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Silvio Persivo

A magia do futebol e o porquê de Neymar ser (quase) indispensável


A magia do futebol e o porquê de Neymar ser (quase) indispensável - Gente de Opinião

O que faz o futebol ser um esporte tão apaixonante? As respostas variam, mas quase sempre passam por alguns pontos centrais: sua enorme imprevisibilidade, o fato de o gol ser um acontecimento relativamente raro, a simplicidade das regras e a potência de identificação coletiva que ele produz.

Quando se acompanha um grande clube, uma seleção, ou mesmo um time de cidade ou de bairro, a vitória não é apenas um resultado: é uma sensação compartilhada por centenas, milhares, milhões de pessoas. O futebol cria um “nós” instantâneo. E cria também tempo- um tipo de tempo próprio: as reviravoltas, as rivalidades, os sucessos e fracassos, os gols de última hora, o drama que se arrasta por 90 minutos e, às vezes, se resolve em um detalhe.

Por isso o futebol vai muito além do campo. Ele produz ídolos e símbolos, movimenta recursos, aquece o comércio, molda campanhas publicitárias e oferece um terreno fértil para narrativas poderosas. Seus personagens -com dribles, erros, acertos, improvisos e teimosias- alimentam histórias que atravessam gerações.

No Brasil, basta lembrar a vitalidade dessas narrativas. Há a sabedoria de Neném Prancha; o repertório teatralesco de Nelson Rodrigues, com suas imagens inesquecíveis-do “anjo nas pernas tortas” ao Impossível de Almeida; e, mais recentemente, o anedotário em torno de Mazzola ou a capacidade inventiva de Vampeta, personagem que, segundo contemporâneos, “fecundou” bastidores com histórias que pareciam maiores do que a vida. Se a Inglaterra foi o berço do futebol moderno, por aqui ele floresceu e se espalhou como poucos fenômenos culturais.

É verdade que, com o tempo, perdemos parte da hegemonia das nossas histórias e do protagonismo que tínhamos no imaginário mundial — aquele lugar em que as lendas brasileiras eram respeitadas como as de “magos da bola”. Ainda assim, a associação entre futebol e Brasil permanece forte. Ela se construiu tanto pelo modo brasileiro de formar jogadores — nos campinhos, nas peladas, no improviso — quanto pelo brilho que nossas equipes, sobretudo no passado, exibiram mundo afora.

Prova disso são os cinco títulos mundiais. E vale lembrar: nem sempre o Brasil começou Copas “jogando bem” do jeito que a memória, depois do troféu, costuma embelezar. As duas conquistas mais recentes, inclusive, não foram espetáculos contínuos. Mas, em todas elas, havia algo comum: jogadores notáveis e uma capacidade de, no momento decisivo, produzir uma espécie de mística-uma magia competitiva que transformava um time “apenas bom” em um time campeão.

Foi assim com Pelé e Garrincha. Com Tostão e Jairzinho. Com Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Equipes que, por vezes, pareciam incompletas ou irregulares encontraram no caminho uma identidade, um encanto, uma força emocional que fez a diferença quando o peso da camisa e do jogo apertou.

É como apreciador de futebol que chego ao ponto central: isto me faz pensar que Neymar é, hoje, imprescindível para a seleção.

Por que Carlo Ancelotti-um treinador que ganhou praticamente tudo- aceitaria dirigir o Brasil? A resposta, me parece, está no fato de ele conhecer profundamente os meandros do jogo e perceber o óbvio: o Brasil tem jogadores de altíssimo nível. Um empate aqui, uma atuação ruim ali, não transforma Alisson, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Danilo, Casemiro, Vini Júnior ou Raphinha em atletas “comuns”. Não são. Muitos estão, há anos, entre os melhores do mundo.

Ancelotti aceitou a seleção porque acredita que pode montar um time vencedor com este plantel. Mas ele sabe, também, que em Copa do Mundo não basta organizar peças: é preciso um fator que exceda o manual - alguém capaz de produzir o imprevisto, imbuir o grupo de confiança e provocar aquele tipo de superação que muda partidas amarradas. Foi isto que o levou a convocar Neymar.

Há quem diga que ele, pelas condições em que foi chamado, talvez nem jogue. Eu penso o contrário: vai jogar- e pode ser exatamente ele quem tem a capacidade de fazer a “magia” acontecer, mesmo sem estar 100%. Se eu fosse técnico, ainda que ele pudesse atuar apenas 30 minutos com 60% ou 70% da condição física ideal, eu não pensaria duas vezes em levar um craque com este talento. E não estou sozinho: Jürgen Klinsmann, por exemplo, também defende que jogadores assim podem decidir mesmo em tempo reduzido.

Não entendo-e nem desejo entender- a ideia de uma Copa sem Neymar. Do mesmo modo, a Copa não seria a mesma sem Messi ou Cristiano Ronaldo. Quem discorda tem todo direito. Mas basta olhar para o que esses jogadores já fizeram para saber que, em dez minutos, podem alterar o destino de um jogo. Os que gostam de bom futebol sabem disto.

Alguns céticos me dizem: “Mas veja ele no Santos”. Eu vejo. E mesmo andando em campo, com companheiros sem tanta qualidade, Neymar ainda é capaz de encontrar um passe impossível, uma jogada inesperada-um lampejo que reorganiza o jogo e confunde qualquer marcação. Pode ser que não aconteça. Futebol é imprevisível. Mas minha crença é que sim: Neymar ainda há de, no mínimo, entregar um drible, um passe ou um gol que prove que é capaz de fazer o que sempre fez -e o que, no fundo, gosta de fazer: jogar futebol.

(*) Um Estranho no Ninho (https://spersivo.blogspot.com/).

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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