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Montezuma Cruz

A cassiterita 'esquentada' em Ariquemes (1)



O Jornal do Brasil deu-me quase uma página inteira para descrever Campo Novo, para onde fui acompanhado do repórter fotográfico Damião Cavalcanti. A reportagem saiu na edição de 30/12/1984:

 

Seis mil garimpeiros buscam cassiterita em Rondônia
 

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MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

 

Campo Novo, Rondônia– Garimpeiros do Rio Madeira estão se transferindo para Campo Novo, na região do Alto Candeias, a cerca de 300 quilômetros de Porto Velho. Ali, aproximadamente seis mil homens extraem cassiterita, minério do qual Rondônia é o segundo maior produtor do País. Aparentemente seria apenas uma migração feita em ônibus, caminhões, jipes e automóveis, porém, dada a proibição da lavra manual desse produto desde 1970, sua comercialização vem se processando com riscos. A maior parte dos compradores atravessa a BR-421 (Rodovia da Cassiterita), buscando o minério acondicionado em sacos e a preços que variam de Cr$ 10 mil a Cr$ 15 mil o quilo.
 

(...) Calcula-se que saiam, mensalmente, das grotas, entre dez a 20 mil quilos de cassiterita, a maior parte comercializada na mata, longe de qualquer fiscalização. Dezenas de compradores aparecem do dia para a noite adquirindo o produto na zona do garimpo. Em Ariquemes eles “esquentam” o minério – arranjam documentação – como se ele procedesse de Humaitá (AM), onde a lavra manual não é proibida.
 

A cassiterita viaja de Campo Novo até a cidade, passando pela estrada da Mineração Oriente Novo S/A, que demanda ao Setor São Domingos, o que, para os garimpeiros, é um verdadeiro desafio. Como não há, no momento, repressão igual à do ano passado, o segurança Lourenço Zaneila, que vigia o tempo todo uma grossa corrente de fero, alega não querer brigas com ninguém.A cassiterita 'esquentada' em Ariquemes (1) - Gente de Opinião
 

Campo Novo, diziam na época os mais antigos, conservava a fisionomia do antigo imóvel Aquidaban, cujo primeiro título fora expedido em julho de 1923 pelo governo mato-grossense a Jovino Fernandes. Seus 22,6 mil hectares seriam mais tarde desdobrados entre 12 proprietários.
 

Segundo o advogado Manoel Denizar Soares, ex-dono de um dos setores, foi em 1965 que o italiano Bartolomeo Pagan descobriu depósitos de cassiterita ali. “O trabalho dele foi financiado por um dos proprietários, João Chaves de Melo Filho, o Jucá. A partir dessa época as empresas de mineração iniciaram a corridas às terras, riquíssimas em rochas primárias”, ele contava.
 

Denizar era procurador do irmão dele, Claudionor Eduardo Soares, antigo proprietário de terras na região. Munidos de mapas do DNPM, Incra e Projeto Radam Brasil, o advogado explicava em 1984 que o decreto de lavra para 9,4 mil hectares abrangia parte das terras devolutas do município de Porto Velho, anteriormente em nome de Raimunda Angelim Lopes Ferreira Gomes, Nelson Yarushi Nomura e Claundionor Soares.
 

Só que Denizar suspeitava de Nomura, garantindo que ele recebia royalties (compensação por área explorada) em silêncio das mineradoras, daí ter requerido ao coordenador especial do Incra, Ernani Coutinho Carvalho, demarcações dos lotes 8, 9 e 11 do imóvel. As áreas dos decretos 78.419 e 78.420 eram limítrofes e, conforme o DNPM, separavam-se apenas por uma linha imaginária.
 

Campo Novo passou a ser explorado pela Mineração Oriente Novo S/A (Grupo Brumadinho) e pela Companhia Vale do Amazonas (Civa), esta última, coberta pelo decreto 78.420, transferiu seus direitos à Mineração Brasiliense S/A, que se apossou das terras em novembro de 1977, com base numa sentença judicial declarando-as devolutas. Somente em 1984 a Mineração Jacundá incorporou essas terras para pesquisas.
 

Antonio Leite de Oliveira, da primeira turma do Aeroclube Guaporé, contou-me naquele ano que na fase de exploração na década de 1960, antes do fechamento da Província Estanífera para os garimpeiros, aviões Paulistinha voavam por lá, transportando combustíveis, cassiterita e garimpeiros doentes.
 

O plano da Companhia de Mineração de Rondônia era assentar até oito mil garimpeiros em três setores da lavra mecanizada: Abunã, Campo Novo e proximidades da Usina de Samuel. O governo rondoniense reservava Cr$ 20 milhões mensais para dar infraestrutura aos garimpeiros desempregados pela cheia.

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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