Porto Velho (RO) sexta-feira, 12 de junho de 2026
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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

O Espetáculo Civilizacional: A Humanidade Entre o Circo, a Fé, a Bola e os Escombros da Razão


O Espetáculo Civilizacional: A Humanidade Entre o Circo, a Fé, a Bola e os Escombros da Razão - Gente de Opinião

Na coreografia da fuga coletiva. O estádio apenas revela, em cores festivas, uma fraqueza mais profunda da espécie humana: a facilidade com que multidões entregam a própria lucidez a símbolos, líderes, deuses, bandeiras, ideologias e espetáculos.

A bola, nesse contexto, é apenas mais um pêndulo diante dos olhos de uma humanidade treinada e talvez vocacionada para entrar em transe.

 

1. O teatro iluminado da ausência de razão

O que chamamos de civilização talvez seja, em grande parte, apenas o nome elegante dado ao espetáculo patético realizado no vazio deixado pela ausência da razão. Um teatro planetário bem iluminado, ruidoso, colorido e lucrativo, onde multidões se distraem com a bola, com os deuses, com as telas, com os ídolos, com as bandeiras, com as fantasias e com as promessas enquanto a realidade, silenciosa e brutal, continua soterrando milhões sob a fome, a guerra, a miséria, a violência, a ignorância e a destruição ambiental.

O problema da humanidade não é falta de informação. É falta de coragem moral para encará-la.

A humanidade moderna aperfeiçoou como poucas espécies a arte de fugir daquilo que sabe. Já não pode alegar inocência. Os números existem. As imagens existem. Os relatórios existem. As estatísticas existem. A tragédia está documentada, medida, arquivada, traduzida, publicada e, ainda assim, convenientemente ignorada.

2. A coreografia da fuga coletiva

Enquanto alguns olham para a esquerda, outros para a direita, outros para o céu e milhões para a direção em que uma bola é chutada, o planeta continua produzindo cadáveres, famintos, mutilados, explorados, abandonados e esquecidos. A coreografia é quase perfeita: a multidão suspira, grita, canta, reza, aplaude e consome. Poucos pensam. Menos ainda ousam interromper o delírio coletivo para perguntar que tipo de civilização comemora tanto enquanto fracassa no básico.

Não se trata de condenar a alegria. Trata-se de denunciar a anestesia.

O problema começa quando a distração deixa de ser pausa e se transforma em fuga moral. Quando o espetáculo serve para ocultar a ruína. Quando a fé substitui a responsabilidade. Quando o entretenimento substitui a consciência. Quando o consumo substitui a compaixão. Quando a fantasia coletiva passa a valer mais do que a realidade concreta de seres humanos e animais esmagados pela engrenagem.

3. A indústria da alienação

A indústria do entretenimento compreendeu perfeitamente a fragilidade humana: é mais lucrativo vender fuga do que promover lucidez. A religião organizada, em muitos casos, também compreendeu. A política, igualmente. A mídia, nem se fala. Todas descobriram que multidões emocionalmente conduzidas são mais previsíveis do que cidadãos racionalmente despertos.

O indivíduo que pensa incomoda. O indivíduo que torce, consome, teme, idolatra ou obedece movimenta mercados.

Nesse cenário, a civilização se revela menos racional do que pretende parecer. Ela ergue estádios, templos, palcos, cassinos, centros de consumo e impérios midiáticos, mas ainda aceita como normal que bilhões vivam sem saneamento adequado, que milhões morram de fome ou desnutrição, que guerras sejam tratadas como tabuleiros estratégicos, que animais sejam sacrificados em escala industrial e que a destruição ambiental seja contabilizada como efeito colateral do progresso.

4. A contabilidade moral do planeta

A ironia se torna ainda mais obscena quando a festa é colocada ao lado dos números. Para a Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, a previsão oficial revisada da FIFA aponta receita total próxima de US$ 8,9 bilhões no ano do evento, impulsionada principalmente por transmissão, ingressos, hospitalidade e marketing.

Nada disso seria problema se o planeta também demonstrasse a mesma eficiência, pressa e criatividade para enfrentar suas tragédias essenciais. Mas a contabilidade moral da humanidade revela outro quadro.

Nas guerras recentes, o número de mortos já alcança patamares que deveriam constranger qualquer discurso civilizatório. A guerra Rússia-Ucrânia acumula centenas de milhares de militares mortos e dezenas de milhares de civis atingidos. O conflito Israel-Gaza/Hamas produziu dezenas de milhares de mortos em Gaza, além das vítimas israelenses de 7 de outubro de 2023. O confronto Israel-Líbano/Hezbollah acrescenta milhares de vidas perdidas. Os episódios envolvendo EUA, Israel e Irã somam também mortos militares e civis, dependendo do período e da fonte considerada.

