Porto Velho (RO) segunda-feira, 1 de junho de 2020
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Gente de Opinião

Hugo Evangelista

O 'bar' da DEUSA


 

Hugo Evangelista da Silva*
 

O bar SERENO ou “bar da Deusa”, como popularmente chamado, era um misto de residência, de bar, de estância para muitas acomodações e de prostíbulo, embora se reconheça o termo um tanto exagerado para uma correta avaliação do local – estabelecido na Avenida Joaquim Nabuco, quase ao meio da quadra situada entre a Rua Bolívia e a Rua Almirante Barroso, aqui no bairro Santa Bárbara – onde sua proprietária, a d. Deusa, explorava o comércio de bebidas que servia acompanhadas de saborosos acepipes e do “lazer” proporcionado pelas “meninas” que as mantinha abrigadas nos vários cômodos de sua casa e outras tantas voluntárias que por lá apareciam, com certa regularidade, em busca de “ocupação” e alguma recompensa financeira.

O termo “ocupação” do qual me valho para a designação do serviço prestado pelas “garotas” do Bar SERENO, ainda que possa parecer inadequado para um trabalho assaz transitório, afirmo-lhes ser o mais apropriado considerado, sobretudo, o modus operandi dos clientes que chegando com alguma determinação sexual às chamadas “casas de tolerâncias” abordavam às damas presentes ao recinto sempre da mesma forma e com uma mesma indagação: você está desocupada? Foi em consequência disso, creio eu, que se originou a resposta malcriada e atrevida geralmente dada àquele que, por descuido ou desconhecimento de causa, indagasse a alguém em qualquer outra situação: você está desocupado? A resposta estava sempre à ponta da língua: Quem desocupa é puta e táxi!

A proprietária do “SERENO Bar”, chamada DEUSA FARIAS BATISTA – a d. DEUSA – chegara a Porto Velho e ao bairro de Santa Bárbara quando ainda muito jovem, assim como o próprio bairro, que ainda não estava totalmente ocupado, procedente da cidade de ORIXIMINÁ, a acolhedora cidade fincada às margens do rio Trombetas, no Estado do Pará, trazida pelas contingências da vida e por caprichos de um incorrigível coração. Tipo nada comum dentre as pessoas de nossa cidade, possuía um perfil físico um tanto diferente das mulheres locais, conquanto sendo de tez branca, cabelos claros, olhos azuis e nariz bem afilado: era muito bonita! Quando a conheci sua idade estava a situar-se por volta dos quarenta anos, e, embora esbanjasse saúde e muita energia na condução de seu negócio, era para mim uma mulher de avançada idade, considerada minha visão com olhos de um garoto com pouco mais de treze anos de vida, saindo da infância e entrando na adolescência.

Embora tenha buscado com insistência informações que pudessem indicar com precisão a data em que começou a funcionar a “casa” de d. Deusa – o SERENO Bar – foram infrutíferas todas as minhas tentativas. Alguns moradores arriscaram afirmar, em meio a dúvidas, que as portas do SERENO foram abertas ao deleite de seus clientes e ao faturamento de suas “colaboradoras”, por volta no ano de 1963. Confirmei, contudo, que o recinto fora, por muito tempo, uma referência do bairro SANTA BÁRBARA para todos aqueles que buscassem o “divertimento” de uma maneira mais objetiva porquanto no recinto – fosse certo – seriam sempre encontradas “colaboradoras” dispostas a uma passageira ocupação sexual, mediante a contrapartida de algum “agrado” financeiro. Assim, era comum, assistir-se a um constante vai-e-vem de homens naquela direção, mesmo às horas claras, à busca do prazer proporcionado pelas “meninas” que ali se “ocupavam”.

O funcionamento do “SERENO bar” não obedecia a qualquer regularidade, estando sempre de portas abertas aos seus clientes, como a confirmar a “máxima” concebida por sua proprietária a nos assegurar, quiçá baseada em experiências próprias, que: “Para essas coisas toda hora é hora!”. O funcionando do bar dependia, assim, do “quantum” de fregueses que acorriam ao recinto, o que variava de dia para dia e de noite para noite, podendo, em certos períodos do ano, estender-se até avançadas horas da noite, pelo que, suponho, tenha sido essa uma das razões que avalizou a denominação do estabelecimento, numa sacada muito feliz e inteligente de sua proprietária como a dizer que o funcionamento do seu “bar” poderia começar a pleno sol e terminar em horas avançadas das madrugadas - ao cair do sereno!

