Sábado, 28 de novembro de 2015 - 07h33
Por Humberto Pinho da Silva
Minha mãe tinha uma amiga que conhecera na escola. Com ela fez o secundário; mas apesar de muito rogada, nunca aparecia na reunião anual das antigas alunas do liceu.
Certa ocasião, quando tomava chá em casa de amiga comum, revelou a razão de não ir aos almoços de curso: é que não tinha posses para adquirir roupas elegantes.
Disseram-lhe que o trajo não faz a pessoa. Respondeu de olhos baixos, ligeiramente encolhida:
- “É que nesses almoços aparecem antigas colegas que triunfaram na vida. Têm carros topo de gama, vestidos caros, e conversam sobre viagens e sucessos na carreira….”
A senhora não entrara na Faculdade – não sei se por incapacidade ou falta de recursos económicos. A maioria era licenciada. Tinham casado. Viviam desafogadamente e ocupavam lugares de destaque na sociedade.
Todas as vezes que iam aos almoços, levavam vestidos novos e algumas de estilistas conhecidos.
Ela, simples trabalhadora, assim como o marido, muitas vezes passava privações para criar os filhos.
Em solteira, trajava-se e ataviava-se com esmero; depois de casada, o dinheiro não lhe sobejava. Privava-se de muito, para que os filhos pudessem andar decentemente.
Depois, confessou: sentia-se diminuída quando as antigas colegas perguntavam: “ Você o que é?”
Uma vez, não sabe porquê, disse: “ Eu não sou nada…”Queria dizer que não tinha curso superior, mas saiu-lhe – “Não sou nada…”
Lembrei-me dessa passagem verídica ao escutar antigo, colega da “Primária” – pertencente a família conhecida na cidade onde vive, – dizer que se afastou da família; não porque o apartassem, mas porque tinha vergonha de se ver tão humilde, entre primos e irmãos, que ocupavam cargos tão elevados.
Nas nossas aldeias, quase todos são primos e primas, mas apesar da sanguinidade: há os ricos e os pobres.
Os ricos, quando falam dos pobres dizem: “São primos afastados…” Os pobres, asseveram que ainda são primos…
Famoso psicólogo, cujo nome esqueci, disse recentemente: que os bons alunos, em regra, são filhos de gente rica. Não sei se é verdade. Verdade é: o dinheiro separa amigos e familiares, e dá “ inteligência”…
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