Terça-feira, 30 de junho de 2026 - 12h45

Professora
de língua portuguesa por 30 anos na rede pública de ensino, esposa, mãe – ainda
cuidava da casa na nossa infância –, minha mãe não teve muitas aventuras
conosco, além dessas estafantes.
Me lembro de uma viagem mágica que
fizemos, nós dois. Eu tinha cinco anos, e me lembro como se fosse hoje. Minha
lembrança mais antiga de criança vem dos três anos, brincando com meu avô
Thomáz, com carrinho feito por ele com pregadores de roupa.
Fomos, minha mãe e eu, de trem para São Paulo.
Era um tempo em que havia trens, e mais, trens de passageiros. Sinto o leve
cheiro das pastilhas queimando nos trilhos, o molejo leve do vagão, ouço aquele
leve martelete constante. Era meio inebriante.
Fomos de leito, numa cabine. Dá pra
ver tudo aquilo. Ela saindo e voltando com lanches e refrigerantes. Naquela
época, apesar do grande encurtamento na perna esquerda, pela ação da
poliomielite – paralisia infantil – ainda conseguia andar sem moletas. Enquanto
ela saia da cabine, ficava olhando a paisagem pela janela. Só não andei mais, sem
as muletas, depois das “cirurgias corretivas”.
Não julgo, não culpo. Era o que a
medicina tinha a oferecer, naqueles tempos. Do mesmo modo, preciso dizer que
tive a ação da pólio porque vacinavam os bebês com alguns meses a mais do que
hoje. Meus pais sempre tiveram consciência muito acima da média, nunca foram
negacionistas, especialmente com a vacinação. Tive pólio com quatro meses de
idade porque o conhecimento não antevia alguns males como atualmente podemos
fazer.
Por isso, me enfurece por demais ver
que os casos de pólio aumentaram, apesar de ter sido praticamente erradicada.
Os casos cresceram porque há pais, no século XXI, abduzidos pela ignorância e
atavismo. São abduzidos pelo negacionismo.
Isso me lembrou que, adulto, numa
situação de união estável, fomos a São Paulo na casa de parentes e amigos. Num
belo dia, aliás, um dia belíssimo, recordo
de estar lendo um caderno de cultura da Folha de São Paulo – os jornais eram
impressos – e estava tomando uma cerveja, bem sentado numa poltrona ao sol
morno daquela manhã.
Pois bem, nesse clima de festa,
regozijo, chega um outro casal com a filhinha de colo: alguns poucos meses.
Todos fomos recepcionar. Era uma menininha linha, sorridente, ativa.
E aí começou a nublar o tempo dentro da casa.
Conversa vai, conversa vem, o patriarca da criança disse que não acreditava em
vacinas. Eu me segurei. Não lembro quem me deu de exemplo, por falta de
vacinação. O sujeito não entendeu ou apenas não se comoveu.
Os nervos já estalavam, tinha vontade de lhe
dar muletadas – coisa comum na infância. Não fiz, é claro. Mas tramamos. Em
conluio, éramos seis adultos, mais o casal abduzido, tramamos mandar o cara
comprar Coca-Cola num bar mais distante.
O indivíduo foi.
Quando ele voltou, nós já tínhamos sequestrado
a esposa e a bebezinha. Levamos a algum posto de vacinação e lá ela tomou a
Sabian. Ficou furioso, esbravejou. Alegou maledicências. Mas, já era tarde. A
menininha estava vacinada e a salvo, do pai.
Esqueci: a viagem mágica que fiz com a
minha mãe, de trem, e que nunca sairá da minha memória, foi a caminho na minha
primeira internação hospitalar. Acometido com a pólio, não poderia me esquecer
disso, jamais, e jamais deixaria a bebezinha sem proteção. Acho que fiz Direito
por esse senso.
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