Quarta-feira, 28 de abril de 2010 - 11h56
Paulo Cordeiro Saldanha*
“Alguma coisa acontecen no meu coração” – diria Caetano Veloso – quando ando pelas ruas da cidade e encontro meus colegas, alguns que transformei em amigos, que, no tempo de meninos estudávamos no Instituto Nossa Senhora do Calvário, um Colégio que formou tantos cidadãos, transformando-os em melhores habitantes do Planeta.
Também encontro as hoje senhoras, mas que, naqueles dias, eram alunas, internas ou não, do saudoso centro de ensino católico.
As irmãs Calvarianas abraçavam a causa da educação com fervor e devotamento; com altruísmo e sacrossanta devoção.
Ali as moças aprendiam de tudo, inclusive a caminhar sem fazer barulho; como portar-se numa mesa e como sentar-se de forma adequada e elegante; lá ensinavam práticas de bordados, desenho, pintura e música. As conversas eram mantidas em tom suave, sendo proibido gritar.
Lembro-me que a Professora Carmem Carvalho, formada no Colégio de minhas saudades, uma vez por mês, fazia os garotos mostrar os ouvidos e as unhas visando a alertar para a higiene pessoal, tão necessária quanto saudável. O termo ecologia não era conhecido, mas éramos proibidos de jogar papéis no chão.
Meninos e meninas participavam das quermesses, de peças teatrais e do canto orfeônico. Não me esqueci de uma peça em que a irmã Ruth, uma paulista, escreveu demonstrando a saga de Dom Rey, na catequese de brancos e dos índios. Fui, como outros alunos, caracterizado como indígena nessa peça teatral. Conhecemos os aplausos e os incentivos de uma exigente platéia.
A Irmã São Rafael, uma doce criatura, ao receber nova Missão partiu em direção a África, continente muito mais atrasado que a América do Sul, onde pontifica a Amazônia. Chegou de mansinho a Irmã Noelah, também suave e firme. Choramos a partida de nossa “Avó” São Rafael. E aos poucos a Irmã Noelah foi nos conquistando , devagar... devagarinho...
Nosso Colégio ia descobrindo os talentos, à medida que os anos se sucediam. A Professora Carmem aprendeu a tocar Órgão e Piano. Transformou-se numa intérprete inteligente e desenvolta, mesmo porque cantava muito bem; depois, a Maria Francisca, a Anastácia e outras lhe substituiram, após o casamento.
As missas solenes eram um acontecimento! Lembro-me da sagração da Catedral! A luz elétrica dos homens, ante a explosão das nossas alegrias, confundia-se com a luz espiritual que, de todos os cantos da nossa quase Basílica, se expandia.
Pareceu-me que, ao adentrar ali na Catedral, todos estivessem visitando um pedaço do céu... Tal a magnitude do nosso orgulho, que sintetizava o tamanho do nosso contentamento.
E os alunos e as alunas do Instituto, quase todos, fizeram-se presentes, rezando contritos e cantando os hinos de louvor, anteriormente tão bem ensaiados.
Quando o seis de agosto (data magna da Bolívia) chegava, vestíamos o uniforme de gala e colocávamos as nossas boinas na cabeça. O sapato Tank era engraxado e com ele marchávamos. E estufávamos o peito, orgulhosos, como se estivéssemos numa guerra, empunhando os fuzis e a Bandeira do Brasil, desejando fazer o melhor. A Pátria merecia!
No dia da Independência, o nosso Sete de Setembro era mais vibrante. Novamente “enfatiotados” (palavra antiga!), desfilávamos antes dos militares e competíamos com o Grupo Escolar “Simon Bolívar”, desejando vencer nos quesitos uniforme, banda e ordem unida. O Chefe Cláudio era o “técnico” do Instituto Calvariano e nos cobrava responsabilidade, brio e civismo.
Meninos e Meninas apreendiam, de cor e salteado, os quatros hinos oficiais brasileiros: Nacional, Independência, Bandeira e o da Proclamação da República. E ai daquele que desafinasse!
Havia a classe para as meninas e a classe para os meninos. O recreio era em horário diverso. Mas os flertes aconteciam, apesar da severa vigilância das freiras.
Um dia o Embaixador da França visitou Guajará-Mirim. Homenageamos aquela autoridade diplomática cantando para ele La Marseillaise(A Marselhesa, em português), que acabou comovido. Pronuncia impecável. Até hoje ainda recordo de trechos do hino francês.
Assim como nunca esqueci a primeira professorinha –a Irmã Celeste– jamais deixei de lembrar um tempo especial na minha existência, quando, junto a tantos, mereci recolher a dádiva dos ensinamentos que o Instituto Nossa Senhora do Calvário, pôde transmitir, através das irmãs Maria Emilia, Agostinho, Maria Antonieta, Ruth e Maria José (hoje Irmã Luzia), com desvelo, altruísmo e amor cristão.
*-Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda
Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim
Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)