Sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025 - 07h35

Bagé, 28.02.2025
Continuando
engarupado na memória:
Tribuna da Imprensa n° 4.310, Rio, RJ
Quinta-feira, 26 e Sexta-feira 27.03.1964
Lei de Segurança Contra Brizola
Procedente da Escola
Superior de Guerra, encontra-se no Estado Maior do Exército uma representação
pedindo o enquadramento do deputado Leonel Brizola na Lei de Segurança
Nacional, sob o argumento de que o cunhado do presidente, ao organizar milícia
particular – os famosos “Grupos dos Onze
Companheiros”, tenta subverter a ordem pública, incitando o fechamento do
Congresso Nacional e procurando conseguir através de processos ilegais,
modificar a Constituição, a fim de estabelecer uma ditadura comunista no País.
A representação, que
se baseia no artigo 191 do Código da Justiça Militar, é de autoria do Major Argos
Gomes de Oliveira, da Escola Superior de Guerra, a qual, de acordo com os
regulamentos do Exército, encaminhou-a a seu superior imediato, o Gen Jurandir
Bizarria Mamede, Comandante daquele estabelecimento de Altos Estudos. Este, por
seu turno, despachou-a para o Estado-Maior do Exército, para as providências
que se fizerem necessárias.
Esta é a primeira
tentativa efetiva do enquadramento do sr. Brizola na Lei de Segurança Nacional
e está sendo apoiada pela maioria maciça dos alunos da Escola Superior de
Guerra, a Sorbonne brasileira. A vingarem os pontos de vista expostos na
representação, o sr. Leonel Brizola estará sujeito a uma pena de reclusão de um
a três anos, nos termos da própria Lei de Segurança Nacional, que comina aquela
punição para quem ferir o seu artigo 24, que estatui crime:
Constituírem ou manterem os partidos, associados em
geral ou mesmo o particular, milícias ou organizações do tipo militar, de
qualquer natureza ou forma, armadas ou não, com ou sem fardamento,
caracterizadas pela finalidade combativa e pela subordinação hierárquica.
Crise a vista no
Ministério da Fazenda: o diretor-geral da Fazenda, sr. Verner Grau, está
disposto a abandonar o cargo por considerar-se desprestigiado pelo sr. João
Goulart, que faz alterações em órgãos daquela diretoria sem ouvir nem mesmo o
ministro Nei Galvão. A irritação do sr. Verner Grau atinge também o sr. Nei
Galvão, que vem assistindo impassível às investidas que o sr. Goulart faz por
cima de sua autoridade. Há dois dias, em seu gabinete, o diretor da Fazenda
chegou dizer, em altos brados, seus auxiliares:
O ministro pode aguentar calado, mas eu não, pois
não tenho nenhum amor ao cargo.
A irritação do sr.
Verner Grau deve-se ao fato de não ter sido consultado na entrega da diretoria
do Patrimônio da União a um ex-funcionário do IPASE, que substituiu o sr.
Francisco de Sá Filho, funcionário da Fazenda. Irritou-se também com a decisão
de Jango de substituir o diretor do Imposto de Renda, sr. Otávio Prado Filho,
por um delegado do Imposto de Renda em Porto Alegre, o sr. José de Sousa Pires,
o que ocorreu segunda-feira. Todas essas atitudes de Jango estão sendo
encaradas como parte do processo de “esvaziamento”
do sr. Nei Galvão, que, pelas evidências, está com os seus dias contados à
frente da política econômico-financeira do governo. Nos termos do compromisso
assumido com o governador da Bahia, sr. Lomanto Júnior, o sr. João Goulart
deverá reconduzir à diretoria da Petrobras, em meados de abril, o sr. Alfredo
Andrade Filho, uma vez que, segundo está evidenciado nos trabalhos da Comissão
Especial que apura as irregularidades naquela empresa, aquele ex-diretor não
teve nenhuma participação no recente escândalo.
# Marujos Desafiam
Ministro e Reúnem #
Com sua prisão já
determinada pelo ministro Sílvio Mota, da Marinha, o presidente da Associação
dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, José Anselmo, compareceu à
solenidade realizada, ontem à noite, no Palácio do Metalúrgico, para assinalar
o segundo aniversário da entidade civil dos marujos. Pronunciou discurso
previamente proibido pelo chefe da Armada, perante um público de marinheiros,
fuzileiros, militares, graduados e oficiais, de todas as armas, representantes
do CGT, Frente de Mobilização Popular, Frente Parlamentar Nacionalista, o chefe
do Gabinete do Ministro do Justiça, representando o Presidente da República,
delegados da UNE e o famoso líder do Revolução da Chibata, João Cândido.
