Terça-feira, 9 de junho de 2026 - 13h12

No dia 23 de maio que
passou, meu pai, se vivo estivesse, completaria 108 anos. Ele já partira para a
eternidade no ano de 1981. Da minha gênese permaneceu como referência e modelo
de dedicação, sobriedade, inteligência, sensatez e, sobretudo, muito amor a
velha mãe.
Quando eu nasci minha mãe
estava com 26 anos. Fui o sexto filho dela. Como era comum no início do século
passado, a maternidade começava muito cedo. A primeira filha que ela teve
chegou quando ela estava com 16 anos. A sétima e derradeira cria chegou aos 30.
Com esta filharada toda,
sendo o pai um agrimensor, funcionário público do Estado do Rio Grande do Sul,
é possível avaliar que as coisas não foram fáceis.
Sempre sobrava
mês no fim do salário.
Até hoje me pergunto qual
a mágica que pai e mãe faziam para sustentar tão imensa família. Certamente que
fartura não havia, no entanto não houve um dia sequer que tivéssemos sofrido o
tormento da fome.
Havia a caderneta no
armazém; a mãe fazia pão e massas em casa.
Quando moramos no
interior do Estado, em uma vila distante, chamada Barril, hoje o exuberante
município de Frederico Westphalen, o pai demarcava lotes para assentamento de colonos
nas terras públicas do Estado, enquanto a mãe atendia as lidas da casa e
cuidava com esmero da filharada.
Buscava água em poço.
Lembro que havia uma manivela com muitos metros de corda, pendurado na ponta um
balde que devia conter uns 20 litros de água. Lançado o balde e esperava-se o
som de sua batida no fundo. Aguardava-se alguns minutos e dava-se início ao
recolhimento, girando a manivela enquanto a corda enrolava num cilindro de
madeira.
A mãe fazia esta operação
dezenas de vezes durante o dia. ÁguapPara fazer as refeições, para a limpeza da
casa, para lavar as roupas de toda a tribo e para os banhos da turma, que vivia
encardida pela poeira vermelha e pelo barro da época chuvosa.
Fogão a lenha
As achas de lenha vinham
em variados tamanhos e quase sempre havia necessidade de fazer gravetos, para
dar início ao fogo. Para isto havia um machado grande e uma pequena machadinha.
A mãe cortava a lenha maior e as crianças ajudavam fazendo os gravetos.
Tínhamos café da manhã
com café e leite, pão feito em casa e manteiga, também caseira, pois o leite
era fornecido in natura e vinha com uma soberba cobertura de nata.
Depois vinha o preparo do
almoço. O fogão com a chapa quente ficava coberto por panelas. Arroz, feijão,
alguma carne, sopa com legumes que eram plantados no quintal.
Roupas de adultos e de
sete filhos lavadas na mão e estendidas num varal sem fim, que depois seriam
passadas com ferro aquecido com carvão.
Tínhamos o café da tarde
e depois a janta.
Nessa lida de cozinha, lá
pelo início dos anos 50 nossa casa recebeu a vó materna, que se chamava Irene,
mas todos a tratavam pelo apelido de “Vó Moça”. Ótima cozinheira e maravilhosa
companheira da sua filha, sendo uma avó muito querida de todos os sete netos.
À noite, normalmente sob
luz de velas e lampiões fazíamos tarefas escolares, enquanto a mãe fazia
pulôveres e meias em tricô para a turma toda.
No dia
seguinte começava tudo de novo
Lembro de cestas de vime
coloridas que indígenas da etnia kaingang vendiam na vila.
Depois fomos morar em
Porto Alegre, porque os filhos precisavam cursar o ginásio e em Barril só havia
o primário.
Foi maravilhoso abrir uma
torneira e dela sair água. Ainda levou um bom tempo para o pai poder comprar um
fogão a gás e uma geladeira.
Os filhos foram se
encaminhando. Os três irmãos mais velhos lograram estudar em uma escola
agrícola do Estado, em regime de internato, aliviando bastante a despesa em
casa.
A filha mais velha foi
trabalhar no comércio. As outras duas irmãs eram muito novas para trabalhar.
Ajudavam nas tarefas domésticas. Quem continuava a pilotar o fogão a lenha era
a vó.
A mim cabia fazer os
gravetos para iniciar o fogo, além de ser o mandalete para as compras pequenas
de leite, pão e carne.
