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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Persona non grata XIV


Persona non grata XIV - Gente de Opinião

Bagé, RS, 011.06.2026

 

Termo de Depoimento do Sr. Ten-Cel Inf Walter Chiarato

 

No dia 30 de agosto de 2022, às 15h03 (Horário de Brasília), em audiência virtual realizada por intermédio da plataforma Teams, tendo como objetivo compor o laudo pericial antropológico do Assistente Técnico da União, nos autos da Ação Civil Pública – Waimiri-Atroari, n° 1001605-06.2017.4.01.3200, inicio a inquirição do Sr. Walter Chiarato.

 

O Sr. poderia informar o seu nome completo: Walter Chiarato; identidade: 025.821.511-0 – emitida pelo EB/MD; CPF: n° 321.743.817.53; Patente: Tenente-Coronel; estado civil: casado; naturalidade – Salto Grande, SP; filiação – Virgílio Chiarato / Ana Prezoto Chiarato; residência – Rua Coronel Arthur Ferreira de

Abreu, n° 480, Curitiba, PR; CEP – 82.810.070.

 

Vamos então às perguntas:

 

Pergunta: o Sr. serviu no 1° Batalhão de Infantaria de Selva (1° BIS) em que período?

 

Resposta: Cheguei lá como Aspirante em fevereiro de 1975 e sai em janeiro de 1976.

 

Pergunta: o Sr. tomou conhecimento, na época, dos massacres perpetrados pelos Waimiri-Atroari ao Posto Alalaú II (no dia 01.10.1974), à turma de desmatamento – os maranhenses (no dia 18.11.1974), e ao Posto Abonarí II (no dia 29.12.1974)?

 

Resposta: Tomei conhecimento quando participei das missões lá do 1° BIS, que tinha ordem para, inicialmente, fazer um rodízio de tropa valor Pelotão de Fuzileiros para dar segurança à construção da estrada que estava em ritmo de desmatamento da abertura da 23 estrada e depois a terraplanagem. Então, em novembro de 1975, eu participei pela primeira vez desse Pelotão de Fuzileiros que foi designado para cumprir missão lá durante um mês. Era um rodízio de Pelotão e fui uma segunda vez, em agosto de 76, e dessa forma já não havia mais rodízio foi uma missão inopinada que foi solicitada pelo Destacamento do BEC. Então eu tomei conhecimento nessa época dos massacres, que tinham acontecido lá, conversando com os mateiros e com os funcionários da FUNAI.

 

Pergunta: o Sr. tem conhecimento de quais foram as medidas tomadas pelo Exército Brasileiro para dar continuidade aos trabalhos da BR-174, temporariamente suspensos após os ataques?

 

Resposta: Era a designação de uma tropa para fazer a segurança na região da abertura do desmatamento ao longo da picada, tinha uma picada inicial que tinha sido demarcada pela topografia e nessa picada seguia o desmatamento para poder fazer a terraplanagem. Nesse desmatamento o mais complicado era a travessia de uma parte alagada, aí vinha uma equipe, principalmente de funcionários civis, de uma firma contratada pelo 6° BEC, faziam a derrubada manual onde os tratores podiam passar com segurança para atravessar e fazer o desmatamento do outro lado desse charco, desse alagado. Então era uma tropa de valor Pelotão de Fuzileiros, não mais que isso, para dar segurança nos trabalhos ao longo da picada.

 

Pergunta: só para ilustrar qual era o efetivo para o pessoal que não é militar?

 

Resposta: O Pelotão de Fuzileiros tem em torno de 35 homens.

 

Pergunta: o Sr. fez parte de alguma tropa do 1° BIS encarregada da segurança dos trabalhadores da BR-174 e quantas vezes?

 

Resposta: Foram duas vezes, uma primeira vez era a segurança normal, era corriqueira, era um rodízio de tropa que fazia segurança quando houve, no caso, a ligação do desmatamento a ligação do desmatamento da Frente Norte com a Frente Sul foi suspensa essa segurança porque acharam que não tinha mais necessidade, porque não tinha ocorrido nenhum conflito e acharam que não havia muito risco pelo fato da estrada já estar desmatada em torno de 60 m.