Discurso Proibido
Em seu discurso
proibido, o líder dos marinheiros e fuzileiros fez novos pronunciamentos de
timbre esquerdista, que transcrevemos a seguir:
Aceite, senhor presidente, a saudação dos
marinheiros e fuzileiros navais do Brasil, que são filhos e irmãos dos operários,
dos camponeses, dos estudantes, das donas de casa, dos intelectuais e dos
oficiais progressistas das nossas Forças Armadas. Aceite, senhor presidente, a
saudação daqueles que juraram defender a Pátria, e a defenderão se preciso for
com o próprio sangue, dos inimigos do povo; latifúndio e imperialismo. Aceite,
senhor presidente, a saudação do povo fardado que, com ansiedade, espera a
realização efetiva das Reformas de Base que libertarão da miséria os explorados
do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis. A Associação dos Marinheiros,
e Fuzileiros Navais do Brasil completa, neste mês de março, o seu segundo
aniversário. E foram as condições históricas, a fome, as discriminações, os
anseios de liberdade, as perseguições e as injustiças sofridas que determinaram
a criação de uma sociedade civil, realmente independente, com a finalidade de
unir, através da educação, da cultura e da recreação, os marinheiros e
fuzileiros navais do Brasil.
Subversivo
Autoridades reacionárias, aliadas ao antipovo, escudadas
nos regulamentos arcaicos e em decretos inconstitucionais, qualificam a
entidade de subversiva. Será subversivo manter cursos para marinheiros e
fuzileiros? Será subversivo dar assistência médica e jurídica?
Será subversivo visitar a Petrobras? Será
subversivo convidar o Presidente da República para dialogar com o povo fardado?
Quem tenta subverter a ordem não são os marinheiros, os soldados, os
fuzileiros, os sargentos e os oficiais nacionalistas, como também não são os
operários, os camponeses e os estudantes.
Quem, neste País, tenta subverter a ordem são os
aliados das forças ocultas, que levaram um Presidente ao suicídio, outro à
renúncia e tentaram impedir a posse de Jango e agora impedem a realização das
Reformas de Base. Quem tenta subverter são aqueles que expulsaram da gloriosa
Marinha o nosso diretor em Ladário por ter colocado na sala de reuniões um
cartaz defendendo o monopólio integral do petróleo. Quem tenta subverter a
ordem são aqueles que proibiram os marujos do Brasil, nos navios, de ouvir a
transmissão radiofônica do Comício das Reformas.
Sem Política
Somos homens fardados. Não somos políticos. Não
temos compromissos com líderes ou facções partidárias. Entretanto, neste
momento histórico, afirmamos o nosso entusiástico apoio ao decreto da SUPRA, ao
da encampação da Capuava e demais refinarias particulares, e ao do tabelamento
dos aluguéis. Aguardamos, aliados ao povo, que o Governo Federal continue a
tomar posições em defesa da bolsa dos trabalhadores e da emancipação econômica do
Brasil. Ao nosso lado estão os irmãos das outras armas; sargentos do Exército e
da Aeronáutica, soldados, cabos e sargentos da Policia Militar e do Corpo de
Bombeiros. Estão também, companheiros da mesma luta, os sargentos da nossa
muito querida Marinha de Guerra do Brasil.
Aqui sob o teto libertário do Palácio do
Metalúrgico, sede do glorioso e combativo Sindicato dos Trabalhadores
Metalúrgicos do Estado da Guanabara, que é como o porto em que vem ancorar o
encouraçado de nossa Associação, selamos a unidade dos marinheiros, fuzileiros,
cabos e sargentos da Marinha com os nossos irmãos militares do Exército e da
Aeronáutica, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, e com os nossos irmãos
operários. Esta unidade entre militares e operárias completa-se com a
participação dos oficiais nacionalistas e progressistas das três armas na
comemoração da data aniversária de nossa Associação.
