Sábado, 6 de junho de 2026 - 11h15

No berço da democracia grega,
os sofistas compreenderam uma verdade fundamental: a sobrevivência da pólis
dependia da palavra e da discussão. Longe de oferecerem dogmas prontos ou
verdades reveladas, eles entregaram aos cidadãos uma ferramenta profundamente
libertadora: a retórica. Ao ensinar a arte de argumentar, defender e
refutar, os sofistas democratizaram o poder, permitindo que a ordem social
deixasse de ser um decreto divino para se tornar um objeto de constante debate
e reescrita. A palavra, a partir dali, abandonou o papel de espelho passivo da
realidade para se converter na própria forja onde se molda a geopolítica e a
vida pública.
Grandes pensadores e
historiadores da filosofia já demonstraram que os sofistas foram os arquitetos
de uma formação voltada para a virtude prática. No entanto, foi G. W. F.
Hegel quem os apontou como os grandes responsáveis pelo despertar da
subjetividade livre. Para ele, foi através do movimento sofístico que o
espírito humano reconheceu a si mesmo como medida e motor da realidade,
rompendo com a submissão cega aos costumes tradicionais.
Por outro lado, Karl Popper
identificou nessa mesma atitude as sementes do falibilismo democrático. Popper
enxergava na rejeição sofística aos dogmas absolutos a base indispensável para
uma comunidade livre, onde nenhuma autoridade detém o monopólio da verdade e
todas as certezas estão sujeitas ao escrutínio, à crítica e à revisão pública.
A importância dessa
constatação reside em um fato crucial: sem um critério divino ou natural para
arbitrar nossas disputas, cabe a nós-na arena escorregadia e dúbia da linguagem-
construir os consensos provisórios que sustentam a convivência. O relativismo
sofístico é, portanto, a recusa da tirania do absoluto em favor da negociação
democrática e da busca por uma coexistência pacífica.
A Educação como Arma de
Emancipação
Assim, a promessa sofística de
ensinar a areté — a excelência cívica combinada à destreza argumentativa
— desferiu um golpe mortal no domínio aristocrático. A educação transformou-se
em um instrumento formidável de emancipação, baseado na premissa de que
qualquer cidadão, munido da arte da palavra, é capaz de intervir nos destinos
da sua comunidade e alterar o curso da história.
Sob essa ótica, o mundo humano
é uma construção eminentemente humana:
Tudo isso nada mais é do que
um conjunto de convenções tecidas no calor do debate público. O mundo social é
uma obra de arte coletiva, uma invenção permanente que exige manutenção
contínua.
O sentido último dessa visão é
o de que a verdade não é uma relíquia perene, embalsamada e guardada no silêncio
dos templos. Ela é como um rio vivo em constante transformação; ou, talvez, um
feixe de forças em perpétua mutação de sua resultante. Se existe alguma
concretude, é a de que a verdade se modifica, se desloca, se expande, se retrai
e renasce do atrito dialógico entre os atores sociais. Aqui, estilhaça-se sem
pena nem saudade o ideal platônico de uma certeza imóvel, tão distante da
complexidade das sociedades reais.
Contemporâneos do Discurso
Nesse aspecto, os sofistas são
nossos estritos contemporâneos. Eles entenderam que a verdade resulta da dança
e do compasso da vida política. O dissenso e a articulação de perspectivas
divergentes não são ameaças à verdade; são, na realidade, sua única
possibilidade de existir. Esta é a base que torna a liberdade de expressão
indispensável.
Ao circular pelo tecido
social, o discurso recorta a realidade, costura novos sentidos e cria novos
mundos por onde passa. A verdade deixa de ser esculpida na pedra e passa a ser
construída em qualquer espaço: na terra, no mar, no ar ou nas mídias sociais. A
política torna-se um espaço de reinvenção contínua — onde, paradoxalmente, até
a mentira tenta se impor como verdade ao tentar restringir a palavra alheia.
Para os sofistas, a palavra é a própria respiração da democracia.
Só há democracia liberal e
pluralismo- mesmo diante da inevitável falibilidade das instituições-quando a
sociedade reconhece a necessidade do atrito de posições. A tradição sofística
se ergue:
1. Cada
vez que um cidadão levanta a voz contra a tirania do pensamento único;
2. Cada
vez que uma sociedade reescreve suas próprias leis;
3. Cada
vez que um argumento triunfa pela luz da razão pública.
Por mais escuros que pareçam
os caminhos e por mais negros que se desenhem os horizontes, os sofistas nos
deixam um facho de luz. Enquanto houver alguém capaz de lembrar que a liberdade
humana é uma construção coletiva-que não repousa em certezas absolutas nem nas
mãos de "iluminados", independentemente dos altos cargos que ocupem-,
o tempo e a razão dos discursos nos guiarão. Apesar dos altos custos, eles
sempre nos conduzirão de volta a uma verdade democrática, por mais efêmera que
ela possa ser.
Ilustração: Imagem criada pelo
Google Gemini.
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