Terça-feira, 9 de junho de 2026 - 09h50

CPI
Ninguém que conheça
minimamente os bastidores da política acredita que a CPI proposta pelo deputado
Jesuíno Boabaid tenha força jurídica ou poder político suficiente para alterar
os valores abusivos dos pedágios instalados na BR-364. A iniciativa nasce sob
aplausos populares, mas esbarra logo na primeira curva da realidade: trata-se
de uma rodovia federal, concedida pela União, fiscalizada por órgãos federais e
submetida a contratos sobre os quais a Assembleia Legislativa não possui
influência.
MIRAGEM
A verdade é que a tão
propagada duplicação da BR-364 continua sendo uma miragem surgida no horizonte
quente do cerrado rondoniense. Entre Porto Velho e a entrada de Vilhena não
existe um único trecho significativo em duplicação. O que se vê são reparos pontuais,
remendos que pouco alteram as condições da estrada e em nada reduzem a
sequência de acidentes que, diariamente, transforma a rodovia em palco de
tragédias e luto.
COCHILO
Há ainda um detalhe
que muitos preferem ignorar: o tempo da indignação. Os pedágios já são uma
realidade consumada. A concessionária opera amparada por um contrato
aparentemente legal, fruto de uma licitação precedida por audiências públicas
“fantasmas”. Era nesse momento que a bancada federal deveria ter exercido
vigilância rigorosa. Não exerceu. Dormiu no ponto e permitiu que Rondônia
recebesse um dos pedágios mais caros do país por quilômetro rodado.
ESPETÁCULO
Somente quando a
população percebeu o tamanho da conta é que deputados e senadores despertaram
do sono institucional. Vieram então as audiências públicas atrasadas, os
discursos inflamados, as notas de repúdio e a produção frenética de conteúdo
para redes sociais. Muito vídeo, muita postagem e pouca efetividade. Um
espetáculo tardio montado para parecer reação quando, na verdade, já era
remorso.
IMPACTO
Empresários calculam
prejuízos, transportadoras reavaliam operações e algumas empresas já cogitam
abandonar o estado diante de custos que podem ultrapassar R$ 2.500 em um único
percurso entre Vilhena e Porto Velho. O impacto econômico é concreto, enquanto
as promessas de investimento permanecem no terreno abstrato das apresentações
em PowerPoint e dos cronogramas sem prazo confiável.
INVERSÃO
O pedágio tornou-se
realidade antes da duplicação. A população foi chamada a financiar
antecipadamente uma obra cuja execução segue envolta em incertezas. Paga-se
hoje por um benefício que ninguém sabe exatamente quando chegará. É uma
inversão curiosa da lógica: a cobrança é imediata; a contrapartida, eventual.
REAÇÃO
Nesse cenário, a CPI
de Jesuíno Boabaid pode até ser inócua sob o aspecto prático. Dificilmente
reduzirá tarifas, modificará contratos ou obrigará a concessionária a acelerar
obras. Politicamente, porém, possui algum mérito. Ao menos demonstra que a
Assembleia Legislativa não pretende assistir passivamente à revolta popular.
PRESSÃO
Ainda que não produza
resultados concretos, a comissão pode servir como instrumento de pressão sobre
a ANTT e sobre a própria concessionária, que até agora tem se mostrado surda às
reclamações dos usuários e muda diante dos pedidos de esclarecimento.
OMISSOS
No fim das contas, a
CPI tende a não resolver o problema. Mas evidencia outro ainda maior: o
fracasso daqueles que tinham poder para agir quando o contrato estava sendo
desenhado e preferiram descobrir o tamanho do desastre apenas depois que a
cancela baixou. Isto significa omissão da nossa bancada federal.
ENTREVISTA
Há entrevistas que
servem apenas para preencher o vazio das plataformas digitais. E há aquelas
que, entre uma resposta e outra, deixam escapar pistas, recados e até
confissões involuntárias. A longa conversa do prefeito de Porto Velho, Léo
Moraes, ao podcast Resenha Política pertence à segunda categoria.
ENGRENAGEM
Durante mais de uma
hora, o prefeito desfilou números, obras, projetos e promessas de modernização
da máquina pública. Falou das ruas, da saúde, da limpeza urbana e da tentativa
de devolver eficiência a uma prefeitura que, segundo sua avaliação, foi
encontrada com mais ferrugem do que engrenagem.
ESTOCADA
Ao revisitar os primeiros dias de governo, Léo desenhou um cenário de
repartições cansadas, processos emperrados e uma estrutura administrativa que
parecia ter perdido o hábito de funcionar. Não precisou elevar o tom para que
as críticas ao antecessor fossem compreendidas. Em política, muitas vezes a
elegância da estocada produz mais efeito que o golpe bruto.
MERGULHO
Mas o trecho mais
relevante da entrevista não está relacionado à administração municipal. Ele
surge quando a conversa abandona os problemas da capital e mergulha no terreno
da sucessão estadual.
PALANQUE
Se havia alguma
dúvida sobre o rumo político de Léo Moraes, ela ficou consideravelmente menor
após suas declarações. Sem recorrer ao anúncio formal que os marqueteiros tanto
apreciam, o prefeito deixou transparecer que seu apoio na disputa pelo governo
estadual deverá desembarcar no palanque de Marcos Rogério - embora não tenha
confirmado peremptoriamente.
