Segunda-feira, 27 de janeiro de 2025 - 07h50

Bagé, 27.01.2025
Continuando
engarupado na memória:
Tribuna
da Imprensa n° 4.279, Rio, RJ
Quarta-feira,
19.02.1964
Em
Primeira Mão
(Hélio
Fernandes)
Em
longas conversas que manteve com seus correligionários em Belo Horizonte, onde
deverá passar mais de uma semana em contatos políticos, o senhor Juscelino
Kubitschek revelou sua grande preocupação com os destinos do País.
E
afirmou categoricamente que o presidente da
República
está empenhado em
criar uma
gravíssima situação no campo, com a agitação dos camponeses
sem terra,
facilmente influenciáveis,
a fim
de conduzir
o País
para rumos
golpistas.
JK
pediu, porém, aos seus correligionários, que mantenham a calma até que as
coisas se definam. Acha ele que o senhor João Goulart não tem condições
políticas e nem dispositivo militar suficientemente forte para deflagrar uma
revolução social no País, ou ocupar definitivamente
o poder
através do
golpe
de Estado.
Acredita ainda que, a partir de março próximo, com o fortalecimento e a
homologação da candidatura Lacerda e da dele mesmo, o senhor João Goulart já
não terá meios de golpear as instituições, pois o poder político passará,
automaticamente, para a faixa dos candidatos presidenciais.
De
qualquer modo o sr. Juscelino Kubitschek revelou suas preocupações, levando em
conta principalmente a situação econômico-financeira, que se agrava dia a dia,
e pelas providências verdadeiramente suicidas que o sr. João Goulart está
tomando no campo econômico e financeiro. Acha JK que o País pode estourar a
qualquer momento e que dificilmente as forças mais representativas da Nação
terão condições de evitar o colapso financeiro.
Enquanto
isto, as esquerdas comandadas por Leonel Brizola afastam-se do sr. João
Goulart, e se preparam para tomar uma posição francamente revolucionária em
torno do problema brasileiro. O próprio Brizola está a caminho do Norte e
Nordeste com discursos preparados pela sua assessoria política. Vai agitar
novamente o País a pretexto de combater a política de conciliação de Jango
Goulart e defender as reformas de base. Na realidade, segundo a opinião dos
mais credenciados líderes oposicionistas, Brizola atua na mesma faixa de Jango
Goulart, e como seu principal assessor na questão do golpe de Estado. Explicam:
Brizola serve a Jango na medida em que agita o País na faixa política, enquanto
o jovem e irresponsável João Pinheiro Neto agita o campo, produz a revolta dos
camponeses contra os proprietários, estimula a invasão de fazendas, a fim de
criar uma situação em que o Exército seja forçado a intervir.
E
em que daria a intervenção rápida e violenta do Exército na crise brasileira? A
que levaria essa intervenção? Os líderes oposicionistas calculam que, a esta
altura, uma intervenção militar no processo brasileiro, no momento em que as
candidaturas presidenciais procuram fixar-se, equivaleria a um golpe de Estado,
eliminando as
eleições
e fornecendo
ao senhor
João Goulart
os elementos
de que
necessita para
liquidar
as instituições e tornar-se
o chefe
absoluto do
Estado.
Atento
a essa situação, o senador Kubitschek, atendendo a conselhos dos seus
companheiros de partido, procurará, a partir das próximas semanas, fixar sua
candidatura em termos antilacerdistas a fim de polarizar em torno do seu nome
todo o contingente antilacerdista e esquerdista que está órfão de líderes que
tenham condições de se candidatarem.
Promete
o ex-presidente definições claras e inequívocas sobre a situação política, pois
só dessa maneira conseguirá aglutinar as forças que se opõem a Lacerda e, com
isto, fortalecer-se como candidato, retirando de Jango Goulart a bandeira do
antilacerdismo e do reformismo econômico.
Já
existe hoje, nas Forças Armadas, nos meios políticos e nos círculos
conservadores a certeza de que o sr. Jango Goulart se atirará realmente contra
as instituições. É lógico que não se jogará de frente contra as instituições, não
marcará dia
e hora
para o
golpe,
não avisará
quando se
transformará em ditador Procurará mascarar
as suas
intenções,
os seus
objetivos,
os seus
propósitos,
caracterizando toda a sua ação golpista como antigolpista.