Enquanto isso, a fome e a desnutrição continuam matando em silêncio burocrático. As estimativas globais apontam algo na ordem de 8 a 9 milhões de mortes por ano associadas à fome e à desnutrição cerca de 22 mil a 25 mil pessoas por dia.

Não é uma tragédia ocasional. É uma máquina diária de desaparecimento humano.

No campo do saneamento básico, aproximadamente 42% da população mundial ainda vive sem acesso a saneamento seguro ou adequadamente gerenciado. Em termos humanos, isso representa cerca de 3,4 bilhões de pessoas expostas a condições incompatíveis com qualquer ideia minimamente séria de civilização.

Na saúde, mais de 4,5 bilhões de seres humanos ainda vivem sem acesso pleno a serviços essenciais de saúde. Enquanto nações disputam influência, mercados disputam lucros e multidões disputam narrativas, metade da humanidade segue vulnerável diante de necessidades básicas de atendimento.

A destruição ambiental, por sua vez, já não pode ser tratada como abstração. Guerras, combustíveis fósseis, agricultura predatória, poluição, desmatamento e exploração econômica irresponsável produzem danos estimados em dezenas de trilhões de dólares por ano. Algumas estimativas ambientais chegam à ordem de US$ 45 trilhões anuais em prejuízos associados à produção insustentável, impactos climáticos, destruição da natureza, poluição e custos à saúde e à economia.

Na distribuição da riqueza, a obscenidade ganha forma matemática. Os 10% mais ricos concentram cerca de 75% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre da humanidade possui aproximadamente 2%.

A razão, diante disso, não pergunta se há desigualdade. Pergunta como ainda há quem chame esse arranjo de ordem natural, mérito ou progresso.

A violência cotidiana também desmonta a fantasia civilizatória. Homicídios intencionais no mundo giram em torno de 450 mil a 500 mil mortes por ano, algo próximo de 52 mortes por hora. Mulheres e meninas continuam sendo mortas por parceiros, familiares ou agressores próximos em números moralmente insuportáveis. Em muitos casos, a omissão, a resposta tardia ou a fragilidade institucional apenas completam o círculo da negligência.

E há ainda os animais os seres sem discurso, sem advogado, sem bandeira, sem religião, sem nacionalidade e quase sempre sem defesa. Aproximadamente 88 bilhões de animais terrestres são abatidos por ano para alimentação. Quando os peixes entram na contabilidade, a escala deixa os bilhões e alcança os trilhões. Populações monitoradas de vertebrados selvagens caíram drasticamente desde 1970, enquanto cerca de 1 milhão de espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção.

Essa é a contabilidade moral do planeta.

De um lado, cifras bilionárias para espetáculos capazes de mobilizar paixões, consumo, publicidade, turismo e emoção coletiva. De outro, fome, guerra, abandono sanitário, colapso ambiental, concentração indecente de riqueza, violência diária e sacrifício industrializado da vida animal.

A matemática, quando exposta sem maquiagem, torna-se uma forma de julgamento moral.

5. A espécie que foge do espelho

Eis a ironia: a espécie que se proclama racional precisa de distrações permanentes para não enlouquecer diante do espelho. Talvez por isso prefira o ruído. O silêncio obrigaria a pensar. E pensar, para uma humanidade treinada na fuga, tornou-se quase um ato de insubordinação.

A humanidade aprendeu a cruzar oceanos, perfurar montanhas, decifrar genes, produzir inteligência artificial, transmitir imagens em tempo real e sonhar com a colonização de outros planetas. Mas ainda não aprendeu a impedir que crianças morram de fome, que populações inteiras vivam na sujeira, que inocentes sejam esmagados por guerras, que mulheres sejam assassinadas dentro de suas próprias casas, que animais sejam tratados como mercadoria descartável e que a natureza seja saqueada como se não houvesse amanhã.

Superior em técnica, talvez. Em maturidade moral, certamente não.

6. Marte não absolverá a barbárie terrestre

algo de profundamente ridículo e tragicamente revelador em uma espécie que pretende levar sua presença a Marte enquanto ainda não resolveu a barbárie moral que carrega na Terra. Como se mudar de planeta fosse suficiente para purificar a mente que devastou este.