 

Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade teve de lançar mão de rajadas de metralhadora ou a explosão de dinamite para afugentar os nativos?

 

Resposta: Não, eu tive contatos duas vezes com eles, na primeira e a segunda vez, que foi motivada por já ter a certeza de haver este contato. Da primeira vez foi um contato fortuito e eles não apareciam na picada, quando eles tinham de aparecer eles apareciam na estrada e iam ao Posto da FUNAI que era montado ao longo da estrada. No desmatamento não tinha Posto da FUNAI no meio do mato era na estrada mesmo onde era montado um Posto da FUNAI e ele era deslocado conforme se avançava a estrada. A terraplanagem, o desmatamento também se deslocavam mais próximos às picadas. Então não foi necessário realizar nenhuma rajada nem nada e a nossa missão era de segurança, não era de atacar nem afugentar nem nada. Eu particularmente não, nem quando eles chegaram da primeira vez até a estrada, em novembro de 1975, nós tivemos um contato com eles que apareceram fortuitamente com mulheres crianças, tudo, no Posto da FUNAI. Aí nós tivemos um contato com eles.

 

Pergunta: O Sr. em alguma oportunidade viu índios mortos serem transportados por caminhões do Exército?

 

Resposta: Não. Nem mortos nem transportados em caminhões.

 

Pergunta: o Sr. notou, neste período, o sobrevoo de alguma aeronave militar sobre a área, além do avião da FUNAI e do 6° BEC?

 

Resposta: Não, nem uma aeronave, nem militar nem civil, nem da FUNAI, não teve sobrevoo de aeronave nesta época lá.

 

Pergunta: o Sr. sabe informar se houve alguma iniciativa, por parte da FUNAI, para afastar os indígenas das frentes de trabalho?

 

Resposta: Não, não, inclusive quando eles apareciam eles chegavam acompanhados de mulheres e crianças, como já disse, amistosamente e a FUNAI apenas fazia o contato, Alguns funcionários da FUNAI que conheciam alguma palavra do idioma deles tentavam fazer a comunicação, mas era difícil a comunicação com os Waimiri-Atroari porque era um caso bem particular, eles repetiam tudo que nós falávamos e sem sotaque sem nada, se eu dizia “chave de fenda” eles repetiam “chave de fenda”, se eu falava “pistola” eles respondiam “pistola”, se eu proferia fuzil respondiam “fuzil” com a mesma entonação de voz, não sabíamos onde eles aprenderam isso, mas eles tinham essa facilidade de repetir o que nós falávamos com a mesma entonação de voz, mesmo sotaque, vamos dizer assim.

 

Pergunta: o Sr. presenciou algum suposto ato hostil por parte dos trabalhadores em relação aos Waimiri-Atroari?

 

Resposta: Não, não presenciei apenas tive conhecimento, mas não de ato hostil dos trabalhadores nem da FUNAI, mas sim deles contra o pessoal, mas sempre com algum motivo.

 

Pergunta: o Sr. poderia relatar qual a orientação recebida do escalão superior em relação aos Waimiri-Atroari?

 

Resposta: Era para fazer a segurança na região do deslocamento da trilha e não se afastar dela não perseguir nem nada é fazer a defesa caso fosse atacado, mas não teve esse caso, era segurança ao longo da trilha, essa segurança se baseava, dependendo da visibilidade da selva, em torno de 50 m mais ou menos, menos que isso talvez, mais que isso dependendo da vegetação, então nós não saímos do eixo da trilha, vamos dizer assim, do traçado da trilha que seria em torno de 50 m mais ou menos devido a visibilidade do pessoal que trabalhava também, era apenas segurança nada de ação de combate era a segurança do pessoal.

 

Pergunta: o Sr. gostaria de acrescentar mais algum comentário?

