Segunda-feira, 13 de outubro de 2008 - 11h51
Bruno Peron Loureiro
Em nenhum dos meus artigos anteriores havia notado tantas críticas deixadas como comentário em jornais de versão eletrônica ou portais como no artigo que escrevi sobre os feriados, que intitulei Feriado e interrupções. Não vi maneira mais adequada que estender a discussão e esclarecer alguns pontos que ficaram nebulosos, num sentido, e mal interpretados, em outro. Assim, o que tento fazer é sugerir uma nova leitura, mas sem deixar de reconhecer que o tema é polêmico e continuará havendo leitores que discordam da minha postura.
Uma leitura casual induz a crer que sou a favor do fim dos feriados e que o pregaria paulatinamente, o que seria mais que catastrófico do ponto de vista da identidade nacional e da vontade da opinião pública. O que formulei foram argumentos a favor de manter um número mínimo de feriados, que se refere à manutenção dos nacionais, entre os quais o de Independência, Natal e Ano Novo. Critiquei, portanto, a somatória dos feriados nacionais com aqueles propostos pelos estados e municípios, que poderia transformar o ano numa seqüência de interrupções.
Algumas datas comemorativas, como a Independência e a Proclamação da República, são imprescindíveis para o estreitamento dos vínculos identitários contidos numa nação, cuja dificuldade de integração é alta em se tratando das dimensões do Brasil. Sobre a autonomia decisória, quis dizer que o governo federal, ainda que faça recomendações para o número mínimo de feriados regionais, deveria continuar deixando a decisão de assumir ou não tais e quais dias como festivos para os estados e municípios, exceto quando se tratar de data comemorativa nacional.
Um leitor, que me escreveu um correio eletrônico praticamente com a mesma quantidade de palavras que meu artigo dizendo que eu deveria ser mais criterioso na escolha do tema, apontou uma leve má vontade no meu texto em relação aos feriados dedicados a grupos étnicos, minoritários e religiosos, porém negligenciou o meu diagnóstico de que o Brasil é um país diverso e plural. Nestas condições, como conciliar a demanda numerosa de vários grupos que também querem ser representados com feriado nacional? Por isso, a idéia de que precisaríamos de mais de 365 dias.
Sendo assim, não faria sentido prestigiar alguns grupos em detrimento de outros com a instituição de feriado nacional ou regional, uma vez que muitos cidadãos se perguntam no final do dia o que é mesmo que se comemorou hoje sem fazer a tão esperada reflexão sobre a importância que o dia rememora. A atenção que se deve dar a esses grupos transcende o estabelecimento de feriados, pois se trata de mobilizar eficientemente a reflexão coletiva sobre o tema e a transformação social, cuja estratégia deve ser revista.
Uma leitora de Alagoas apontou que o problema está na corrupção e nas leis que protegem os maus políticos, enquanto outro do mesmo estado duvidou que os feriados tivessem culpa pelo atraso no desenvolvimento do país. Uma leitora do Paraná afirmou que temos pouco tempo para usufruir de luz natural em vez de artificial, e para estar com a família e a natureza. O número maior de feriados, no entanto, não significa que alguém aproveitará melhor o tempo livre com atividades educativas, recomponentes e saudáveis. Ademais, no penúltimo parágrafo do meu texto ofereço propostas compensatórias, como o controle do excesso de carga horária no trabalho.
Houve também comentários em acordo com o que escrevi, inclusive ampliando os meus argumentos e oferecendo outros para sustentar a posição. O problema é que há muitos interesses envolvidos. Por exemplo, do ponto de vista empresarial, convém não ter feriados para que o rendimento de um negócio aumente, ao mesmo tempo que, do estudantil ou laboral, que se emende a semana inteira para obter tempo livre e dedicar-se a outras atividades. Nada impede que o tema continue gerando discórdia. Para dar um tempo na discussão, convém um feriado.
Fonte: Bruno Peron Loureiro é bacharel em Relações Internacionais.
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