O ser humano pode transportar máquinas, satélites, bandeiras e discursos grandiosos para outros mundos; mas, se levar consigo a mesma ganância, a mesma vaidade, a mesma ignorância e a mesma mediocridade tribal, apenas exportará o circo.

A questão fundamental não é tecnológica. É ética. Não é espacial. É mental. Não é a falta de céu. É a falta de razão.

7. As liturgias da fuga: fé, política e entretenimento

A fé, quando convertida em delírio coletivo, oferece uma das fugas mais antigas. Promete compensações invisíveis para injustiças visíveis. Ensina muitos a tolerar na Terra aquilo que esperam ser corrigido em outro plano. O resultado é confortável para os exploradores da miséria: quanto mais o sofrimento é espiritualizado, menos ele é enfrentado. Quanto mais se promete uma salvação futura, menos se exige justiça presente.

A política também vende suas liturgias. A diferença é que troca santos por líderes, dogmas por slogans e templos por palanques. O mecanismo psicológico é semelhante: simplificar o mundo, fabricar inimigos, explorar ressentimentos e dispensar o cidadão do trabalho cansativo de pensar com autonomia.

Onde a razão exigiria análise, a propaganda oferece pertencimento. Onde a realidade exigiria responsabilidade, a ideologia oferece desculpa.

O entretenimento fecha o triângulo da anestesia. Ele não precisa convencer ninguém de uma verdade. Basta impedir que a verdade incomode por tempo suficiente. Uma bola rolando, uma tela acesa, uma celebridade em exposição, uma polêmica inútil, uma fantasia coletiva, uma comoção fabricada e pronto: a atenção humana, esse recurso precioso, é sequestrada de novo.

8. A realidade não grita. Ela cobra.

Enquanto isso, a realidade permanece. Não grita como a torcida. Não canta como o culto. Não seduz como o espetáculo. Apenas cobra.

Cobra no corpo faminto.
Cobra no rio contaminado.
Cobra no animal abatido.
Cobra na criança sem hospital.
Cobra na mulher desprotegida.
Cobra no trabalhador explorado.
Cobra no refugiado sem pátria.
Cobra na floresta devastada.
Cobra no silêncio cúmplice dos que preferem não saber.

A barbárie já não precisa se esconder. Ela aprendeu a coexistir com a festa.

9. O julgamento da razão

Sob a ótica da razão, isso é indefensável.

Nenhuma civilização pode se declarar moralmente avançada enquanto trata a fome como paisagem, a guerra como estratégia, a desigualdade como mérito, a destruição ambiental como custo operacional, a violência como rotina e a crueldade contra animais como detalhe da cadeia produtiva.

O espetáculo civilizacional continuará, naturalmente. As multidões continuarão marchando atrás de símbolos, gritando por ídolos, consumindo distrações, rezando por soluções que não virão dos céus e aplaudindo eventos que fazem a realidade parecer menos insuportável por algumas horas. O circo sempre encontra público, especialmente quando pensar exige mais coragem do que torcer, consumir ou acreditar.

Mas a razão, ainda que minoritária, observa. E ao observar, acusa.

Acusa uma humanidade que sabe e finge não saber.
Acusa uma civilização que mede tudo, exceto a própria vergonha.
Acusa uma espécie que se ajoelha diante de fantasias, mas se recusa a curvar-se diante dos fatos.
Acusa o espetáculo por sua função mais perversa: transformar a tragédia em ruído de fundo.

10. A pergunta final

No fim, talvez a pergunta mais dura não seja por que o mundo sofre tanto. A pergunta mais dura é por que tantos conseguem celebrar tão confortavelmente enquanto sabem disso.

A resposta talvez seja a mais demolidora de todas: porque a civilização aprendeu a produzir distrações em escala muito maior do que aprendeu a produzir consciência.

 

 

 

The Civilizational Spectacle: Humanity Between the Circus, Faith, the Ball, and the Debris of Reason

 

 

By Samuel Saraiva

 

The Choreography of Collective Escape

The stadium merely reveals, in festive colors, a deeper weakness of the human species: the ease with which crowds surrender their own lucidity to symbols, leaders, gods, flags, ideologies, and spectacles.

In this context, the ball is merely another pendulum before the eyes of a humanity trained — and perhaps even predisposed — to enter into trance.

 

1. The Illuminated Theater of the Absence of Reason

What we call civilization is perhaps, to a large extent, merely an elegant name given to the pathetic spectacle performed within the void left by the absence of reason. It is a well-lit, noisy, colorful, and lucrative planetary theater where crowds distract themselves with the ball, with gods, screens, idols, flags, costumes, and promises—while reality, silent and brutal, continues to bury millions under hunger, war, misery, violence, ignorance, and environmental destruction.