 

Resposta: da primeira vez eles chegaram, na estrada, no Posto da FUNAI ficaram lá um dia e foram embora. Da segunda vez é que nós recebemos a informação, naquela época as comunicações eram bem precárias e não tinha como, às vezes, de se ter certeza. Eram feitas mediante aqueles rádios SSB que a gente tinha e cujo contato através dele era difícil, ficávamos muito tempo sem conseguir falar com Manaus e, então, chegou a mensagem no CMA (Comando Militar da Amazônia) que o Posto do Abonari, não do Alalaú, estava sendo atacado por índios e que o 1°BIS deveria ir até o Posto do Alalaú para dar segurança. Rapidamente, tipo infantaria, patrulha, missão inopinada, eu fui escolhido para comandar essa tropa. Organizei uma tropa valor Pelotão, claro que se estavam sendo atacados, levamos munição e um pouco de ração e nos deslocamos para área chegando lá à noite já avançada, não me recordo bem, já fazem quarenta e poucos anos. Chegando ao Posto do Alalaú ordenei que ocupassem o perímetro, e como estavam sendo atacados precisávamos ocupar o perímetro. Fui, então, fazer contato com o comandante do Posto do Alalaú do Destacamento de Engenharia e aí saiu de lá o Capitão apavorado que não sabia o que estava acontecendo, enfim não era nada daquilo, a situação era a seguinte os índios tinham aparecido no Posto da FUNAI e, se não me falha a memória, no Abonari, tinha outro rio à frente, agora não me recordo o nome, eles tinham aparecido no Posto da FUNAI, passaram por ali, eles eram nômades, passaram de um lado para o outro nas malocas deles, porque quando ficavam muito tempo no mesmo local começavam a aparecer carrapatos, bichos e outras tantas coisas, então eles saiam para esterilizar aquela área e iam para outra área até mesmo de caça, eles tinham ido para outro local e disseram que iam voltar daí tantos dias e iam passar por ali e se por acaso a FUNAI poderia arrumar voadeiras para eles (canoas) para levá-los rio acima que seria mais perto. Esta era a situação lá, mas chegou no CMA que ia haver ataque. Ficamos aguardando no local, montamos acampamento, porque a FUNAI tinha medo deles e era justificado pelos dois massacres que os funcionários da FUNAI tinham sofrido, lá permanecemos e quando eles chegaram organizamos o transporte e como era muito índio não tenho como precisar nem posso citar o valor, eu só sei que tinham umas três ou quatro voadeiras. Fizemos umas duas ou três viagens para transportar todos eles até onde o rio tinha uma ponte de madeira. Da ponte nós fizemos o transporte deles em umas três ou quatro levas e nessa leva ia um soldado mais o piloto da embarcação que era da FUNAI e em torno de 6 a 7 índios de cada leva. Chegando ao local designado, eu e mais uns seis soldados e um sargento, desembarcamos junto com eles e lá ficamos com eles com um pouco de receio, mas naquela época estávamos preparados para tudo e terminado o transporte retornamos e não teve mais nenhum incidente lá. Alguns pequenos entreveros ocorreram, agora não me recordo se foi da primeira ou da segunda vez, acho que da primeira vez. Não sei se foi com um funcionário civil da empresa contratada, porque quando os índios chegavam à estrada vinha um monte de gente ver por curiosidade, funcionários, soldados, às vezes até militares que não eram da segurança ou da FUNAI. Eu sei que houve uma troca por lá, como todo mundo ficava de olho nos arcos e flechas dos índios, para trocar, um indivíduo pegou um cachorro e o entregou para o índio pegando a flecha, mas o cachorro não era dele e eu vi que estava se formando um entrevero entre eles e eu fui ver o que era e me disseram que o índio estava bravo porque o dono do cachorro pediu um cachorro de volta e foi uma confusão danada, nessa época. Chamei o Comprido, tem até uma foto com ele, conversei com ele, o abracei, tudo direitinho, conversamos e mandei buscar panelas o que tinha lá pra entregar para este índio que estava brabo e para o Comprido fiz uma troca com ele, acabei dando meu relógio pra ele e peguei, em troca, dois arcos e umas 5 ou 6 flechas, cobrei caro o relógio, mas ele deu tudo numa boa sem problema algum. Esse caso foi contornado sem problema, não me recordo se foi na primeira ou segunda vez que teve esse entrevero entre o pessoal e eles. Eu chamei a pessoa para que devolvesse o arco para o índio e ele não quis de volta porque disse que não era dele mais, deu para entender que não era mais dele, eles tinham um pouco de sentimento de posse. Um fato chamou minha atenção, eu estava andando no meio deles e um índio se abaixou e achou um pedaço de uma vela de bateria no chão, aquele quadradinho de chumbo, ele pegou, olhou, e veio me oferecer e eu disse – não pode ficar para você. Eles tinham realmente um sentimento de posse, de propriedade, isto eu notei, mas não teve mais nada. Eu não sei, mas posso afirmar que quando eles vinham com crianças, com mulheres, não se via nenhum traço de hostilidade por parte deles. Em minha opinião, apesar de todo mundo dizer que eles eram hostis, traiçoeiros, acho que em respeito às suas mulheres eles não atacaram nessa época. Após esses dois massacres eu não vi nada que caracterizasse alguma atitude hostil por parte deles e posso comentar o que observei a esse respeito dessa hostilidade dos índios – não se isso é correto ou não. O do Padre Calleri, eu estava na preparatória quando vi pelos jornais [...]

