente na preservação do regime democrático, no aprimoramento e dinamização das instituições livres, para que a mudança social, que não se deve deter, seja um avanço, não um recuo, uma consolidação de conquistas, não um retrocesso a técnicas políticas de opressão.

 

A razão de nossa atitude é clara. Claros são os objetivos de nossa união. Clara, tranquila e determinada há de ser a ação que empreenderemos.

 

O povo já sabe que a Constituição lhe dá o direito à “justa distribuição de terra com igual oportunidade para todos”, a participação efetiva no processo eleitoral, sem submissão às cúpulas, aos benefícios da renda nacional, da cultura, da saúde e do trabalho. Sabe, também, hoje, mais do que nunca, que ele, povo, é o último proprietário das reformas. Não reconhece, assim, autenticidade nos que, apresentando-se como donos das reformas, delas se utilizam como pretexto para agitação, visando à perpetuar grupos ou pessoas no poder.

 

Paciente, amante da paz e da liberdade, o povo repele o golpe e o continuísmo, como repele, também, a exploração interessada dos radicalismos políticos.

 

Sustentamos que as reformas, para corresponderem à aspiração do povo, devem resultar do consenso de todas as forças empenhada no processo de mudança. Não nos conformamos em que se reduzam a bandeiras agitadas por uns poucos ou a troféu de vitória a ser colhido por lideranças pessoais. Os últimos acontecimentos demonstraram uma duplicidade de processo, que é nosso dever denunciar à Nação. Ao mesmo tempo em que, de forma regular, se apela para Congresso, a fim de pedir emendas constitucionais consideradas imprescindíveis as reformas, efetuam-se manobras publicitárias e promocionais. O que então se revela não é só desesperança na capacidade da representação política. É também descrença no regime democrático ou incapacidade de adaptar-se a ele.

 

Ao apelo ao Congresso, dizemos sim. O sistema democrático não impede, também, os estímulos do povo à fixação de problemas e sugestão de fórmulas que os solucionem. Consideramos, todavia, insuportável o desprezo pelas instituições representativas. Esperamos uma atitude franca e clara do presidente da República.

 

Sem desconhecermos a existência de transformações revolucionárias em curso, resultantes da tomada de consciência do nosso povo e exacerbadas pelo processo inflacionário, afirmamos que a revolução comandada de cima não é outra coisa, senão o Golpe de Estado. Estamos dispostos a lutar contra o Golpe. Já não há lugar para a reprodução de sistemas ditatoriais arquivados em nossa história.

 

A aventura de suprimir qualquer dos mandatos nos levará fatalmente, à guerra fraticida, cuja consequência não será a renovação, que desejamos, mas a ruína da Pátria e o retardamento da libertação econômica, social e política, a que aspira todo o povo brasileiro.

 

Esperamos uma atitude clara e coerente do Congresso Nacional. Com os Senadores está o poder de equacionar as reformas e de efetuá-las, sem o sacrifício das instituições democráticas.

 

O povo condenará seus legisladores, se ficarem insensíveis e inertes. Esperamos uma atitude clara e consequente das Forças Armadas. A lei maior fez delas não defensores de parcialidades do País, mas de toda a Pátria, não garantidoras de um, mas de todos os poderes constitucionais

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

Link: https://youtu.be/9JgW6ADHjis?feature=shared

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);

E-mail: [email protected]



[1]    Récua: tropa de bestas de carga; grupo de cavalgaduras. (Hiram Reis)

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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