The problem with humanity is not a lack of information. It is a lack of moral courage to face it. Modern humanity has perfected, like few other species, the art of fleeing from what it knows. It can no longer plead innocence. The numbers exist. The images exist. The reports exist. The statistics exist. The tragedy is documented, measured, archived, translated, published, and yet, conveniently ignored.

2. The Choreography of Collective Flight

While some look to the left, others to the right, others to the sky, and millions toward the direction where a ball is kicked, the planet continues to produce corpses, the hungry, the mutilated, the exploited, the abandoned, and the forgotten. The choreography is nearly perfect: the crowd sighs, shouts, chants, prays, applauds, and consumes. Few think. Fewer still dare to interrupt the collective delusion to ask what kind of civilization celebrates so much while failing at the basics.

This is not about condemning joy. It is about denouncing anesthesia. The problem begins when distraction ceases to be a pause and transforms into a moral flight. When the spectacle serves to conceal the ruin. When faith replaces responsibility. When entertainment replaces awareness. When consumption replaces compassion. When collective fantasy becomes worth more than the concrete reality of human beings and animals crushed by the gears.

3. The Alienation Industry

The entertainment industry understood human fragility perfectly: it is more profitable to sell escape than to promote lucidity. Organized religion, in many cases, understood this too. Politics, equally so. The media, goes without saying. They all discovered that emotionally driven crowds are more predictable than rationally awakened citizens. The individual who thinks is a nuisance. The individual who roots, consumes, fears, idolizes, or obeys moves markets.

In this scenario, civilization reveals itself to be less rational than it pretends to be. It builds stadiums, temples, stages, casinos, consumer hubs, and media empires, yet it still accepts as normal that billions live without adequate sanitation, that millions die of hunger or malnutrition, that wars are treated as strategic chessboards, that animals are sacrificed on an industrial scale, and that environmental destruction is accounted for as a side effect of progress.

4. The Moral Accounting of the Planet

The irony becomes even more obscene when the celebration is placed side-by-side with the numbers. For the 2026 World Cup, hosted by the United States, Canada, and Mexico, official revised FIFA forecasts point to a total revenue close to $8.9 billion in the year of the event, driven mainly by broadcasting, ticketing, hospitality, and marketing. None of this would be a problem if the planet also demonstrated the same efficiency, urgency, and creativity in confronting its essential tragedies. But the moral accounting of humanity reveals a different picture.

In recent wars, the death toll has already reached levels that should embarrass any civilizational discourse. The Russia-Ukraine war accumulates hundreds of thousands of military deaths and tens of thousands of civilian casualties. The Israel-Gaza/Hamas conflict has produced tens of thousands of deaths in Gaza, in addition to the Israeli victims of October 7, 2023. The Israel-Lebanon/Hezbollah clash adds thousands of lost lives. The episodes involving the US, Israel, and Iran also add military and civilian deaths, depending on the period and source considered.

Meanwhile, hunger and malnutrition continue to kill in bureaucratic silence. Global estimates point to something on the order of 8 to 9 million deaths per year associated with hunger and malnutrition—about 22,000 to 25,000 people per day. This is not an occasional tragedy. It is a daily machine of human disappearance.

In the field of basic sanitation, approximately 42% of the world's population still lives without access to safe or adequately managed sanitation. In human terms, this represents about 3.4 billion people exposed to conditions incompatible with any minimally serious idea of civilization.

In healthcare, more than 4.5 billion human beings still live without full access to essential health services. While nations dispute influence, markets dispute profits, and crowds dispute narratives, half of humanity remains vulnerable regarding basic care needs.

Environmental destruction, for its part, can no longer be treated as an abstraction. Wars, fossil fuels, predatory agriculture, pollution, deforestation, and irresponsible economic exploitation produce damages estimated at tens of trillions of dollars per year. Some environmental estimates reach the order of $45 trillion annually in losses associated with unsustainable production, climate impacts, the destruction of nature, pollution, and costs to health and the economy.

In the distribution of wealth, obscenity gains mathematical form. The richest 10% concentrate about 75% of global wealth, while the poorest half of humanity owns approximately 2%. Reason, faced with this, does not ask if there is inequality. It asks how there are still those who call this arrangement a natural order, merit, or progress.