 

Pane na Gravação, Interrompida às 15h24min34seg de 30.08.2022 (Horário de Brasília) No dia 09 de setembro de 2022, às 12h04 (Horário de Brasília), em audiência virtual, damos sequência à audiência de 30 de agosto de 2022, interrompida por pane no sistema:

 

Resposta: [...] os outros massacres eu tomei conhecimento quando estava ali em missão de segurança na região do Abonari, do Alalaú e outro rio que me falha a memória agora, mas quando estava na região em conversas e contatos com os funcionários da FUNAI e alguns trabalhadores que eram contratados pela empresa civil, que executava o desmatamento da floresta, eles disseram que o Padre Calleri tratava muito mal os índios e os índios não gostavam dele até que culminou com o massacre da sua equipe. O massacre posterior, que foi conhecido como o do Gilberto, eles disseram que o Gilberto estava no Posto e não estava na maloca, na aldeia deles houve uma festa e nessa festa, isso foi o que eles disseram, uma festa com aquela bebida que o índio tinha, uma bebida destilada que era feita com abacaxi e mandioca que eles destilavam e bebiam e disseram que alguns funcionários FUNAI assediaram as índias e com isso os índios pegaram e massacraram eles. Como o Gilberto era muito adorado pelos índios, eles ficaram com medo que o Gilberto fosse ficar bravo com eles e se deslocaram e fizeram aquele massacre também do Gilberto. Mas sempre os massacres tiveram algum motivo não teve aquela situação do índio chegar e vamos, vamos matar o pessoal porque quando eles chegaram nas duas vezes em que eu lá estive, em novembro de 75, e se eu não me engano, agosto de 76, acho que foram estas datas mesmo, eles chegaram com as mulheres e crianças e chegavam de peito aberto e viam que ali naquele local só tinham homens, um pessoal adulto, não tinham crianças não tinha nada, eles talvez conhecessem os costumes, porque quando a gente falava alguma coisa para eles, eles repetiam sem sotaque sem nada da mesma forma por exemplo se eu falava assim “eu vou ali” eles falavam “eu vou ali”, aí você dizia o nome de alguma outra coisa “isso aqui é abacaxi” eles falavam “isso aqui é abacaxi” sem sotaque sem nada do mesmo jeito, então eles já deviam ter tido algum contato há bastante tempo com o nosso pessoal ou era um dom deles repetirem isso daí, mas eles chegavam com a família toda. Por que que eles chegavam ali?  Porque sabiam que a estrada estava sendo construída e eles faziam o deslocamento de um lado para o outro, de um local de permanência para outro local e com isso eles poderiam ao estar passando por ali ter aquela atitude amigável. Isso é uma avaliação minha, poderiam ter aquela atitude amigável porque estavam com as mulheres, com filhos, com todo pessoal e fazendo uma mudança de um local para o outro. Isso já fora constatado pela FUNAI, eles já tinham falado disso, que eles sempre faziam isso indo de um local para o outro até que novamente aquele local que eles tinham abandonado estivesse em condições, sem pragas, com a roça em condições de ser colhida, a caça já tinha voltado, já não era mais escassa, essas foram as informações que eu tive. E pelo que lá foi demonstrado, as atitudes deles eram amigáveis, não tinham atitudes hostis e o pessoal da FUNAI e mesmo o pessoal civil sempre diziam que os dois massacres e o mais recente aconteceram em decorrência das atitudes do Padre Calleri que ele era muito rude e até batia nos índios e do Gilberto com a equipe dele porque houve esse incidente na maloca e eles não gostaram e depois foram atrás do Gilberto porque ele fazia parte da equipe e que o Gilberto também ia ficar bravo com eles, foi uma história contada, mas em síntese foi isso que aconteceu do contato que eu tive e tomei conhecimento a respeito desses dois massacres. É claro que eles sabiam onde é que a gente estava, tanto