Segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025 - 07h43

Bagé, 24.02.2025
Continuando
engarupado na memória:
Tribuna da
Imprensa n° 4.306, Rio, RJ
Sábado, 21 e
Domingo 22.03.1964
Na Praça que é do Povo
(Hélio Fernandes)
“Na praça que é do povo, na rua que é do povo”, como diria o sr.
João Goulart, reuniu-se finalmente o povo que, ainda segundo o mesmo Jango, “é a alma da democracia, é a fonte de todo o
poder democrático”. Em São Paulo, numa marcha empolgante que ia da Praça da
República à Praça da Sé, reuniu-se, desta vez, o povo. Mas, contrariando,
decepcionando, estarrecendo e encabulando o sr. João Goulart, reuniu-se para
defender a Democracia e a Constituição e prestigiar o Congresso,
transmitindo-lhe a sua confiança. E era povo mesmo, sem “cheiro” de “pelego”.
É preciso que se
assinale, antes de mais nada, que nestes dias conturbados o povo ainda não se
havia reunido. O comício da Central, com os seus 100 mil participantes, foi um
equívoco, no máximo uma mobilização de “pelegos”.
Preparado e anunciado com dois meses de antecedência, custou aos cofres
públicos 350 milhões de cruzeiros criminosamente esbanjados pelos “pelegos”
numa estarrecedora parada publicitária. E as massas foram arrebanhadas pelas
viaturas das autarquias, ministérios e pelas frotas da Petrobrás. Foi uma
concentração de massas a Cr$ 3.500,00 por cabeça. Nunca um comício espontâneo, com povo mesmo.
Agora, não. O que
houve em São Paulo, entusiasmando e comovendo o País inteiro, renovando a
esperança de muitos que poderiam sentir-se temerosos, foi uma concentração do
povo, límpida e espontânea, tanto assim que o País inteiro ignorava a
disposição dos paulistas de irem às ruas. Não custou um vintém do dinheiro do
contribuinte. Era o acontecimento que estava faltando, mas era o acontecimento
que não poderia deixar de ocorrer. Pois até então tinham falado os “pelegos”, os agitadores, os comunistas,
a minoria subversiva. Até então, houvera o monólogo na Central, com as massas
cercadas pelas metralhadoras e baionetas dos soldados de Jair, obrigados por
sua vez a proteger cartazes com a foice e o martelo. Até então, havia apenas as massas trazidas como gado humano para a Central, e livres apenas para bater palmas e aplaudir. Ou levantar as mãos a um gesto de Brizola. Era o monólogo
totalitário. Faltava o diálogo, “na praça
que é do povo, na rua que é do povo”. E este diálogo surgiu em São Paulo.
Meio milhão de pessoas do povo mostrou que a esmagadora maioria livre, pacífica
e confiante está a serviço da legalidade, da liberdade e da democracia, contra a frenética minoria que pretende mergulhar o Brasil na miséria de uma ditadura para, com isto, esconder a miséria da inflação.
Contra as vagas
totalitárias estipendiadas pela Petrobras e pelo indecoroso sindicalismo,
surgiu finalmente o mar humano da democracia. Fiel ao seu papel histórico na
vida brasileira, São Paulo, o baluarte constitucionalista de 32, transmitiu a
mensagem que, em todo o País, estava sendo esperada. Esta mensagem não se
dirige apenas a todas as consciências democráticas. Esta mensagem da imensa e
maciça maioria paulista não se dirige apenas imensa e maciça maioria de todo o
País. Dirige-se, em sinal de advertência, à veraz, ambiciosa e obsessiva
minoria empenhada em subverter as instituições. Esta mensagem do homem e também
da mulher paulista, mãe, irmã, mulher e filha dos trabalhadores urbanos, dos
soldados, de todas as classes sociais, dirige-se de modo especial ao sr. João
Goulart que, a pretexto de implantar reformas, trama o fechamento do Congresso,
a legalidade do Partido Comunista e a implantação de uma República
Campônio-Sindicalista. E também aos iludidos ministros militares de Jango.
Meio milhão de
paulistas advertiu o sr. Goulart e seus asseclas de que a posição do povo é de
defesa intransigente do regime e das instituições democráticas, contra qualquer
forma de extremismo. É de inteira solidariedade ao Congresso, reconhecido e
proclamado como único poder competente para promover as reformas, que devem surgir do diálogo democrático não do monólogo totalitário.
Sendo um brado de
alerta e mobilização, o comício de são Paulo reafirma e estado de espírito do
todo o povo brasileiro em todos os recantos. Foi mais do que um comício, foi,
realmente, um plebiscito, o comparecimento do povo a uma espécie de urna
invisível colocada na rua e na praça. “Na
rua que é do povo, na praça que é do povo”, como diria, embora
terrivelmente enganado por si mesmo e pela sua récua ([1]) de pelegos e de comuno-carreiristas, o doutor
Jango Goulart.
