Sábado, 8 de janeiro de 2022 - 16h36

Numa época em que “todo mundo conhecia todo mundo” a Porto Velho de 1953 contava pouco mais de 27 mil habitantes, e era comum, quando havia algum “forasteiro”, logo a notícia se espalhar. Afinal, havia apenas duas formas de alguém chegar na capital do Território do Guaporé, pelo Rio Madeira, vindo de barco, ou por um dos trens da Madeira-Mamoré ou, muito mais raro, chegar via aérea e, claro, a polícia sempre queria saber quem era quem.
E naquele início de 1953 um boliviano apareceu na cidade. Primeiro se enturmou com o pessoal do futebol, apendeu os caminhos do boteco, erra bom de noitada, arrumou logo muitos amigos e vendeu para a turma que era jogador de futebol, titular da seleção da Bolívia e que tinha vindo para o Território para tentar a vida. O jornalista Euro Tourinho, diretor do Jornal Alto Madeira, contava, rindo muito, as peripécias do boliviano.
“Ele era bom de conversa, bom de boemia e que morava em La Paz, mas a estória que ele contou ao governador Jesus Bularmaqui Hosana (*) e que causou prisões e a demissão do governador só aconteceu depois”, lembrava Euro numa das muitas conversas que tive com ele em quase duas décadas trabalhando no AM.
Na época, além de uns poucos bordéis da vida, as noitadas normalmente passavam por alguns botecos, como o “Arara” e os “clíperes” localizados entre as duas faixas da Avenida Sete de Setembro, e os notívagos e boêmios começavam tudo por lá para, depois, seguirem em frente.
Os historiadores Esron Menezes e Abnael Silva, além do goleiro Simeão Tavernard, também policial civil, contavam que um dia, ninguém sabe como nem de onde, apareceu o boliviano dizendo que era titular da seleção de seu país e logo foi convidado para um jogo amistoso a ser realizado no domingo seguinte no estádio “Paulo Saldanha”, pertencente ao Ypiranga (onde há poucos anos construíram um imenso prédio do Judiciário).

Na época Porto Velho tinha um jornal bem conhecido e circulando desde 1917, o “Alto Madeira” e outro em fase de buscar público, o “Guaporé”. Emissora de rádio só apareceria uma no final daquela década de 1950 e televisão, bom, no Brasil a primeira, TV Tupi, tinha menos de dois anos que começara a funcionar no Rio de Janeiro. Poucas pessoas tinham aparelhos de rádio e, mesmo assim, o com era tão ruim que algumas vezes enganavam muito quem estava ouvindo – como na final da Copa de 1958, quando Brasil e Suécia disputaram o jogo e um grupo ouvindo a partida num local, vibrou muito com o primeiro gol, que era da Suécia. No final, 5x2 para o Brasil.
O programa mais ouvido era a “Voz do Brasil”, por onde também vinham as notícias de demissões de governadores e era tradição: quem era contra o atual governador enchia a noite de foguetes, vivas etc. Em realidade a “rádio” mais ouvida era a “rádio cipó”, aquela que transmite a notícia boca a boca.
No dia do jogo, um domingo de sol em pleno inverno pesado, o estádio do Ypiranga estava mais que lotado: todos queriam ver o tal titular da seleção boliviana. Segundo ouvi, o cara entrou no campo, pegou duas vezes na bola, numa delas conseguiu fazer um gol. E saiu machucado. À noite ainda foi visto nos bordéis da vida, aproveitando ainda os comentários do gol que fez.
Como muitas damas já o conheciam, aproveitou a fama de “gran bailarin” e, mesmo “machucado” dançou e em seguida desapareceu. Uma semana depois o boliviano que nenhum dos entrevistados soube lembrar o nome, reapareceu, no palácio do governo onde foi contar ao governador Burlamaqui Hosana que um grupo local queria dar um golpe e criar a “República Socialista do Guaporé” (*).
(*) Histórias que a história não conta (1) neste site
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