Existem
alguns tolos que consideram que golpe é apenas o fechamento do Congresso, como
se Jango fosse estúpido a esse ponto. E aí chegamos a um ponto crucial da
questão, e que deve ser definido com urgência para benefício da coletividade e
salvação do regime: O que é golpe de Estado?
Greve
geral, com objetivo político-pessoal, sem o menor interesse para os
trabalhadores, é golpe ou não é? É um crime contra o regime e contra a
tranquilidade geral ou não é? Greve na Petrobrás, paralisando o País, inclusive
as Forças Ramadas, é golpe ou não é? Infiltração comunista, entregando-se todos
os postos chaves civis e militares a eles, é golpe ou não é?
Provocações
coletivas como o comício que houve há tempos na Cinelândia e que vai repetir-se
agora noutro local proibido, em frente ao Ministério da Guerra, é golpe ou não
é? Incitação de classe, jogando-se camponeses contra fazendeiros com o espírito
puro de provocar e não de solucionar coisa alguma, é golpe ou não é?
Desestímulo, desesperança e desconfiança através de medidas de incentivo à
inflação constituem ou não constituem golpe?
Roubo
generalizado com o enriquecimento de meia dúzia, que são os chamados
reformistas do Governo, com o empobrecimento de toda uma população, é golpe ou
não é? Contrabando de armas através da Petrobras e de outros órgãos do Governo
é golpe ou não é? Desmoralização da autoridade constituída, diminuição
sistemática das lideranças, destruição da hierarquia militar, é golpe ou não é?
A
Série de atos deliberadamente desatinados e conscientemente desesperadores é
enorme e poderia constituir não uma simples coluna mas um tratado sobre as
intenções golpistas do sr. João Goulart e do seu governo. E essa série de fatos
mais do que comprovados e verdadeiros leva a uma pergunta que teremos que
responder imediatamente, sob pena de não termos, dentro em pouco, a menor possibilidade
de respondê-la: até onde irá o sr. João Goulart, até onde vai a limitação
constitucional do seu mandato, e até onde as Forças Armadas assistirão,
impassíveis e omissas, à destruição da ordem, da lei, e da própria
nacionalidade, com o domínio, pelos comunistas, de todos os postos chaves do
País? Milhões de brasileiros, que repudiam o comunismo, exigem resposta a essa
pergunta.
O
padre-deputado Vidigal está dizendo abertamente que vai interpelar o sr.
Juscelino Kubitschek, em plena convenção do PSD. Quer explicação de
ex-presidente para duas afirmações suas: legalização do PC e reconhecimento e
restabelecimento de relações com a China Comunista. As declarações de JK
favoráveis ao Partido Comunista e reconhecimento da China tiveram péssima
repercussão em Minas e no resto do País. E JK está apavorado, chamando um e
outro deputado para desmentir o fato.
O
serviço Secreto do Exército possui uma documentação impressionante sobre a
entrada de armas no País. Comunica esse fato, sistematicamente, ao Conselho
Nacional de Segurança, que naturalmente transmite todas as informações aos
comunistas, com a recomendação de mais cautela nas operações.
A
propósito de armas: confirmada inteiramente a minha informação de que o
Exército iria adquirir armas na Europa. Esse fato trará grande prejuízo e
confusão ao Exército, já acostumado e treinado, há longos anos, com as armas
que vem dos Estados Unidos. Tudo para favorecer um conhecido negocista, e aos
comuno-carreiristas que precisam mostrar que tem “ódio” aos americanos. Por que não experimentamos fabricar as nossas
próprias armas?
Sério
incidente na Paraíba entre Oficiais do Exército, da guarnição do 15° Regimento
de Infantaria, e o deputado estadual comunista, do PRT, Cleto Maia. Quando saia
de uma reunião, onde pregara abertamente a subversão, afirmando que o Brasil só
“pode melhorar mesmo com uma revolução
armada”, o deputado foi preso, levado para o quartel e interrogado. Sabedores do
fato, os
escalões comunistas
do governo
já providenciaram
punição
para os
Oficiais do
Exército anticomunistas
e liberdade
de movimento
para o
comunista que
prega
a revolta
armada.
Isso
que parece inacreditável é um fato rigorosamente verdadeiro.
(*)
Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor,
Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Link: https://youtu.be/9JgW6ADHjis?feature=shared
Campeão
do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente
da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro
do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente
da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro
da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro
do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro
da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro
da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador
da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro
do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
E-mail:
[email protected]
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