Quarta-feira, 25 de junho de 2008 - 07h03
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HELDER CALDEIRA
Estudante de Direito
Fernando Henrique Cardoso em seu livro, “A Arte da Política” (Ed. Civilização Brasileira, 2006), afirmou, em suas páginas finais, que “o primeiro objetivo para restabelecer a confiança das pessoas é a diminuição da distância real e emocional entre quem manda e quem obedece”. Foi justamente essa pequena reforma, tocando nos tipping points e rompendo um secular desequilíbrio de poder existente, que fez de FHC um dos maiores estadistas (quiçá o maior) da História recente do Brasil. O sustentáculo para que esse homem conseguisse realizar não apenas uma guinada política e financeira para o País, mas um certeiro avanço sociocultural, respondia pelo nome de Ruth Vilaça Correa Leite Cardoso. Ou simplesmente Dona Ruth, como o povo brasileiro saudava sua brilhante e delicada ex-primeira-dama. Mas o destino nos foi cruel: Ruth Cardoso partiu no início de uma noite fria de inverno, neste junho de 2008.
Há muito venho insistindo que há um profundo empobrecimento intelectual e ético no Brasil. Hoje, nesses primeiros anos do século XXI, quantas são as figuras públicas capazes de nos garantir algum digno legado político, democrático, ideológico, social ou cultural? Estamos vivendo sob a égide de antepassados e poucos são os nomes construídos ao longo das últimas duas ou três décadas capazes de nos conduzir aos sentimentos de orgulho e admiração. Eis que Ruth Cardoso era um desses raros nomes aos quais sempre recorremos e reverenciamos, seja na academia, seja na vida pública. A morte de Dona Ruth abre um abismo, um vazio imensurável para a sociedade brasileira.
Quem conheceu Ruth Cardoso a descreve como uma mulher extremamente culta, bem humorada e com fundamentais conhecimentos e dedicação socioculturais. Sua delicada discrição contrastava com a dimensão de suas graduações. A Doutora em Antropologia, respeitada em todo Mundo, preferia os tons sóbrios, um olhar de observação e escolhia as palavras certas nos momentos cruciais. Como muito bem traduziu a cientista política Lúcia Hippolito, “mais do que o esteio de um grande homem, Ruth Cardoso foi uma grande mulher”. E concluiu: tal qual Dona Ruth, “no panorama das primeiras-damas autônomas, independentes, de carreira e luz próprias, só me lembro de Raisa Gorbachov e Hillary Clinton”.
A propósito, Ruth Cardoso mereceu carinhoso destaque nas biografias de Hillary e Bill Clinton (“Vivendo a História” e “Minha Vida”, respectivamente, ambas lançadas no Brasil pela Editora Globo). Não poderia ser diferente. Mesmo avessa aos holofotes, Dona Ruth representou para o nosso País, e para o Mundo, a melhor e maior face do combate às desigualdades sociais e da cátedra necessária para se realizar algo de relevante nessa área. Tudo muito distante dos atuais e famélicos programas sócio-eleitoreiros do governo petista, apesar de sua participação decisiva e fundamental na concepção dos preceitos do que deveria ser um verdadeiro plano de desenvolvimento social para o Brasil e que, desvirtuado, findou por tornar-se essa mascarada cédula eleitoral que é o Bolsa Família. Ruth queria mais, pensava mais alto e com mais dignidade: ela vislumbrava a Educação e a Cultura como caminhos inequívocos para progresso de uma sociedade.
Tempos difíceis estamos vivendo. Sob a névoa lulista de que tudo está tão bem “como nunca antes nesse País”, o Brasil vem, gradativamente, perdendo seu patrimônio intelectual para o tempo e o esquecimento, embalados por plumas carnavalescas em palanques e metáforas medíocres. A morte de um ícone de nossa Cultura, como o era Dona Ruth, é muito mais que uma brutalidade, uma truculência do Destino. Estamos diante da dor e do perigo do empobrecimento. Novamente citando Fernando Henrique Cardoso, em outro de seus livros (“Cartas a um Jovem Político”, Editora Alegro, 2006), “o tempo é, realmente, uma variável muito importante” e ouso complementar: diante de tempos tão críticos, perder uma cidadã, uma mestre da envergadura pública e acadêmica de Ruth Cardoso é ter a certeza de que menos vivas serão as pinceladas da História de hoje em diante.
Na análise social brasileira, que ela tanto defendia sem comícios, cultuava com admiração e jovialidade acadêmicas e pela qual lutava com a dignidade das grandes damas e a grandeza de quem realmente conhecia o significado da democracia, uma única expressão é capaz de ilustrar esse momento brutal de nossa História: a gigante Ruth Cardoso tombou. “Mas, se ergues da Justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.” Que a já saudosa Ruth nos inspire pela jornada. Salve Ruth Cardoso!
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