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Saúde

Atletas, Vacinas e Alterações cardíacas: a necessidade de embasamento científico para a Covid-19


Dr. Mateus Freitas Teixeira - Gente de Opinião
Dr. Mateus Freitas Teixeira

Seguimos em meio à pandemia, muitos novos casos de covid-19, variantes e muitas dúvidas e questionamentos todos os dias. Isso se deve a uma enxurrada de informações sem procedência e, via de consequência, sem a devida análise e reflexão científica. 

Primeiramente, antes de compartilhar e/ou opinar de forma cientifica sobre qualquer assunto, é necessário ter em mente que toda a nossa “verdade”, que pode mudar ou ser questionada, deve estar baseada em evidências, ou seja, estudos científicos. Apenas achar, sem base científica, não é sinal de boa conduta. Em segundo lugar, na leitura dessas evidências ou artigos científicos, para fins comparativos, é imprescindível compreender as amostras e técnicas metodológicas utilizadas.  

Os estudos considerados de boa qualidade obedecem a padrões rigorosos de metodologia, que incluem o tipo de pesquisa, a população estudada, sexo, comparação, análise entre grupos, etc. Sendo assim, antes de emitir qualquer opinião, é preciso estudar.  

No que se refere ao tema “vacinas, morte súbita e atletas”, os dados mostram que a Covid-19 causa miocardite em 1 a 3% dos atletas. Já a vacina causa miocardite, na maioria das vezes de forma leve, em 0,0024% das pessoas. Portanto, a vacina causa poucos casos, previne morte e evita a doença que causa uma grande quantidade de casos e sequelas. É importante também ressaltar que não houve um aumento de mortes súbitas de atletas após a vacina, nem há comprovação de relação entre a vacina e qualquer um dos casos de mortes súbitas em atletas - como esclareceu o informe da Sociedade de Medicina do Exercício e Esporte sobre eventos de morte súbita e atletas vacinados contra Covid-19, de 08 de janeiro de 2022.  

Pelo contrário! O que sabemos é que há uma queda na taxa de mortalidade geral por COVID-19 e mesmo nas pessoas infectadas, os números apontam para um desfecho de morte menor que no início da pandemia, ou seja, as pessoas estão morrendo menos em razão da COVID-19. Diante de muitas notícias que chegam no smartphone sobre atletas sofrendo morte súbita, podemos ter falsas impressões e acabar difundindo informação duvidosa. Isso impacta até na população leiga e nos próprios profissionais da saúde.  

Já com relação ao comprometimento cardíaco provocado pela Covid-19, esta hipótese já foi testada por diversos cientistas e vem sendo confirmada por meio das evidências. Augustine e colaboradores, no artigo Coronavirus Disease 2019: cardiac complications and considerations for Returning to Sports Participation e Reichardt e colaboradores, no recente artigo 3D virtual Histopathology of Cardiac Tissue from Covid-19 Patients based on Phase-Contrast X-ray Tomography, apresentam relevantes achados sobre a alteração microvascular e endoteliais que a infecção por Covid-19 causa no músculo cardíaco e vasos sistêmicos. Segundo esses estudos, a referida infecção impacta em um maior risco de miocardite e alterações em eletrocardiograma, ecocardiograma e ressonância miocárdica.  

Então, é possível afirmar, por ora, que a infecção por coronavírus é um fator de risco para morte súbita e alterações tromboembólicas, pois está bem documentado na literatura científica. Uma questão importante é a zona cinzenta de atleta assintomáticos e/ou oligossintomáticos, onde ainda não há estudos sobre alteração cardíaca, porém, diante do estudo alemão, devemos estar atentos a qualquer mudança e alteração clínica. 

Nesse sentido, não por acaso, a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e Esporte, junto a Sociedade Brasileira de Cardiologia, em seus posicionamentos tornados públicos, deixam clara a necessidade de avaliação pré-participação no retorno às atividades, principalmente nas atividades físicas mais vigorosas. Essa conduta não foi definida no sentido de criar impedimento a atividade física, que é de fundamental importância ser mantida. Sim, pois ela modula positivamente a resposta imune, prolonga a resposta contra vacina (comprovada em estudo da USP) e beneficia no combate a saúde cardiovascular. A orientação aqui é: é mais seguro fazer a avaliação clínico cardiológica para tentar prevenir desfechos fatais. 


*Dr. Mateus é médico cardiologista, com especialização em Medicina do Esporte. Ocupa, atualmente, o cargo de Diretor da Sociedade de Medicina do Exercício e do Esporte do Rio de Janeiro (SMEERJ).  O especialista, que participa também como membro do Comitê de Medicina Desportiva da Associação Médica Fluminense (AMF), trabalha há três anos como médico de esporte do Clube de Regatas Vasco da Gama. Dr. Mateus atua também como coordenador médico da clínica Fit Center, uma das mais tradicionais clínicas de reabilitação cardiometabólica do Brasil. Faz parte também da equipe do Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), como médico cardiologista da Unidade de Soluções Integradas (SER).E-mail de contato: [email protected]

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