Terça-feira, 23 de junho de 2026 - 10h15

O
Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública, com
pedido de liminar, para obrigar a União a construir Unidades Básicas de
Saúde Indígena (UBSI), sistemas de abastecimento de água e banheiros
comunitários em aldeias da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em
Guajará-Mirim (RO). O órgão afirma que a omissão do governo federal
viola direitos fundamentais à vida e à dignidade, deixando indígenas das
aldeias Pedreira, Cristo Rei/Marina, Laranjal e São Luiz em situação de
extrema vulnerabilidade. O MPF destaca que faltam espaços adequados
para consultas e exames ginecológicos, prejudicando os atendimentos à
saúde das mulheres indígenas.
Inspeções
realizadas pelo MPF nas aldeias revelaram um cenário de abandono
institucional e falha estrutural contínua. Na aldeia Pedreira, o local
de atendimento médico é um único cômodo improvisado, construído pela
própria comunidade, que serve simultaneamente como clínica, farmácia,
cozinha e dormitório para os profissionais de saúde. Na aldeia Laranjal,
não existe estrutura de saúde e os moradores consomem água do rio sem
tratamento, o que causa frequentes problemas gastrointestinais.
Já
na aldeia Cristo Rei/Marina, a escola é ocupada para atendimentos
médicos e odontológicos, prejudicando as aulas. Na aldeia São Luiz, o
prédio do Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) está em ruínas e
o serviço odontológico limita-se à extração de dentes por falta de
equipamentos para próteses, causando prejuízo à estética e à alimentação
dos indígenas.
O
MPF destaca que a ausência de postos de saúde estruturados atinge as
mulheres de forma desproporcional sob uma perspectiva de gênero. Devido à
falta de consultórios, os exames ginecológicos preventivos são
realizados dentro das casas das pacientes, muitas vezes em ambientes sem
higiene adequada, na presença de animais domésticos e sem qualquer
privacidade.
Segundo
a ação, essa situação gera constrangimento e inibição, levando muitas
mulheres a desistirem do cuidado preventivo. A falta de estrutura também
dificulta que relatos de eventuais violações a direitos – especialmente
violência física e psíquica, liberdade sexual e de direitos
reprodutivos – cheguem ao conhecimento das autoridades. As mulheres
indígenas também reclamaram ao MPF sobre as interrupções no fornecimento
de contraceptivos e a demora excessiva para a realização de
mamografias, que dependem da passagem esporádica de um barco da saúde.
Mudanças climáticas – O
procurador da República Leonardo Caberlon e a procuradora da República
Caroline Helpa, autores da ação, destacam que a urgência das obras de
saneamento e abastecimento é acentuada pelas mudanças climáticas. As
aldeias são distantes e acessíveis apenas por via aérea ou fluvial,
demorando até 10 horas de barco para se chegar a uma delas a partir da
área urbana de Guajará-Mirim. Durante a seca extrema de 2024, o Rio
Pacaás ficou inavegável, forçando os indígenas a arrastar embarcações
por trechos secos e bancos de areia por até sete dias. Esse isolamento
severo deixou as aldeias sem remédios e alimentos, sem água potável,
dependendo de operações aéreas emergenciais para sobrevivência.
O
MPF sustenta que a omissão estatal ultrapassa falhas administrativas
pontuais, configurando uma violação massiva e prolongada de direitos
fundamentais que compromete a dignidade e a própria organização social
das comunidades Pedreira, Cristo Rei/Marina, Laranjal e São Luiz. O
órgão pediu à Justiça Federal que a ação seja julgada sob a perspectiva
de gênero, uma vez que afeta consideravelmente as mulheres indígenas, e
também com a visão da necessária adaptação às mudanças climáticas
identificadas na região, que foi severamente atingida pela estiagem em
2024.
Os pedidos do MPF são para que a Justiça Federal obrigue a União a:
•
construir, equipar e manter, de forma adequada e contínua, um posto de
saúde indígena na aldeia Pedreira e um outro na aldeia Laranjal ou na
aldeia São Luiz (local ainda a ser definido pela comunidade indígena,
mediante consulta livre, prévia e informada);
•
provisoriamente, fazer melhorias dos espaços existentes para o
atendimento de saúde nas aldeias Pedreira, Cristo Rei/Marina, Laranjal e
São Luiz;
•
construir banheiros (sanitários, chuveiros e lavabo) de uso comunitário
e implementar sistema de abastecimento de água nas quatro aldeias;
• pagar R$ 500 mil por danos morais coletivos, a serem revertidos em projetos nas aldeias;
•
pagar indenização por danos climáticos, com medidas que garantam a não
repetição da tragédia humanitária ocorrida durante a seca extrema de
2024, assegurando o fortalecimento da capacidade de adaptação e de
resiliência das comunidades indígenas e sistemas naturais.
Ação civil pública nº 1014162-26.2026.4.01.4100
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