SINAL
Mais do que isso. A
entrevista praticamente antecipa um movimento político que deverá ser
oficializado nos próximos meses. Léo sinaliza que não apenas caminhará ao lado
do pré-candidato do PL, mas também participará diretamente da construção da
chapa majoritária.
PONTES
O nome apontado para
a vice-governador é o do deputado estadual Delegado Camargo. Se a composição
for confirmada, Rondônia assistirá à formação de uma chapa ideológica
puro-sangue, sem concessões ao centro e sem pontes para outros campos
políticos.
BOLHA
Marcos Rogério e
Delegado Camargo pertencem à mesma trincheira política. Ambos dialogam com as
bolhas bolsonaristas, construíram suas trajetórias em oposição ao governo do
presidente Lula e representam um eleitorado conservador que continua altamente
mobilizado no estado.
IDENTIDADE
O desafio dessa
equação está menos na identidade ideológica e mais na matemática eleitoral.
Delegado Camargo fortalece a coerência do projeto, mas permanece a dúvida sobre
sua capacidade de ampliar o alcance eleitoral da chapa. Em tese, não é um nome
que acrescente grandes contingentes de novos eleitores para além do público já
identificado com a direita.
ATIVO
Por outro lado, sua
eventual indicação carregaria consigo um ativo muito mais valioso: o apoio do
prefeito da capital. E este é um detalhe que os adversários observam com
atenção.
TIK TOK
Léo Moraes é hoje o
político mais bem avaliado de Rondônia e construiu uma presença digital que
poucos conseguem rivalizar. Transformou as redes sociais em ferramenta
permanente de comunicação e consolidou uma relação direta com parcela
significativa do eleitorado de Porto Velho. Ouvi de vários desafetos que esta
relação com o tik tok teria data vencimento; um ano e meio após assumir a
prefeitura e a forma que divulga as ações seu capital político só aumenta.
REFRATÁRIOS
Não existem, contudo,
pesquisas ou números confiáveis capazes de medir sua efetiva capacidade de
transferência de votos. O eleitor da capital possui comportamento próprio,
costuma definir eleições nos minutos finais da campanha e historicamente
demonstra resistência a qualquer tentativa de condução política excessivamente
explícita.
INCÓGNITA
Mas ignorar a
influência do prefeito seria um erro estratégico. Ainda que a transferência
automática de votos seja uma incógnita, sua capacidade de moldar narrativas,
ocupar espaço digital e pautar debates públicos é uma realidade observável.
PERFIL
Marcos Rogério, por
sua vez, enfrenta dificuldades justamente no ambiente onde Léo navega com
desenvoltura. O senador é respeitado pela firmeza dos posicionamentos e pela
atuação parlamentar, mas sua comunicação pública frequentemente esbarra em uma
imagem mais séria, menos espontânea e menos adaptada à dinâmica das plataformas
digitais. Seu jeito autossuficiente atrapalha porque passa a imagem de
arrogante.
ALGORITMOS
Se conseguir
incorporar à campanha a expertise comunicacional do prefeito da capital, o
pré-candidato do PL dará um passo importante na corrida ao Palácio Rio Madeira.
Em uma disputa que será travada tanto nas ruas quanto nos algoritmos, a
influência digital poderá valer tanto quanto os votos que ela eventualmente
conseguir transferir.
FIADOR
A entrevista que vai ao ar nesta quinta-feira deixa essa impressão. Léo Moraes
ainda não fez o anúncio oficial. Mas, para quem sabe ouvir política nas
entrelinhas, o roteiro parece cada vez mais escrito: Marcos Rogério para
governador, Delegado Camargo para vice e o prefeito da capital como principal
fiador da empreitada.
ESPERTEZAS
A pré-campanha virou
uma espécie de terra de ninguém do calendário eleitoral brasileiro. Um período
nebuloso, onde muitos políticos transitam entre o permitido e o proibido com a
mesma desenvoltura de quem atravessa uma cerca de arame acreditando que ninguém
está olhando. O resultado é um espetáculo de improvisos, espertezas e,
sobretudo, muitas bobagens.
EXTENSÃO
Basta recordar o que ocorreu durante a Rondônia Rural Show e o que continua
acontecendo nas feiras agropecuárias espalhadas pelo Estado. Outdoors e
estruturas publicitárias supostamente destinados à divulgação de mandatos
brotam como capim após a chuva.
DEBATE
Mas nem só de outdoors vive o folclore da pré-campanha. A escassez de fatos
relevantes também produz fenômenos curiosos. Na semana passada, por exemplo, um
dos assuntos mais comentados foi a suposta indicação da primeira-dama para
coordenar uma campanha que sequer existe oficialmente. Uma discussão tão
relevante quanto escolher o comandante de um navio que ainda nem saiu do
estaleiro.
FINANCEIRO
Quem conhece campanhas por dentro, longe dos holofotes e das redes sociais,
sabe que não existe um coordenador absoluto em disputas estaduais. Existem
responsáveis por áreas específicas, equipes distintas e núcleos independentes.
A figura verdadeiramente central costuma ser outra: o responsável pelas
finanças. Este, sim, influencia decisões, define prioridades, determina o ritmo
da operação e manda muito. Sua importância frequentemente supera a do
estrategista, pela simples razão de que é ele quem viabiliza o trabalho do
estrategista.
ESPECULAÇÃO
A exploração do tema
pela mídia também é natural porque joga luz em relações internas do PSD
que andam em desencontros. É neste campo que a especulação importa porque a
disputa interna em campanha por espaço costuma causar ruídos.
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