Segunda-feira, 12 de julho de 2010 - 17h43
Chama a atenção de todos os cidadãos, especialmente dos eleitores, o fato de muitos políticos não terem convicção ideológica e compromissos partidários; por isso, veem cada eleição segundo a ótica de sua conveniência pessoal. É visível a falta de identidade dos filiados aos diversos partidos políticos, a começar por seus dirigentes. O oportunismo eleitoral é a chave de leitura dos candidatos e de seus cabos eleitorais. Dessa maneira, o povo é sempre um objeto de manipulação no processo eleitoral.
As próximas eleições têm um peso muito grande na definição dos rumos do país porque nelas serão escolhidos os dirigentes da União, dos Estados e do Distrito Federal e os legisladores do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas. Em vista da conquista de votos da população, os governantes em exercício e os candidatos, na prática de cooptação eleitoral, fazem verdadeiros conchavos, onde estão claramente evidenciadas a formalização de coligações partidárias, impensáveis em determinados contextos, a compra da adesão, a distribuição de dinheiro, um verdadeiro drible na legislação eleitoral, a ocupação de cargos públicos e outras benesses pessoais e do círculo familiar e de amizade. Os governantes de plantão sabem utilizar, de forma aética, o poder de que dispõem para comprar adesões, usando, ao pé da letra, recursos públicos. É comum os políticos em exercício e os candidatos, vergonhosamente, mudarem de posição, segundo o sopro do vento do interesse político-partidário e das pesquisas eleitorais. É impressionante como, de norte a sul, um aliado de ontem se torna o adversário político hoje, sacrificando até, em muitos casos, a própria amizade. Fundamentalmente, a postura desses personagens públicos revela falta de dignidade. Outro elemento também revelador da inconsistência política no Brasil é a mudança de partido político; em razão de interesses, o partido de muitos anos é descartado; a escolha de outro partido, raramente, se faz por afinidade com sua concepção ideológica e sua ação programática. Embora algum tipo de enquadramento já aconteça e algumas penalizações já tenham sido aplicadas, em relação à fidelidade partidária, a legislação eleitoral ainda é muito aberta, deixando margem para os malabarismos dos saltimbancos políticos, especialmente no período que antecede a campanha eleitoral.
A democracia, sem dúvida, é a forma mais elevada de participação do povo na condução dos rumos de seu próprio país, na medida em que pode escolher os seus dirigentes, nas instâncias locais, regionais e nacionais, no caso brasileiro, no âmbito municipal, estadual e federal. O poder de participação do povo, obviamente, deve estar contemplado na legislação, começando pelos dispositivos constitucionais e particularizando-se no campo da legislação ordinária. No Brasil, o exemplo mais recente da participação da sociedade foi a subscrição do Projeto de Lei de iniciativa popular que resultou na aprovação da Lei que exige “Ficha limpa”, por parte de candidatos a cargos eletivos. Todavia, essa mesma população, que se mobilizou com uma consciência amadurecida, visando a aprovação dessa Lei, se comporta passivamente quando agentes políticos, muitas vezes, atuam de forma frontalmente contrária a seus interesses. Esse dado revela a fragilidade da participação popular que dá margem à manipulação eleitoral, por parte de homens e mulheres que ocupam cargos e funções que lhes foram conferidos pelo voto popular. Essa fragilidade exige uma reforma política, com normas mais exigentes para os partidos políticos, dirigentes e filiados, penalizando os abusos daqueles que exercem o poder, de forma demagógica, em seu favor. A população precisa assumir seu papel de protagonista da vida política para não continuar sendo massa de manobra na mão de políticos interesseiros.
Fonte: CNBB / Dom Genival Saraiva
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