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Vinício Carrilho

Viagem mágica com a minha mãe


Viagem mágica com a minha mãe - Gente de Opinião

         Professora de língua portuguesa por 30 anos na rede pública de ensino, esposa, mãe – ainda cuidava da casa na nossa infância –, minha mãe não teve muitas aventuras conosco, além dessas estafantes.

          Me lembro de uma viagem mágica que fizemos, nós dois. Eu tinha cinco anos, e me lembro como se fosse hoje. Minha lembrança mais antiga de criança vem dos três anos, brincando com meu avô Thomáz, com carrinho feito por ele com pregadores de roupa.

Fomos, minha mãe e eu, de trem para São Paulo. Era um tempo em que havia trens, e mais, trens de passageiros. Sinto o leve cheiro das pastilhas queimando nos trilhos, o molejo leve do vagão, ouço aquele leve martelete constante. Era meio inebriante.

          Fomos de leito, numa cabine. Dá pra ver tudo aquilo. Ela saindo e voltando com lanches e refrigerantes. Naquela época, apesar do grande encurtamento na perna esquerda, pela ação da poliomielite – paralisia infantil – ainda conseguia andar sem moletas. Enquanto ela saia da cabine, ficava olhando a paisagem pela janela. Só não andei mais, sem as muletas, depois das “cirurgias corretivas”.

          Não julgo, não culpo. Era o que a medicina tinha a oferecer, naqueles tempos. Do mesmo modo, preciso dizer que tive a ação da pólio porque vacinavam os bebês com alguns meses a mais do que hoje. Meus pais sempre tiveram consciência muito acima da média, nunca foram negacionistas, especialmente com a vacinação. Tive pólio com quatro meses de idade porque o conhecimento não antevia alguns males como atualmente podemos fazer.

          Por isso, me enfurece por demais ver que os casos de pólio aumentaram, apesar de ter sido praticamente erradicada. Os casos cresceram porque há pais, no século XXI, abduzidos pela ignorância e atavismo. São abduzidos pelo negacionismo.

          Isso me lembrou que, adulto, numa situação de união estável, fomos a São Paulo na casa de parentes e amigos. Num belo dia, aliás, um dia belíssimo,  recordo de estar lendo um caderno de cultura da Folha de São Paulo – os jornais eram impressos – e estava tomando uma cerveja, bem sentado numa poltrona ao sol morno daquela manhã.

        Pois bem, nesse clima de festa, regozijo, chega um outro casal com a filhinha de colo: alguns poucos meses. Todos fomos recepcionar. Era uma menininha linha, sorridente, ativa.

  E aí começou a nublar o tempo dentro da casa. Conversa vai, conversa vem, o patriarca da criança disse que não acreditava em vacinas. Eu me segurei. Não lembro quem me deu de exemplo, por falta de vacinação. O sujeito não entendeu ou apenas não se comoveu.

  Os nervos já estalavam, tinha vontade de lhe dar muletadas – coisa comum na infância. Não fiz, é claro. Mas tramamos. Em conluio, éramos seis adultos, mais o casal abduzido, tramamos mandar o cara comprar Coca-Cola num bar mais distante.

  O indivíduo foi.

  Quando ele voltou, nós já tínhamos sequestrado a esposa e a bebezinha. Levamos a algum posto de vacinação e lá ela tomou a Sabian. Ficou furioso, esbravejou. Alegou maledicências. Mas, já era tarde. A menininha estava vacinada e a salvo, do pai.

         Esqueci: a viagem mágica que fiz com a minha mãe, de trem, e que nunca sairá da minha memória, foi a caminho na minha primeira internação hospitalar. Acometido com a pólio, não poderia me esquecer disso, jamais, e jamais deixaria a bebezinha sem proteção. Acho que fiz Direito por esse senso. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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