Daily violence also dismantles the civilizational fantasy. Intentional homicides worldwide hover around 450,000 to 500,000 deaths per year, close to 52 deaths per hour. Women and girls continue to be killed by partners, family members, or close attackers in morally unbearable numbers. In many cases, omission, delayed response, or institutional fragility merely complete the circle of negligence.

And then there are the animals—beings without discourse, without lawyers, without flags, without religion, without nationality, and almost always without defense. Approximately 88 billion terrestrial animals are slaughtered each year for food. When fish enter the ledger, the scale leaves billions behind and reaches trillions. Monitored populations of wild vertebrates have dropped drastically since 1970, while about 1 million animal and plant species are threatened with extinction.

This is the moral accounting of the planet. On one side, billion-dollar figures for spectacles capable of mobilizing passions, consumption, advertising, tourism, and collective emotion. On the other, hunger, war, sanitation abandonment, environmental collapse, an indecent concentration of wealth, daily violence, and the industrialized sacrifice of animal life. Mathematics, when exposed without makeup, becomes a form of moral judgment.

5. The Species That Flees From the Mirror

Behold the irony: the species that proclaims itself rational needs permanent distractions so as not to go mad in front of the mirror. Perhaps that is why it prefers noise. Silence would force it to think. And thinking, for a humanity trained in flight, has become almost an act of insubordination.

Humanity has learned to cross oceans, drill through mountains, decipher genes, produce artificial intelligence, transmit images in real time, and dream of colonizing other planets. But it has not yet learned how to prevent children from dying of hunger, entire populations from living in filth, innocents from being crushed by wars, women from being murdered inside their own homes, animals from being treated as disposable commodities, and nature from being plundered as if there were no tomorrow. Technical superiority, perhaps. In moral maturity, certainly not.

6. Mars Will Not Absolve Earthly Barbarism

There is something deeply ridiculous—and tragically revealing—about a species that intends to take its presence to Mars while it has not yet resolved the moral barbarism it carries on Earth. As if changing planets were enough to purify the mind that devastated this one. Human beings can transport machines, satellites, flags, and grandiose speeches to other worlds ; but if they carry within themselves the same greed, the same vanity, the same ignorance, and the same tribal mediocrity, they will merely export the circus.

The fundamental question is not technological. It is ethical. It is not spatial. It is mental. It is not a lack of sky. It is a lack of reason.

7. The Liturgies of Flight: Faith, Politics, and Entertainment

Faith, when converted into collective delusion, offers one of the oldest escapes. It promises invisible compensations for visible injustices. It teaches many to tolerate on Earth that which they expect to be corrected on another plane. The result is comfortable for the exploiters of misery: the more suffering is spiritualized, the less it is confronted. The more a future salvation is promised, the less present justice is demanded.

Politics also sells its liturgies. The difference is that it trades saints for leaders, dogmas for slogans, and temples for podiums. The psychological mechanism is similar: simplifying the world, manufacturing enemies, exploiting resentments, and exempting the citizen from the tiresome work of thinking autonomously. Where reason would demand analysis, propaganda offers belonging. Where reality would demand responsibility, ideology offers an excuse.

Entertainment closes the triangle of anesthesia. It does not need to convince anyone of a truth. It merely suffices to prevent the truth from bothering anyone for long enough. A rolling ball, a glowing screen, a celebrity on display, a useless controversy, a collective fantasy, a manufactured commotion—and presto: human attention, that precious resource, is hijacked once again.

8. Reality Does Not Shout.

It Collects.

Meanwhile, reality remains. It does not shout like the fans. It does not sing like the service. It does not seduce like the spectacle. It merely collects.

It collects in the starving body. It collects in the contaminated river. It collects in the slaughtered animal. It collects in the child without a hospital. It collects in the unprotected woman. It collects in the exploited worker. It collects in the stateless refugee. It collects in the devastated forest. It collects in the complicit silence of those who prefer not to know. Barbarism no longer needs to hide. It has learned to coexist with the celebration.

9. The Judgment of Reason

Under the lens of reason, this is indefensible. No civilization can declare itself morally advanced while it treats hunger as landscape, war as strategy, inequality as merit, environmental destruction as an operational cost, violence as routine, and cruelty against animals as a detail of the production chain.

The civilizational spectacle will continue, naturally. Crowds will continue marching behind symbols, shouting for idols, consuming distractions, praying for solutions that will not come from the heavens, and applauding events that make reality seem less unbearable for a few hours. The circus always finds an audience, especially when thinking requires more courage than rooting, consuming, or believing.

