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Montezuma Cruz

Crueldade contra os Oro Win está presente na memória rondoniense


Crueldade contra os Oro Win está presente na memória rondoniense - Gente de Opinião

O velho Salomão Oro Win perdeu a mulher, um filho e seus irmãos. Ele mesmo enterrou os corpos. Isso ocorreu em1963 no Igarapé Teteripe (ou Tabocal), na região do Guaporé, onde a crueldade dos seringalistas João e Luiz Dantas dizimou muitos indígenas Oro Win resistentes à presença de seringueiros sob o comando deles. A sede pela produção do látex trouxe ambição e ganância àquela parte do Território Federal de Rondônia. Empregados armados daqueles seringueiros disparavam contra homens e mulheres, toda vez que eles empunhavam seus arcos e flechas.

O jaguncismo era semelhante no Guaporé e nas regiões Norte e Noroeste de Mato Grosso. Empregados do Seringal do Arquinda (dono do Alto Cautário), por exemplo, abriram as barrigas de mulheres grávidas, atiraram crianças de peito para o alto e as apararam na ponta de terçados – barbarismo igual ao praticado na Chacina do Paralelo 11, contra os Cintas-largas, em Mato Grosso, também no século passado.

Na região atacada pelos seringalistas “em defesa de seu patrimônio” apenas 57 Oro Win, mas o sarampo e a gripe os reduziram a 31. Há histórias não contadas em escolas, e para sabê-las precisamos procurá-las.

Nos velhos escaninhos judiciários de Guajará-Mirim e, conforme relataram antigos moradores nos anos 1980, quando a mortandade foi lembrada, o seringalista Manuel Lucindo da Silva organizou uma expedição na cabeceira do Rio Pacaás-nova, para contatar aqueles indígenas. Ele era dono do Seringal São Luiz, em Guajará-Mirim, na fronteira brasileira com a Bolívia.

A manobra frustrou seu objetivo, e aí Lucindo decidiu “punir os Oro Win”, revela o Processo-Crime 6.362/78. Participaram da expedição Luiz Barbosa, Raimundo Bezerra e Francisco Marinho, e os índios Valdemar Cabixi e Tem Noi Pacaá-nova. O grupo alcançou a aldeia e foi atirando para todo lado. Alguns índios baleados conseguiram fugir para a floresta, mas não resistiram. Saldo: nove mortos, dos quais, cinco crianças, um adulto, dois idosos e uma jovem.

Uma idosa e duas crianças não morreram na hora, mas foram posteriormente executadas pelo seringalista Lucindo, disse no processo-crime o indígena Hotor Oro Win, filho de Salomão, que os sepultou. Os documentos judiciais traduzem a barbárie: Maria Mixem Toc Oro Win, mulher de Hotor implorou pela vida e só não foi liquidada por interferência de Valdemar Cabixi.

Juntamente com alguns feridos, levaram-na para a sede do seringal, mas no meio do caminho Maria percebeu que os outros ficaram para trás. Ouviu tiros. Encarcerada no seringal, ela apanhou bastante, mas um dia conseguiu fugir. Lucindo ordenou a Cabixi que a capturasse novamente. E assim ele fez, chegando armado à aldeia, onde deparou com indígenas desnutridos e apavorados.


Sem alternativa, os Oro Win se viram cercados pelos seringalistas de um lado e pelos Uru-eu-wau-wau de outro. Renderam-se. Um mês depois, Lucindo mandou incendiar as malocas. A resistência veio em seguida: os índios escaparam, chegando às margens do Rio Parati, onde ficava o seringal do Sr. Miranda Cunha, que pediu a Lucindo autorização para que Cabixi “resolvesse problemas” em sua área.

Seringueiros estavam abandonando as colocações e isso representava prejuízo para Miranda. Cabixi localizou novamente os índios e os levou para o Seringal São Luiz, mas oito deles fugiram. Salomão buscou-os e teve início, então, um período de escravidão indígena. Em troca do trabalho que começava de madrugada, eles recebiam peças de roupa e comida. A escravidão indígena durou até os anos 1970.

As mulheres sofreram mais: foram estupradas por jagunços e por familiares do seringalista. Nessa mesma década, no Paralelo 11, em Mato Grosso, jagunços das famílias Arruda e Junqueira matavam a tiros e a golpes de facão homens e mulheres Cinta-larga. Naquele estado e em Rondônia o extermínio indígena provocado por fazendeiros e seringalistas expôs a perversidade amazônica, algo que fez escola até para o trabalho escravo branco, que se repetiu no Vale do Guaporé até os anos 1990.

Os Oro Towati, por eles próprios autodenominados, são remanescentes de um povo com sete clãs, todos dizimados e extintos. Cultivavam farinha de mandioca, feijão, milho, bananas, galinhas e plantas medicinais nas aldeias Pedreira e São Luiz, na cabeceira do Rio Pacaás-nova e nas margens do Igarapé Água Branca. No entanto, sua área tradicional fica dentro da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, que foi homologada pelo Decreto nº 275/91.

A Funai transferiu os Oro Win para o Posto Indígena Rio Negro Ocaia e lá eles conviveram com os Wari’, dos grupos Oro Nao, Oro Eo e Oro At. Existem e resistem.

 

QUEM SÃO

Segundo estudos de David Philips, os Oro Win provavelmente fugiram os jesuítas espanhóis na Colômbia, e subiram nas serras Pacaás Novos no século com o primeiro ciclo da borracha. Eles vivem nas cabeceiras do rio Pacaás Novos, e suas terras tradicionais incluem este rio e seus afluentes entre o igarapé São João subindo nas cabeceiras até a serra dos Pacaás Novos. Os Uru-eu-wau-wau invadiram sua terra no início do século 20. Os seringueiros chegaram na região nos anos 40 e quando foi estabelecido o seringal São Luís em 1963.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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