Sexta-feira, 3 de julho de 2026 - 15h21

A
Encíclica Magnifica
humanitas (em português: Magnífica humanidade), primeiro
documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só
por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela
evolução do gênero humano.
O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que
para a Igreja não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto
faz uma menção direta e profunda à Encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”), de
Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores
gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os
excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro
grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade
econômica e a justiça social foi a referida encíclica e não os livros daqueles
autores do século XIX que propugnavam a
luta de classes.
As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam
como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não só com o ser
humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na
convivência com seus semelhantes.
G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e
defensor da fé e da tradição católica, dizia que nós não vemos o plano de Deus
porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha (o
avesso da tapeçaria) que lá existe. Mas Deus está vendo o desenho que fez para
cada um de nós, a beleza da tapeçaria que está à frente d'Ele.
O que a Encíclica Magnifica humanitas procura mostrar
sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a
plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente — sendo
este o aspecto mais relevante —, os dilemas trazidos pela inteligência
artificial.
O documento pondera tanto os seus benefícios quanto o
risco de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente
para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as
relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na
época da Rerum Novarum.
Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta
tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos
nocivos.
Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso
técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em
mero insumo produtivo. Se no século XIX a máquina a vapor ameaçava subjugar a
força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os
sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do
livre-arbítrio.
A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à
tecnologia; ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa
humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como
instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de
novas e mais profundas desigualdades sociais.
Desse modo, a leitura desta encíclica transcende o debate estritamente
teológico para fixar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de
preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais
fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o
documento papal surge como um guia de lucidez e de esperança.
Tenho a impressão de que é uma encíclica que todos
devemos ler, crentes ou não, católicos ou de outras convicções, pois ela
apresenta os grandes problemas da atualidade, de toda a humanidade, trazendo
sugestões muito interessantes para a convivência pacífica e harmoniosa,
inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.
Vale, pois, a pena ler esse importante documento, que
é a Encíclica Magnifica
humanitas, do Papa Leão XIV.
Ives Gandra da Silva
Martins é professor emérito das universidades
Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de
Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da
Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das
Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis
(Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova
(Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal),
presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da
Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo
(Iasp).
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