But reason, though in the minority, observes. And in observing, it accuses. It accuses a humanity that knows and pretends not to know. It accuses a civilization that measures everything except its own shame. It accuses a species that kneels before fantasies but refuses to bow before facts. It accuses the spectacle of its most perverse function: turning tragedy into background noise.

10. The Final Question

In the end, perhaps the hardest question is not why the world suffers so much. The hardest question is why so many manage to celebrate so comfortably while knowing it.

The answer is perhaps the most devastating of all: because civilization has learned to produce distractions on a much larger scale than it has learned to produce consciousness.

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Español

 

El Espectáculo Civilizatorio: La Humanidad Entre el Circo, la Fe, el Balón y los Escombros de la Razón

 

By Samuel Saraiva

 

 

La coreografía de la fuga colectiva

El estadio apenas revela, en colores festivos, una debilidad más profunda de la especie humana: la facilidad con que las multitudes entregan su propia lucidez a símbolos, líderes, dioses, banderas, ideologías y espectáculos.

En ese contexto, la pelota es apenas otro péndulo ante los ojos de una humanidad entrenada y quizá incluso predispuesta a entrar en trance.

 

1. El teatro iluminado de la ausencia de razón

Lo que llamamos civilización tal vez sea, en gran parte, solo el nombre elegante dado al espectáculo patético realizado en el vacío dejado por la ausencia de la razón. Un teatro planetario bien iluminado, ruidoso, colorido y lucrativo, donde las multitudes se distraen con el balón, con los dioses, con las pantallas, con los ídolos, con las banderas, con las fantasías y con las promesas —mientras la realidad, silenciosa y brutal, continúa sepultando a millones bajo el hambre, la guerra, la miseria, la violencia, la ignorancia y la destrucción ambiental.

El problema de la humanidad no es la falta de información. Es la falta de coraje moral para enfrentarla. La humanidad moderna ha perfeccionado como pocas especies el arte de huir de aquello que sabe. Ya no puede alegar inocencia. Los números existen. Las imágenes existen. Los informes existen. Las estadísticas existen. La tragedia está documentada, medida, archivada, traducida, publicada y, aun así, convenientemente ignorada.

2. La coreografía de la fuga colectiva

Mientras algunos miran hacia la izquierda, otros hacia la derecha, otros hacia el cielo y millones hacia la dirección en la que se patea un balón, el planeta continúa produciendo cadáveres, hambrientos, mutilados, explotados, abandonados y olvidados. La coreografía es casi perfecta: la multitud suspira, grita, canta, reza, aplaude y consume. Pocos piensan. Menos aún se atreven a interrumpir el delirio colectivo para preguntar qué tipo de civilización celebra tanto mientras fracasa en lo básico.

No se trata de condenar la alegría. Se trata de denunciar la anestesia. El problema comienza cuando la distracción deja de ser una pausa y se transforma en fuga moral. Cuando el espectáculo sirve para ocultar la ruina. Cuando la fe sustituye a la responsabilidad. Cuando el entretenimiento sustituye a la conciencia. Cuando el consumo sustituye a la compasión. Cuando la fantasía colectiva pasa a valer más que la realidad concreta de seres humanos y animales aplastados por el engranaje.

3. El sector de la alienación

La industria del entretenimiento comprendió perfectamente la fragilidad humana: es más lucrativo vender evasión que promover lucidez. La religión organizada, en muchos casos, también lo comprendió. La política, igualmente. La prensa, ni se diga. Todas descubrieron que las multitudes emocionalmente dirigidas son más previsibles que los ciudadanos racionalmente despiertos. El individuo que piensa incomoda. El individuo que apoya a un equipo, consume, teme, idolatra u obedece mueve mercados.

En este escenario, la civilización se revela menos racional de lo que pretende parecer. Levanta estadios, templos, escenarios, casinos, centros de consumo e imperios mediáticos, pero aún acepta como normal que miles de millones vivan sin saneamiento adecuado, que millones mueran de hambre o desnutrición, que las guerras sean tratadas como tableros estratégicos, que los animales sean sacrificados a escala industrial y que la destrucción ambiental sea contabilizada como un efecto colateral del progreso.

4. La contabilidad moral del planeta

La ironía se vuelve aún más obscena cuando la fiesta se coloca al lado de los números. Para la Copa del Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, Canadá y México, la previsión oficial revisada de la FIFA apunta a ingresos totales cercanos a los 8,900 millones de dólares en el año del evento, impulsados principalmente por transmisiones, entradas, hospitalidad y marketing. Nada de esto sería un problema si el planeta también demostrara la misma eficiencia, prisa y creatividad para enfrentar sus tragedias esenciales. Pero la contabilidad moral de la humanidad revela otro panorama.