que quando eles apareciam para serem vistos era no Posto da FUNAI, normalmente no Posto da FUNAI, e quando tinha a trilha, se por acaso eles estavam próximos da gente nunca houve um ataque, pelo menos enquanto eu estive lá. Porque da primeira vez eu fiquei 30 dias na trilha e o pessoal estava fazendo a limpeza do leito da estrada, e nestes 30 dias a gente ficava no eixo da trilha e não se afastava de lá, nós não nunca tivemos informações de que eles estavam por lá nem de pegadas também, não dava para ver porque o pessoal entrava com um monte de gente na trilha, os trabalhadores, não posso precisar a quantidade, mas se tivesse vestígio não tinha o “expert” que fosse à frente para poder ver e quando saia do eixo da trilha em torno 50 m, no máximo devido a visibilidade na selva que é difícil, nunca cheguei a ver pegadas deles, mas que eles poderiam estar nos observando poderiam e quando eles permitiam ser vistos era no posto da FUNAI, um local aberto. Portanto não houve indícios de ataque por parte deles, nem nada, durante esse período que eu fiquei lá, na primeira vez. Na segunda vez foi uma missão inopinada que surgiu e lá também eles chegaram depois de uns dias que a gente estava no local, chegaram amistosamente e pediram o transporte para serem levados rio acima, acho que foi no rio Abonari. Conduzimo-los nas voadeiras e fizemos algumas vagas de transporte porque não cabiam todos, eu fui inclusive à frente junto com a voadeira e desembarquei no local deles, fiquei lá eu mais um Sargento e, acho que, um ou dois Soldados e o restante estava fazendo o transporte com piloto da embarcação que eu não posso agora precisar se era da FUNAI ou era do 6° BEC e mais um militar nosso, do meu Pelotão que ficava junto na embarcação também como um possível segurança da embarcação, mas depois do transporte nós retornamos e ficamos mais um tempo na região e não tivemos mais notícias. Até que em torno de 45 dias depois da nossa chegada tentei me comunicar dizendo que não tinha mais problema e que estávamos sem suprimento, sem nada, e se podíamos regressar, depois de um certo tempo o CMA determinou que esse Pelotão, no caso o meu Pelotão, retornasse para Manaus e isso foi feito. Mas na segunda vez como não era um rodízio normal ficamos em torno de 45 dias lá e não houve também nenhum deslocamento para fora do eixo da estrada que já estava aberta, já estava até compactada, transitável, não fizemos nenhum deslocamento fora do eixo, a gente fazia apenas um patrulhamento, dentro do possível, não é, quando tinha disponibilidade de viatura e combustível, fazia um deslocamento na estrada embarcado sem maiores problemas e foi o que aconteceu nesta segunda vez. Então não teve e nem vi no caso, maiores problemas e foi o que aconteceu nesta segunda vez. Nenhuma atividade hostil por parte dos índios. Foi isso que aconteceu dessas duas vezes que eu gostaria de acrescentar porque não senti neles uma atitude hostil, não sei se porque estavam com a família e tudo, mas as duas vezes que estive lá não houve nada assim que indicasse que eles tinham algum receio para conosco e que nós tivéssemos feito alguma coisa contra eles porque eles não iriam chegar de peito aberto se tivessem algum receio vendo que estávamos com nosso armamento individual, que apesar de ser um armamento individual era um fuzil, não é? Então eles chegavam de peito aberto com flechas, apesar de que dentro da selva eles poderiam ter um pouco de vantagem com as flechas, e no local aberto nós teríamos ampla vantagem com o nosso armamento, mesmo sendo o fuzil. Então eles chegavam de peito aberto, eles possivelmente conheciam o poder do nosso armamento e tinham um pouco de respeito porque qualquer um que chega desarmado e vê o pessoal armado de fuzil tem medo, mas eles não apresentavam nada de hostilidade não.

