Segunda-feira, 8 de junho de 2026 - 13h09

No coração do distrito de Iata, a cerca de 27
quilômetros da civilização guajará-mirense, a história da Amazônia rondoniense
costuma ser contada através do suor dos trabalhadores da Estrada de Ferro
Madeira-Mamoré e da bravura dos soldados da borracha. O local, que ganhou
importância estratégica em 1943 com a criação da colônia para impulsionar a
agricultura familiar, hoje serve de moldura para uma obra que é o ápice da
comédia burocrática brasileira: o Hotel Escola de Ecoturismo.
O distrito, que surgiu antes mesmo da cidade de
Guajará-Mirim e foi cortado pelos trilhos da "Ferrovia do Diabo",
assiste agora ao apodrecimento de um "imenso casarão" que prometia
ser o futuro da educação ambiental, mas que se tornou apenas um hotel de luxo para
a poeira e o descaso.
A história desse elefante branco começou
oficialmente em 2002, quando o Convênio nº 046/2002 reuniu o trio fantástico da
ineficiência pública: a SUFRAMA como financiadora, a extinta Fundação Rio
Madeira (RIOMAR) como executora e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
como a espectadora que nunca recebeu as chaves. Enquanto os recursos públicos
fluíam da SUFRAMA para a RIOMAR, o prédio subia no Iata, mas as prestações de
contas desciam pelo ralo da desaprovação administrativa.
O resultado é uma obra que, embora fisicamente
concluída, juridicamente não existe para a UNIR, que se viu impedida até mesmo
de fazer a manutenção básica da estrutura enquanto os anos passavam e o mato
avançava.
A política empregada no Hotel Escola atingiu
níveis satíricos quando boatos de que o prédio teria sido "inaugurado três
vezes" sem nunca funcionar ganharam as manchetes, forçando a reitoria da
UNIR a vir a público em 2013 para desmentir as supostas festas de entrega de
uma estrutura que jamais abrigou um único turista ou estagiário.
É o triunfo da estética sobre a ética
acadêmica: o governo federal construiu um cenário de filme de ecoturismo no
meio do nada, esqueceu de acertar as contas com a fundação executora e deixou o
Ministério Público Federal em 2017 tentando entender, em meio a inquéritos
civis, por que o patrimônio público estava à deriva em uma área que ainda
precisava ser regularizada e que sofria reivindicações de terras indígenas.
Enquanto isso, a comunidade de Iata, composta
por cerca de 170 famílias que só recentemente (2016) foram presenteadas com o
luxo básico de uma estação de tratamento de água, observa o hotel fantasma como
um símbolo do "esquecimento" citado por governadores em cerimônias
oficiais.
Para um distrito histórico que sobrevive da
agricultura familiar e de visitas casuais de pescadores ao Rio Mamoré, a visão
de um centro de excelência abandonado, em seu âmago, materializa o escárnio
político, transformando o que deveria ser um centro de excelência e esperança
para a juventude do municipio em um símbolo estéril da incompetência e do
desperdício estatal.
Em 2021, o enredo ganhou mais um capítulo de
promessas quando a UNIR encaminhou a destinação do imóvel para a Secretaria de
Estado da Educação (SEDUC), sob o pretexto de transformá-lo em uma escola
profissionalizante. A justificativa é a mesma de sempre: "tratar o
patrimônio público com respeito", uma frase que soa como piada de mau
gosto para quem acompanha a estrutura apodrecer há quase duas décadas.
O Hotel Escola do Iata permanece como o retrato
fiel de uma gestão que prioriza convênios e parcerias burocráticas em
detrimento da finalidade social, provando que, na fronteira do Brasil com a
Bolívia, a realidade supera qualquer sátira política sobre o desperdício
estatal.
Nota: Fontes da pesquisa com o autor
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