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Política - Nacional

Remanejamento de policiais é 'pá de cal' nas UPPs



Tâmara Freire e Isabela Vieira - Repórteres da EBC

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UPP da RocinhaTânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil

Um projeto inovador e ambicioso, as unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), não conseguiram completar sua missão. Criadas em 2008, eram a principal aposta da política de segurança do governo fluminense. O objetivo inicial era ocupar favelas da zona sul, visando à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016. Depois, as autoridades justificaram as ocupações como forma de enfrentar o controle armado dessas áreas pelo tráfico de drogas ou milícias.

Especialistas em segurança e direitos humanos ouvidos pela Rádio Nacional afirmam que, às vésperas de completar 10 anos, o projeto passou ao largo de suas pretensões. Eles destacam, porém, que a redução de um terço do efetivo e mudanças administrativas são uma forma de sepultar as UPPs.

O coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e um dos principais estudiosos do tema, Ignácio Cano, disse que nunca houve um projeto claro para as unidades.

Segundo o sociólogo, as UPPs foram instaladas sem planejamento. No entanto, com a subordinação das unidades aos batalhões de cada localidade, e não mais a uma coordenadoria, fica clara a intenção de acabar com o programa nas 38 bases onde funciona, destacou o sociólogo.

Cano não vê um problema em si na realocação dos policiais, mas no conjunto das mudanças divulgadas pelo governo. “Acho, inclusive, que as UPPs foram muito rígidas quanto à falta de mobilidade dos policiais. Porém, a mudança administrativa é o que me parece mais grave na descaraterização do projeto”, explicou. “Uma das primeiras marcas das UPPS era criar uma estrutura paralela e diferente aos batalhões, de polícia diferente [comunitária].”

A coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Sílvia Ramos, concorda com Cano. Para Sílvia, a subordinação das UPPs aos batalhões “é uma pá de cal” sobre o programa. A cientista social chegou a coordenar um braço do programa, a UPP Social, que buscava levar ações sociais às comunidades com essas estruturas, e já havia alertado sobre a disseminação, entre os policiais das UPPs, “das piores táticas” dos batalhões tradicionais. Ela destacou o confronto armado, a execução de suspeitos e a adulteração de cenas de crimes.

A pesquisadora vê na saída dos policiais das UPPs uma forma de atender às cobranças da classe média por policiamento. “Os moradores de favela sentem que segurança pública é um direito que eles têm, como o resto da cidade”, disse Sílvia. “Retirar as unidades, qualquer coisa que sinalize o abandono, é o pior cenário. A intenção por trás fica parecendo: 'vamos entregar essa área [a bandidos] e salvar o asfalto, que é da classe média'.” Para a cientista social, esta seria a maior derrota do Rio de Janeiro nos últimos anos, na última década.

Sílvia é uma das coordenadoras de estudo divulgado nesta semana com moradores de 37 comunidades com bases de UPP. Apesar de a maioria dos moradores das comunidades não ter visto melhora, tampouco piora com a instalação das unidades de Polícia Pacificadora, a maioria quer que o programa seja mantido, com modificações estruturais. Uma das cobranças da população é justamente o fortalecimento do policiamento comunitário.

“Se é para mudar a relação entre polícia e comunidade, um requisito essencial, até para diminuir a violência, com a comunidade confiando na polícia, é preciso que as pessoas sintam que a polícia está lá para protegê-la. Porém, neste propósito, fracassamos [as UPPs] de forma estrondosa”, afirmou Cano, sobre a principal crítica dos moradores.

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