Não Estamos Sós
Nos marinheiros e fuzileiros que almejamos a
libertação de nosso povo, assinalamos que não estamos sozinhos. Ao nosso lado,
lutam, também, operários, camponeses, estudantes, mulheres, funcionário
públicos, e a burguesia progressista, enfim, todo Brasil. É necessário que se
reforme a Constituição para estender o Direito de Voto aos soldados, cabos,
marinheiros e aos analfabetos. Todos os alistáveis deverão ser elegíveis, para
a fim de que novamente não ocorra a injustiça como a cometida contra o sargento
Aimoré Zoch Cavaleiro. Em nossos corações de jovens marujos e brasileiros
palpita o mesmo sangue que corre nas veias do bravo marinheiro João Cândido, o
grande Almirante Negro e seus companheiros de luta que extinguiram a chibata na
Marinha. Nós extinguiremos a chibata moral que é a negação do nosso Direito de
Voto e de nossos direitos democráticos e constitucionais. Nós, marinheiros e
fuzileiros navais reivindicamos:
Reforma do Regulamento Disciplinar da Marinha,
regulamento anacrônico que impede até o casamento;
Não interferência do Conselho do Almirantado nos
negócios internos da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil;
Reconhecimento pelas autoridades navais da AMFB;
Anulação das faltas disciplinares que visam apenas
intimidar os associados e dirigentes da AMFB;
Estabilidade para os cabos, marinheiros, e
fuzileiros;
Ampla e irrestrita anistia aos implicados no
movimento de protesto de Brasília.
Iniciamos esta luta, sem ilusões. Sabemos que
muitos tombarão para que: cada camponês tenha direito ao seu pedaço de terra,
para que se construam escolas, onde os nossos filhos possam aprender com
orgulho a história de uma Pátria nova que começamos a construir; para que, se
construam fábricas e estradas por onde possam transitar nossas riquezas Para
que o nosso povo encontre trabalho digno tendo fim a horda de famintos que
morrem dia a dia sem ter onde trabalhar nem o que comer. E sobretudo para que a
nossa Bandeira verde e amarela possa cobrir uma terra livre onde impere: a Paz,
a Igualdade e a Justiça Social.
Manifesto do Cárcere
Este é o manifesto
enviado do cárcere da Ilha Cobras pelos líderes dos marinheiros e fuzileiros,
presos por ordem do Ministro da Marinha, em virtude das manifestações de
sexta-feira passada em torno da homenagem, que não houve, ao marechal Osvino
Alves. Seu texto, na íntegra:
Cárcere da Ilha das
Cobras, 25.03.1964
Companheiros, mais uma vez a intolerância
desenfreada, a prepotência, o abuso do poder e umas poucas mentalidades
retrógradas e apátridas, comprometidas com os interesses antinacionais e
antipovo, subordinados aos interesses de Pentágono militar de Washington,
desfecharam mais um profundo golpe nos sentimentos democráticos de nosso povo. No
mais vergonhoso atentado à dignidade da pessoa humana, encarceraram, sem
quaisquer justificativas legais brasileiros inconformados com a atual estrutura
socioeconômica do País, a espoliação internacional de grupos e a condição de
escravização a que se acha submetido o povo brasileiro e particularmente aos
nossos irmãos nordestinos. Neste momento conclamamos os companheiros associados
e não associados, operários, camponeses. Estudantes e intelectuais
progressistas para uma tomada de posição no sentido derrubarmos definitivamente
essa estrutura anacrônica onde só os grupos privilegiados absorvem toda a
riqueza de uma Nação que por direito pertence aos seus filhos. Aqui vai a nossa
palavra de ordem a todos os Irmãos brasileiros: luta por um Brasil livre,
emancipado e realmente democrático. Aos que interpretam erroneamente nossa
palavra, diremos que o tempo é o nosso juiz e só a História nos absolverá.
Somos brasileiros, queiram ou não, os senhores que detém no momento o poder.
Viva o Brasil! Viva a Associação de Marinheiros e Fuzileiros!
Assinam o documento os marinheiros: Raul Alves do
Nascimento Filho, José Duarte dos Santos, Adilson Aquino, Nelson Carlos, José
Reimento da Costa, João Ataíde Gomes, Antero Marques, Francisco da Silva,
Avelino Capitani.
Decisão Final
A última decisão dos
marinheiros e fuzileiros, na reunião do Palácio dos Metalúrgicos, foi de
solidariedade a seus colegas presos por faltas disciplinares. Assim é que
resolveram apresentar-se presos a seus comandantes se, até a próxima
segunda-feira, os outros não tiverem sua libertação decretada.
(*) Hiram Reis e
Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor,
Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Link: https://youtu.be/9JgW6ADHjis?feature=shared
Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente
da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do
Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do
Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do
Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4°
Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Membro do
Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
E-mail: [email protected]
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