Domingo, 12 de março de 2017 - 07h59

MBL convoca: Pelo direito de perder direitos
No 247
Guilherme Coutinho
O Brasil vive a pior recessão econômica de sua história. Desemprego, caos nas na segurança pública e barbárie nos presídios são fatos recorrentes em um país em frangalhos. Escândalos de corrupção atingiram os mais altos cargos de um governo ilegítimo e plutocrata, que permanece impune, graças a um poder judiciário conivente e parcial. Não há dúvidas! O povo tem muito o que reivindicar.
No entanto, nenhum desses problemas parecem estar na pauta do MBL para a manifestação que está organizando para o dia 26 de março. O movimento, que se diz apartidário, mas que é financiado por partidos políticos, conclama o povo para que tome as ruas para reivindicar a perda de seus direitos. Há quem apoie. É o mundo invertido do país do golpe.
Entre as pautas anunciadas, chamam atenção as reformas trabalhista e previdenciária. O povo deverá sair às ruas para apoiar medidas do próprio governo, que lhes retira direitos básicos, privilegiando os principais apoiadores da deposição de Dilma: os industriais representados pela FIESP. Sim, o cidadão está sendo convocado pela turminha do Kim a reivindicar a perda de seus direitos trabalhistas, incluindo a perda de uma aposentadoria digna. Lutar pelo direito do patrão. They want you.
Especificamente sobre a reforma da previdência a hipocrisia aumenta um pouco. Ao mesmo tempo que a pauta é aprovar o projeto, eles alegam que têm uma proposta própria e diferente daquela apresentada por Temer. Mas só se pode aprovar uma proposta que já tramita no congresso, certo? MBL, sabemos que vocês estão fechados com o PMDB. O povo não é tão bobo assim. Ou será que é?
No meio disso tudo, o discurso ainda encontra fôlego para incluir temas populares entre o público conservador: fim do estatuto do desarmamento, apoio à polícia militar e bom andamento da lava jato. Nenhuma menção aos envolvimentos de Temer e seus ministros em caso de corrupção, nada sobre Jucá, Padilha ou Aécio. Não se pode criticar o governo nessa manifestação.
Levantes populares mudaram o mundo diversas vezes. Derrubaram tiranos, instituíram a democracia, institucionalizaram direitos. Os próprios conceitos de cidadania, de liberdade e justiça social não existiriam se em determinados períodos históricos o povo não tivesse se mobilizado em torno de um ideal. No entanto, o que o MBL protagonizará em alguns dias será mais um triste espetáculo, meticuloso e mal-intencionado, de um grupo conservador e mentiroso que atua como mídia social para Temer.
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