Quarta-feira, 2 de maio de 2012 - 09h01

Dayan Saldanha*
São essas coisas que não sabemos explicar porquê, mas justamente no Dia do Ferroviário, no dia 30 de abril de 1912, assentava-se o último dormente no quilômetro 366, na localidade então chamada de quadro e também, batido um prego de ouro – diz a lenda – significando o fim de uma verdadeira epopéia, onde o homem atreveu-se a construir a maior obra ferroviária que desafiava a Floresta Amazônica. Era a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que, desde a segunda metade do Séc. XIX começou a ser planejada e somente construída na segunda década do Séc. XX.
Passados cem anos daquele dia 30, o saldo dessa magnífica obra são milhares de vidas perdidas em sua construção (uns falam em 6 mil e há quem acredite que foram mais de 10 mil). Vieram trabalhadores de toda a parte do mundo. Várias etnias, idiomas, costumes para ajudar nessa aventura fantástica. De lá para cá, foi denominada de Ferrovia do Diabo, que teve seu custo equivalente ao peso dos trilhos em ouro; cada dormente significa uma vida perdida na sua construção e por aí vai… Uma magia que encanta!
Evidentemente que podemos e devemos comemorar o fato de a EFMM completar 100 anos. É um dos maiores e mais famosos patrimônios histórico-culturais do mundo e é nosso! Está aqui em nossa cidade! É conhecida até mesmo mais no exterior que propriamente neste Brasil de muitas facetas.
Mas, também, cabe um pouco de reflexão: em pleno centenário de tão magnífica obra, não há, sequer, um metro de trilho funcionando.
Existem projetos de engenharia e estudos de viabilidade para a reativação dos trilhos de Guajará-Mirim ao Iata (27 km), para fins turísticos.
Já existe também até uma possível fonte de recursos: A UHE Jirau, para receber sua L.O. (Licença de Operação), precisa realizar diversas ações mitigadoras de impactos na área atingida (direta e indiretamente) pela obra. Para Guajará, restou consignado pelo IPHAN, que a empresa deveria revitalizar o complexo da EFMM em Guajará-Mirim (incluindo as duas locomotivas). O consórcio executor da obra, ainda não informou como nem quando os investimentos de compensação em Guajará serão realizados, apesar de insistentemente instada a fazê-lo por parte da Prefeitura de Guajará, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
Façamos um exercício: fechemos os olhos. Vamos imaginar a locomotiva, estacionada em frente ao prédio da Estação de Guajará, já com a fumacinha saindo pela chaminé. O Maquinista, com seu impecável uniforme e seu quepe, com o logotipo da EFMM, apita a máquina avisando para todos embarcar. A o trem vai partir. Lentamente, a composição começa a se deslocar com destino a praia do Acácio (primeira parada). Vai lentamente andando no perímetro urbano. De repente, uma fagulha queima a roupa de um dos passageiros. Faz parte. Lá vai a Mad Maria levando os Turistas que nos visitam. Imaginou? Pois é… eu também…
Sonho que se sonha junto é realidade, disse uma vez, Raul Seixas.
Embarque nessa!
* O autor é publicitário, empresário do Turismo e ex-Secretário de Cultura e Turismo de Guajará-Mirim.
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