Registre-se, que as atividades do “SERENO bar“, suspendiam-se por ocasião da semana santa, quando, então, eram cerradas suas portas a fim de se evitar a tentação dos clientes mais afoitos, o mesmo acontecendo à suas congêneres. Jamais fiquei sabendo, se o fechamento dos bordéis decorria de determinação legal; se acontecia à conta da religiosidade de seus proprietários; ou, se era baseada nas tradições. Ouvi dizer, anos depois, que a suspensão decorria da recomendação dada aos católicos para que evitassem a ingestão de carne. E mais: Que tudo não passava de uma equivocada interpretação!

Corroborava essa hipótese a “história”, muito conhecida, do homossexual que no curso da semana santa fora pilhado em flagrante de “affair” com um namorado marinheiro, justo atrás da igreja. Ao ser flagrado (a) por sua “amiga” que, aos gritos, chamava-lhe à atenção – “Louuuuca, acaso não sabes que é proibido comer carne na semana santa?” – teria respondido a “boneca” com voz embargada e sem interromper o ato: “Quem te falou que eu estou comendo carne? Eu estou é desfrutando fruto-do-mar!”

Desconheço se existia, por àqueles tempos, o tão zeloso Comissariado de Menores dos dias atuais, a impedir o acesso ou mesmo a aproximação de nossos menores aos prostíbulos locais então existentes. O que sei, era que nós, meninos de então, ousávamos com certa frequência e uma enorme impetuosidade espreitar a curta distância as atividades que tomavam lugar no Bar SERENO, movidos que éramos por uma curiosidade natural, na expectativa de uma visão mais contemplativa de suas “auxiliares” ao momento das ações mais audaciosas de seus clientes, sem se descartar a tão popular “brechada”, facilitada pelo acanhado dos aposentos de suas “colaboradoras”, que era praticada por alguns dos garotos mais ousados. Obviamente que eu, por ser o mais comedido da turma, jamais me dispus a tão reprovável atitude, pelo que me valho, por agora, da resposta dada por um ex-presidente norte-americano que quando perguntado por curiosos jornalistas acerca de outra imprudência juvenil, teria afirmado: “Fumei, mas nunca traguei”!

Era dito, por alguns moradores, que a iniciação sexual dos garotos do nosso bairro acontecia em aposentos do “SERENO bar”. E mais: que havia certa disputa entre suas “meninas” pela primazia da “primeira vez” de nossos garotos, para, depois, serem exibidas como verdadeiros troféus. Nas informações colhidas à ocasião das entrevistas realizadas, entretanto, não restaram confirmadas tais histórias, ressalvando-se um ou outro caso, que pudesse ter acontecido numa excepcional situação. Era certo, contudo, que, pela expressiva quantidade de “casas” existentes nos arredores do batuque de Santa Bárbara – inclusas a da d. Guiomar e a da Ilda Boliviana – onde se supunha houvesse sempre “moças” dispostas a tudo, já transformava as cercanias do “bar da Deusa” em um ambiente altamente convidativo ao devaneio sexual dos jovens, mas nada que lhes garantisse eventual exclusividade.

Dentre os clientes mais frequentes ao “bar SERENO” estavam, além dos já habituais, poucos seringueiros e muitos garimpeiros – considerados o declínio do extrativismo e a descoberta das minas de cassiterita em nossa região – que, em situação de “bamburro”, por conveniência ou pela eventual redução da oferta de oportunidades na zona do baixo meretrício – que ficava ali na Rua Afonso Pena, entre Joaquim Nabuco e Marechal Deodoro – buscavam seus prazeres na região “underground” dos bordéis, onde sempre foram bem aceitos à conta de seus bolsos endinheirados.

As atividades desenvolvidas nas dependências do SERENO Bar – informe-se – nunca incomodaram às famílias do bairro Santa Bárbara, sobretudo as residentes em áreas mais próximas ao estabelecimento, o que me restou confirmado pelo fato de não ter colhido, à ocasião das pesquisas realizadas com os moradores mais antigos, quaisquer informações que indicassem alguma insatisfação com o comércio praticado naquele pardieiro. Parece-me suficiente – só isso – para afirmar que, embora plenamente cônscios dos serviços que ali eram prestados, seus vizinhos jamais se viram incomodados com tais atividades e, por isso, sempre as relativizaram, nunca se dispondo à formalização de denúncias de qualquer tipo, ainda que essa convivência tenha se dado numa época em que a exploração daqueles serviços era vista pelos conservadores locais com enormes restrições e com os olhos de desconfiança.

* Advogado e memorialista, conta histórias que viu ou ouviu sobre nosso estado, nossa cidade e do bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. E-mail: [email protected]

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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