A mãe lavava roupas,
passava, cuidava de tudo na casa, continuava fazendo roupas de lã, pois os
invernos eram rigorosos e inexistia climatização.
As meninas foram se
tornando mocinhas e a mãe foi fazer curso de corte e costura numa paróquia que
havia no bairro.
Em prestações a perder de
vista foi comprada uma máquina de costura e a mãe passou a produzir lindos
vestidos para as gurias.
Para contribuir com a
despesa da família, por volta dos 15 ou 16 anos fui trabalhar como office boy
numa empresa de engenharia, enquanto cursava o ginásio num renomado colégio
Marista, sendo meu estudo custeado com bolsa de estudos patrocinada pelo
Município de Porto Alegre.
O pai passou a fazer
topografia para campos de aviação em várias cidades do Estado, tendo feito tal
trabalho no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.
Os três irmãos mais
velhos concluíram a escola agrícola, de onde cada um saiu com o título de
técnico agrícola com especialização, um em laticínios, outro em zootecnia e o
terceiro em topografia.
No entanto eles
prosseguiram estudando e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; um
graduou-se em agronomia e os outros dois em veterinária.
As meninas concluíram o
segundo grau e não fizeram curso superior.
Mais tarde, já casada e
com filhos a caçula graduou-se em economia.
Eu continuei trabalhando,
fiz o CPOR, Curso de Preparação de Oficiais da Reserva e colei grau em direito,
também na Universidade Federal.
Nesse percurso pai e mãe
sempre estiveram presentes, orientando, corrigindo, sendo exemplos de
perseverança e trabalho.
Os conselhos e
as corrigendas
que nos davam foram e são
preciosos desde então e para sempre.
Em 1979 um acidente
automobilístico levou-nos um irmão e devastou a vida do pai e da mãe.
Em 1981 o pai, ainda
sofrendo pela perda do filho, faleceu.
Desde então a mãe passou
a ser o centro da família.
Com maestria, imensa
dedicação, amor infinito e incondicional, ela tornou-se o porto seguro de
todos. Um alicerce sólido e inamovível que sustentou a grande família que ela e
o pai construíram.
Foram sete filhos, vinte
e três netos, vinte e sete bisnetos e uma trineta.
Todos, todos sem exceção,
procuravam pela mãe, pela vó, pela bisa, fosse para fazer um lanche, fosse para
pedir conselhos, para debater sobre política ou futebol (era gremista
fervorosa), lá estava, em permanente bom humor aquela figura amada e respeitada.
Adorava contar e ouvir
histórias. Nossos encontros eram permeados de muita alegria. A mãe tinha senso
crítico aguçado, o qual aliado à enorme experiência de vida, faziam-na um
oráculo para nós todos.
Viveu intensamente e foi
um farol para todos. Filhos, netos e bisnetos a procuravam constantemente para
se aconselhar, trocar ideias e divertir-se com as magníficas tiradas que ela
sacava do seu alforge de vivências.
Em 2024 mais um filho
faleceu. Ele estava com 84 anos e sua partida voltou a maltratar muito a velha
mãe.
Estava agora
com 104 anos.
Estive com ela no último
mês de fevereiro. Passamos juntos vários dias. Quando me despedi ela
perguntou-me quando nos veríamos de novo e eu disse que em agosto, quando
festejaríamos os seus 105 anos, ao que ela me retrucou: “será que eu aguento
até lá?”
Percebia-se que a idade
começava a pesar sobre aquela estrutura, que já fora gigantesca e agora o tempo
se encarregava de fragilizar.
Assim que voltei para
Porto Velho a mãe precisou de internação hospitalar, com diagnóstico de
pneumonia.
Ficou hospitalizada
alguns dias e ganhou alta. Voltou para o seu lar. O apartamento que ela
adorava.
Pouco depois nova
internação e mais medicação e o agravamento do quadro geral de saúde.
Voltava para casa e uma
sobrinha neta a visitava para fazer fisioterapia. Exercícios cansativos que ela
fazia com redobrado esforço, mas sempre sorrindo.
Na semana que
antecedeu ao dia das Mães
resolvi estar com ela.
Então a vi extremamente fragilizada e a ouvi dizer várias vezes que era uma
pena eu ter ido de tão longe para vê-la e ela estar “aquela porcaria”.