O Comício de São Paulo
é a resposta do povo a Jango, resposta que Jango não queria e talvez não queira
ouvir ainda. Mas que será forçado a ouvir um dia, quer queira ou não, se
continuar tapando os ouvidos às vozes de meio milhão de paulistas, que são as
vozes do Brasil. Anteontem, em São Paulo, houve o plebiscito da democracia, nas
ruas do povo, nas praças do povo.
# Revolução de Cima é
Golpe de Estado #
Belo Horizonte
(Sucursal) – Afirmando que “a revolução
comandada de cima não é outra coisa senão Golpe de Estado” a que Minas está
disposta a lutar contra o Golpe, o Governador Magalhães Pinto, disse em
manifesto de “Minas Gerais ao Brasil”
que:
Não reconhece a autenticidade dos que,
apresentando-se como donos das reformas, delas se utilizam como pretexto para
agitação, visando a perpetuar grupos e pessoas no poder.
Lembrando ainda que: “já não há lugar para e reprodução de
sistemas ditatoriais arquivados em nossa história”, advertiu que Minas
espera uma atitude franca e clara do Presidente da República, uma atitude clara
e coerente do Congresso Nacional e uma atitude clara e consequente das Forças
Armadas, pois:
A lei maior fez deles não defensores de
parcialidades do País, mas de toda a Pátria, não garantidoras de um, sim de
todos os poderes constitucionais. Este é um pronunciamento do povo de Minas
Gerais. De Minas parte esta conclusão ao País.
Ao Governador do Estado cumpre o dever de
interpretar as aspirações, as angústias e a atitude da gente mineira. Faz, com
todo o povo, uma só frente na preservação do regime democrático, no
aprimoramento e dinamização das instituições livres, para que a mudança social,
que não se deve deter, seja um avanço, não um recuo, uma consolidação de
conquistas, não um retrocesso a técnicas políticas de opressão.
A razão de nossa atitude é clara. Claros são os
objetivos de nossa união. Clara, tranquila e determinada há de ser a ação que
empreenderemos.
O povo já sabe que a Constituição lhe dá o direito
à “justa distribuição de terra com igual oportunidade para todos”, a
participação efetiva no processo eleitoral, sem submissão às cúpulas, aos
benefícios da renda nacional, da cultura, da saúde e do trabalho. Sabe, também,
hoje, mais do que nunca, que ele, povo, é o último proprietário das reformas. Não
reconhece, assim, autenticidade nos que, apresentando-se como donos das
reformas, delas se utilizam como pretexto para agitação, visando à perpetuar
grupos ou pessoas no poder.
Paciente, amante da paz e da liberdade, o povo
repele o golpe e o continuísmo, como repele, também, a exploração interessada
dos radicalismos políticos.
Sustentamos que as reformas, para corresponderem à
aspiração do povo, devem resultar do consenso de todas as forças empenhada no
processo de mudança. Não nos conformamos em que se reduzam a bandeiras agitadas
por uns poucos ou a troféu de vitória a ser colhido por lideranças pessoais. Os
últimos acontecimentos demonstraram uma duplicidade de processo, que é nosso
dever denunciar à Nação. Ao mesmo tempo em que, de forma regular, se apela para
Congresso, a fim de pedir emendas constitucionais consideradas imprescindíveis
as reformas, efetuam-se manobras publicitárias e promocionais. O que então se
revela não é só desesperança na capacidade da representação política. É também
descrença no regime democrático ou incapacidade de adaptar-se a ele.
Ao apelo ao Congresso, dizemos sim. O sistema
democrático não impede, também, os estímulos do povo à fixação de problemas e
sugestão de fórmulas que os solucionem. Consideramos, todavia, insuportável o
desprezo pelas instituições representativas. Esperamos uma atitude franca e
clara do presidente da República.
Sem desconhecermos a existência de transformações
revolucionárias em curso, resultantes da tomada de consciência do nosso povo e
exacerbadas pelo processo inflacionário, afirmamos que a revolução comandada de
cima não é outra coisa, senão o Golpe de Estado. Estamos dispostos a lutar
contra o Golpe. Já não há lugar para a reprodução de sistemas ditatoriais
arquivados em nossa história.
A aventura de suprimir qualquer dos mandatos nos
levará fatalmente, à guerra fraticida, cuja consequência não será a renovação,
que desejamos, mas a ruína da Pátria e o retardamento da libertação econômica,
social e política, a que aspira todo o povo brasileiro.
Esperamos uma atitude clara e coerente do Congresso
Nacional. Com os Senadores está o poder de equacionar as reformas e de
efetuá-las, sem o sacrifício das instituições democráticas.
O povo condenará seus legisladores, se ficarem
insensíveis e inertes. Esperamos uma atitude clara e consequente das Forças
Armadas. A lei maior fez delas não defensores de parcialidades do País, mas de
toda a Pátria, não garantidoras de um, mas de todos os poderes constitucionais
(*) Hiram Reis e
Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor,
Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Link: https://youtu.be/9JgW6ADHjis?feature=shared
Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente
da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio
Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do
Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do
Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4°
Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia
de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Membro do
Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito
da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
E-mail: [email protected]
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