En las guerras recientes, el número de muertos ya alcanza niveles que deberían avergonzar cualquier discurso civilizatorio. La guerra Rusia-Ucrania acumula cientos de miles de militares muertos y decenas de miles de civiles afectados. El conflicto Israel-Gaza/Hamas ha producido decenas de miles de muertos en Gaza, además de las víctimas israelíes del 7 de octubre de 2023. El enfrentamiento Israel-Líbano/Hezbolá añade miles de vidas perdidas. Los episodios que involucran a EE. UU., Israel e Irán suman también muertos militares y civiles, dependiendo del período y de la fuente considerada.

Mientras tanto, el hambre y la desnutrición continúan matando en un silencio burocrático. Las estimaciones globales apuntan a algo del orden de 8 a 9 millones de muertes por año asociadas al hambre y a la desnutrición —cerca de 22,000 a 25,000 personas por día. No es una tragedia ocasional. Es una máquina diaria de desaparición humana.

En el campo del saneamento básico, aproximadamente el 42% de la población mundial aún vive sin acceso a un saneamiento seguro o adecuadamente gestionado. En términos humanos, esto representa cerca de 3,400 millones de personas expuestas a condiciones incompatibles con cualquier idea mínimamente seria de civilización.

En la salud, más de 4,500 millones de seres humanos aún viven sin acceso pleno a servicios esenciales de salud. Mientras las naciones se disputan influencia, los mercados se disputan ganancias y las multitudes se disputan narrativas, la mitad de la humanidad sigue vulnerable ante las necesidades básicas de atención.

La destrucción ambiental, por su parte, ya no puede ser tratada como una abstracción. Guerras, combustibles fósiles, agricultura depredadora, contaminación, deforestación y explotación económica irresponsable producen daños estimados en decenas de billones de dólares por año. Algunas estimaciones ambientales llegan al orden de 45 billones de dólares anuales en pérdidas asociadas a la producción insostenible, impactos climáticos, destrucción de la naturaleza, contaminación y costos para la salud y la economía.

En la distribución de la riqueza, la obscenidad gana forma matemática. El 10% más rico concentra cerca del 75% de la riqueza global, mientras que la mitad más pobre de la humanidad posee aproximadamente el 2%. La razón, ante esto, no pregunta si hay desigualdad. Pregunta cómo hay todavía quien llama a este arreglo orden natural, mérito o progreso.

La violencia cotidiana también desmonta la fantasía civilizatoria. Los homicidios intencionales en el mundo giran en torno a 450,000 o 500,000 muertes por año, algo cercano a 52 muertes por hora. Mujeres y niñas continúan siendo asesinadas por parejas, familiares o agresores cercanos en números moralmente insoportables. En muchos casos, la omisión, la respuesta tardía o la fragilidad institucional solo completan el círculo de la negligencia.

Y están también los animales —los seres sin discurso, sin abogado, sin bandera, sin religión, sin nacionalidad y casi siempre sin defensa. Aproximadamente 88,000 millones de animales terrestres son sacrificados al año para alimentación. Cuando los peces entran en la contabilidad, la escala deja los miles de millones y alcanza los billones. Las poblaciones monitoreadas de vertebrados silvestres cayeron drásticamente desde 1970, mientras que cerca de 1 millón de especies animales y vegetales están amenazadas de extinción.

Esta es la contabilidad moral del planeta. Por un lado, cifras multimillonarias para espectáculos capaces de movilizar pasiones, consumo, publicidad, turismo y emoción colectiva. Por el otro, hambre, guerra, abandono sanitario, colapso ambiental, concentración indecente de la riqueza, violencia diaria y sacrificio industrializado de la vida animal. La matemática, cuando se expone sin maquillaje, se convierte en una forma de juicio moral.

5. La especie que huye del espejo

He aquí la ironía: la especie que se proclama racional necesita distracciones permanentes para no enloquecer ante el espejo. Tal vez por eso prefiera el ruido. El silencio obligaría a pensar. Y pensar, para una humanidad entrenada en la huida, se ha convertido casi en un acto de insubordinación.