 

Pergunta: O Ministério Público afirma que: “diariamente, os integrantes do 1° BIS deslocavam-se à área, com artilharia pesada”. Qual era o armamento de dotação do Pelotão do 1° BIS?

 

Resposta: O armamento de dotação era o armamento orgânico de um Pelotão de Fuzileiros, inclusive o armamento coletivo do Pelotão nós não o levávamos porque era inviável o deslocamento com ele dentro da selva, no caso, e não teria nenhuma finalidade, até você pegar uma metralhadora, no caso nosso a dotação do Pelotão de Fuzileiros de Selva era uma metralhadora MAG ([1]) e a metralhadora para executar o tiro teria de ser colocada em posição, teríamos de ter um local de defesa e como a gente se deslocava diariamente, e eles afirmam que nós deslocávamos diariamente para o local, não, nós já estávamos no local com o nosso armamento, mas o armamento de dotação do Pelotão de Fuzileiros era o armamento – individual, não levamos, não conduzimos o armamento coletivo que era a MAG (metralhadora automática a gás) também de calibre 7.62, a mesma munição do fuzil, do FAL, eu no caso levava mais uma pistola e tinha uma metralhadora de mão também, e os sargentos levavam uma pistola e a metralhadora de mão e um fuzil e o soldado levava somente o fuzil automático o FAL, que era 7.62, com carregador com 20 cartuchos. Quando nos deslocávamos eu determinava que se levassem em torno de cem cartuchos em cada deslocamento que a gente fazia na trilha, no caso, e era para segurança e na segunda vez só amamento individual mais nada e levávamos munição 7.62, claro, eu levei mais munição, dessa vez, que ficava guardada no posto e também não tinha isso daí e também só falta de conhecimento, mesmo, para fazer tal afirmativa, não tinha como.

 

Pergunta: O Sr. tem mais alguma coisa a acrescentar Coronel?

 

Resposta: Não era só isso e às vezes a memória falha, mas, em síntese, foi isso daí que ocorreu e essas últimas informações foi o que eu ouvi lá no local e o que eu presenciei foi a atitude dos índios, aquele transporte que nós fizemos, eu inclusive tirei uma foto com um índio que era o chefe deles, o Comprido, me falaram que o pai do Comprido era o Maruaga que tinha falecido no combate com os Wai-Wai, por quê? Porque os Wai-Wai eram mais aculturados, tinham mais contato com os brancos, estavam sediados ao Norte e faziam incursões nas tribos Waimiri-Atroari para roubar as mulheres e o Maruaga tinha sido morto num desses embates entre eles, entre os índios Wai-Wai e os Waimiri-Atroari e assumiu, então, o Comprido que era o Capitão Comprido. E como nada mais disse e nem lhe foi perguntado, dou por encerrado o presente depoimento às 12h22 (horário de Brasília)

 

       _________________________________

Cel Eng Hiram Reis e Silva

(Assistente Técnico da União)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul (1989;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2014);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) (2015 a 2019);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);

 

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)



[1]    A metralhadora FN MAG (“Mitrailleuse d'Appui Général” – Metralhadora de Apoio Geral), calibre 7,62×51mm NATO, desenvolvida e originalmente fabricada pela empresa belga FN Herstal. (Hiram Reis)

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