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Paulo Saldanha

Mafalda, uma guerreira!


 
Para escrever sobre o seu Pai e sobre o seu sogro é necessário falar dela, em primeiro lugar, pois a doce mulher Mafalda, cujo nome se traduz como “guerreira, que combate com energia. É dócil e sincera, sente-se feliz quando conquista a simpatia dos outros. Por isso, esforça-se para agradar aos amigos e não se importa de ouvir suas lamentações. Muito conservadora, coloca a família acima de tudo”. 

Até parece que o nome batismal recebido por essa menina de 85 anos representa a síntese de uma personalidade cativante. Bem informada, dona de uma memória estupenda, narra fatos acontecidos na sua infância, na adolescência e na maturidade como se tivessem acontecido ontem. 

Filha de Clovis Serrão Ewerton, descendente de ingleses, um agente aduaneiro, maranhense dos bons, que aqui chegou em 1912, era um homem relativamente alto; magro, olhos verdes e personalidade firme; encerrou a sua trajetória como homem público, na chefia da aduana aqui neste pedaço de chão. Nesse ínterim foi Vereador ativo e vibrante, que muito auxiliou a Intendência, naquele tempo exercida pelo saudoso Manoel Boucinhas de Menezes, de quem se tornou amigo, parente e correligionário. Na Aduana, passou o bastão para o Cantídio. 

Sua Mãe Adelaide Michelin Ewerton, trazia a exemplo de seu Pai, a origem européia; Yolanda, Adela, Guilhermina, Anita e Cristina ganharam os irmãos Alberto, Dayse e Mafalda, todos Michelin Ewerton, nascidos em Guajará-Mirim. 

Uma lembrança que ainda hoje a comove por motivos diferentes foi o casamento com o Jesus Perez, estando o seu Pai acamado. A felicidade do casamento era contraditada pela enfermidade. Mesmo assim, ele, orgulhoso do casamento da filha com o Jesus Perez, a abençoou em 07 de novembro de 1948. Porém, no dia 11 seguinte, o genitor que abençoara aquela união, se despedia da vida, neste rincão. Clovis, o Pai, era severo, sem ser ríspido. Um Pai afetuoso e protetor, assim tornou-se um homem inesquecível para ela. Ótima era a relação com os filhos, mas a Dayse era o seu xodó. Na realidade, o adjetivo de maravilhoso designa o encantamento pelo líder daquela familia, um homem assaz comunicativo e que adorava conversar, razão da quantidade de amigos que cultivava. Sempre muito prestigiado pelo Aluízio Ferreira e pelo coronel Saldanha, seu compadre, de quem sempre recebia os convites para almoçar ou jantar na antiga Guaporé Rubber. Embora não fosse um assíduo nas Missas, conservava íntegra a sua amizade com Dom Rey. 

Seus filhos o homenagearam colocando seu nome em três dos netos, numa nímia demonstração de afeto e orgulho, que todos dele sentiam. 

Outra recordação que a faz ficar com os olhos brilhantes é aquela que traduz a lembrança do sogro Simon Perez, um espanhol que escolheu Guajará-Mirim para se fixar. Quando aportou na cidade, o “seu” Perez, na década de 10 do século passado, vinha através de Belém, com muitos sonhos. Ele trabalhou na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Depois, a hotelaria foi a sua primeira iniciativa numa atividade empresarial; implantou um pequeno hotel próximo a estação do trem, ali mais ou menos onde hoje se localizam a Potosi e a Drogaria Central, em frente a loja do Obadias. 

As informações dão conta de que o “seu” Perez, por volta dos anos 30, tornou-se marchante (fornecedor de carne) e passou a resolver (pelo menos tentou) o grave problema gerado pela escassez daquele produto na cidade, ainda mais porque, naquele tempo, a Bolívia tinha uma boa oferta de gado em pé e havia poucos negociantes brasileiros interessados na compra e venda de bovinos. Apesar de não ser criador extensivo dos animais para abastecer o mercado, “seu” Perez, como era conhecido, adquiriu e ocupou durante muitos anos, uma área relativamente grande nos arredores da cidade (o curral) onde mantinha algumas cabeças de gado para o fornecimento doméstico de leite e onde invernava os animais vindos da Bolívia para o abate. 

Os da minha geração sabiam que o Simon Perez negociava com gado, abastecendo o município com carne, abatido lá no Curro, próximo ao bairro do Triângulo, hoje transformado nos bairros São José e Santo Antônio. 

Quando aportou nesta área a sua família era constituída por dona Benita, pelo Fernando, depois por Maria (esta, esposa do Boucinhas de Menezes), que só chegaram a Guajará, muito mais tarde. Aqui nasceu o Jesus Perez, o caçula do primeiro matrimônio, que, anos depois, se casou com ela, a Mafalda. Com o falecimento da primeira mulher, o “seu” Perez, uniu-se pelo matrimônio com dona Vitória merecendo a Aurora, a Tuca e o Daniel, como filhos. 

Uma das características do “seu” Perez era a forma humilde como tratava a todos, poderosos ou menos afortunados. 

Se como cidadão granjeava muita simpatia, como avô não era diferente no seio familiar. O Clovis Ewerton Perez, seu neto predileto, ganhou um cavalo, símbolo do carinho do avô coruja. A Maria de Jesus reinava “sapateando” no coração do vovô Perez. 

Quando ficou viúva, a nossa guerreira, uma mulher prendada, anos depois casa-se com o Pedro Nicolau Flores e aquele casamento é aprovado pelo sogro do primeiro matrimônio, e, ele, o Pedro, ela reconhece, foi um pai exemplar para os filhos. 

Aliás, sempre chamou a atenção pela elegância como se apresentava nas festas, cujos vestidos faziam-na destacar como mulher bonita, charmosa e de muito bom gosto. Era muito admirada mercê das virtudes físicas e espirituais que são o seu forte! 

Mauricio Francisco Ceolin, e não Henfil, imortalizou que “se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente”. No caso de dona Mafalda, os frutos valeram pela abençoada família construída (Clovis, Maria de Jesus, Teoca, Mário e Neuza), aqueles dois primeiros do seu casamento com o Jesus Perez e os demais com o Pedro Nicolau Flores, que lhe ofereceu Flores também através de um sobrenome honrado, tão honrado quanto o Perez, cujas sementes já se multiplicaram transformando-se nos netos que gravitam em torno de uma frondosa árvore rica de nutrientes virtuosos, produto da transferência genética e dos ensinamentos, fincados em cima de um exemplo edificante de uma mulher generosa e altruísta, abnegada e companheira, firme e absolutamente devotada à família, seu orgulho e sua veneração. 

Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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