La humanidad aprendió a cruzar océanos, perforar montañas, descifrar genes, producir inteligencia artificial, transmitir imágenes en tiempo real y soñar con la colonización de otros planetas. Pero aún no ha aprendido a impedir que los niños mueran de hambre, que poblaciones enteras vivan en la suciedad, que los inocentes sean aplastados por las guerras, que las mujeres sean asesinadas dentro de sus propias casas, que los animales sean tratados como mercancía desechable y que la naturaleza sea saqueada como si no hubiera un mañana. Superior en técnica, tal vez. En madurez moral, ciertamente no.

6. Marte no absolverá la barbarie terrestre

Hay algo profundamente ridículo —y trágicamente revelador— en una especie que pretende llevar su presencia a Marte mientras aún no ha resuelto la barbarie moral que carga en la Tierra. Como si cambiar de planeta fuera suficiente para purificar la mente que devastó este. El ser humano puede transportar máquinas, satélites, banderas y discursos grandiosos a otros mundos ; pero si lleva consigo la misma codicia, la misma vanidad, la misma ignorancia y la misma mediocridad tribal, solo exportará el circo.

La cuestión fundamental no es tecnológica. Es ética. No es espacial. Es mental. No es la falta de cielo. Es la falta de razón.

7. Las liturgias de la fuga: fe, política y entretenimiento

La fe, cuando se convierte en delirio colectivo, ofrece una de las huidas más antiguas. Promete compensaciones invisibles para injusticias visibles. Enseña a muchos a tolerar en la Tierra aquello que esperan que sea corregido en otro plano. El resultado es cómodo para los explotadores de la miseria: cuanto más se espiritualiza el sufrimiento, menos se le enfrenta. Cuanto más se promete una salvación futura, menos se exige justicia presente.

La política también vende sus liturgias. La diferencia es que cambia santos por líderes, dogmas por slogans y templos por tribunas. El mecanismo psicológico es semejante: simplificar el mundo, fabricar enemigos, explotar resentimientos y dispensar al ciudadano del trabajo cansado de pensar con autonomía. Donde la razón exigiría análisis, la propaganda ofrece pertenencia. Donde la realidad exigiría responsabilidad, la ideología ofrece una excusa.

El entretenimiento cierra el triángulo de la anestesia. No necesita convencer a nadie de una verdad. Basta con impedir que la verdad incomode por el tiempo suficiente. Un balón rodando, una pantalla encendida, una celebridad en exposición, una polémica inútil, una fantasía colectiva, una conmoción fabricada —y listo: la atención humana, ese recurso precioso, es secuestrada de nuevo.

8. La realidad no grita.

Cobra.

 

Mientras tanto, la realidad permanece. No grita como la afición. No canta como el culto. No seduce como el espectáculo. Solo cobra.

Cobra en el cuerpo hambriento. Cobra en el río contaminado. Cobra en el animal sacrificado. Cobra en el niño sin hospital. Cobra en la mujer desprotegida. Cobra en el trabajador explotado. Cobra en el refugiado sin patria. Cobra en el bosque devastado. Cobra en el silencio cómplice de los que prefieren no saber. La barbarie ya no necesita esconderse. Aprendió a coexistir con la fiesta.

9. El juicio de la razón

Bajo la óptica de la razón, esto es indefendible. Ninguna civilización puede declararse moralmente avanzada mientras trata al hambre como paisaje, a la guerra como estrategia, a la desigualdad como mérito, a la destrucción ambiental como costo operativo, a la violencia como rutina y a la crueldad contra los animales como un detalle de la cadena productiva.

El espectáculo civilizatorio continuará, naturalmente. Las multitudes seguirán marchando detrás de símbolos, gritando por ídolos, consumiendo distracciones, rezando por soluciones que no vendrán de los cielos y aplaudiendo eventos que hacen que la realidad parezca menos insuportable por algunas horas. El circo siempre encuentra público, especialmente cuando pensar exige más coraje que apoyar a un equipo, consumir o creer.

Pero la razón, aunque minoritaria, observa. Y al observar, acusa. Acusa a una humanidad que sabe y finge no saber. Acusa a una civilización que lo mide todo, excepto su propia vergüenza. Acusa a una especie que se arrodilla ante fantasías, pero se niega a inclinarse ante los hechos. Acusa al espectáculo por su función más perversa: transformar la tragedia en ruido de fondo.

10. La pregunta final

Al final, tal vez la pregunta más dura no sea por qué el mundo sufre tanto. La pregunta más dura es por qué tantos logran celebrar tan cómodamente mientras lo saben.

La respuesta tal vez sea la más demoledora de todas: porque la civilización aprendió a producir distracciones a una escala mucho mayor de lo que aprendió a producir conciencia.

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