Perguntava-se, também: “o
que eu ainda estou fazendo aqui?”
Ela já estava usando
oxigênio permanentemente, porque com as pneumonias recorrentes ela estava com
líquido acumulado nos pulmões, o que causava insuficiência respiratória.
Suas pernas já
fraquejavam, a memória recente estava confusa, mas lembrava fatos da sua
infância com absoluta nitidez.
Voltei para Porto Velho
no dia 16 de maio e carregava a sensação de que a vida da minha querida mãe
estava no limite.
Assim que viajei ela foi
novamente internada e mansamente, sem alarde e sem sofrimento, no dia 23 de
maio, dia do aniversário do meu pai, o “meu velho”, como ela dizia com muito
carinho e respeito, ela partiu ao encontro dele e dos filhos que já se
encontravam no plano espiritual. Também lá encontrou seus pais, irmãos, irmã e
dois netos que precocemente faleceram.
Seu velório foi a síntese
de sua vida. Filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, vizinhos, amigas e amigos
prestaram a derradeira homenagem para ela.
Às lágrimas mesclavam-se
os comentários que engrandeciam a profícua vida daquela Senhora, que tinha a
magia das palavras, o senso do pertencimento familiar, o secular amor devotado
e inesgotável, o conselho amigo nos momentos mais aflitivos que cada um
vivenciou, mão afetuosa que acarinhava e transmitia calor afetivo e segurança.
Uma longa vida de árduo
trabalho, sacrifícios, perdas, lágrimas, renúncias, nada que afastasse de seu
rosto lindo a amorosidade e a paixão de viver para a família.
Transporto-me no tempo e
lembro as incontáveis e memoráveis festas quando do seu aniversário, no dia 22
de agosto.
Era um modo que
desenvolvemos para homenageá-la. A relação de pessoas presentes alcançava quase
centena. Em algumas ocasiões a festa virava um pandemônio, com as famosas e
inesquecíveis guerras de glacês, das quais ela participava ativamente e sua
risada gostosa ecoa em meus ouvidos, incendiando o ambiente repleto de seus
amores.
Na pandemia da COVID, que
ela contraiu por duas vezes, ante a impossibilidade da reunião familiar,
filhos, netos e bisnetos organizaram lá em Porto Alegre e aqui em Porto Velho,
uma carreata com faixas, confetes e buzinas, festejando o aniversário dela.
Lá o desfile foi na
avenida onde ela morava houve sua participação ativa da janela do seu
apartamento.
Aqui circulamos nas
proximidades da minha casa e gravamos um vídeo que lhe foi enviado.
Não me resta
dúvida que ela semeou e colheu amor.
Saiu da vida terrena com
dignidade e repleta de luz.
Do outro lado, no mundo
espiritual, ela alcança seus queridos que a antecederam e todos, gloriosamente,
se regozijam.
Fui privilegiado em ter
esta Mãe até os meus 78 anos e agora preciso aprender a viver com sua ausência.
Não mais teremos os
telefonemas de fim de semana, quando conversávamos sobre tudo e qualquer coisa.
Dos causos que contávamos, das risadas soltas que ficavam ressoando em minha
mente e me proporcionavam a certeza de que éramos completos e felizes.
Quando nos encontrávamos
o carinho dela transbordava de seus olhos, o afeto que suas mãos transmitiam
eram um bálsamo e eu me afogava naquele oceano de amor.
Vem-me, então, à mente, a
memorável parábola de Gibran Khalil Gibran:
“O Rio e o Oceano
Diz-se que, momentos
antes de um rio cair no oceano ele treme de medo.
Olha para trás, para toda
a jornada, os cumes, as montanhas,o longo caminho sinuoso através das
florestas, através dospovoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que
entrarnele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência. Podemos apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar
e entrar no oceano.
E somente quando ele
entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio
compreende que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é
desaparecimento e por outro lado é renascimento.”
E é exatamente
assim.
A Mãe percorreu um longo,
difícil, por vezes tortuoso caminho. Ao início, em 1921, um pequeno córrego lá
em Montenegro, sua terra natal. Foi se avolumando, pegando afluentes, passando
por regiões escarpadas, depois por planícies serenas, paisagens variadas, o
caudal fluindo, ora com esforços inauditos, ao depois em remansos plácidos.
Percorreu com garra e
sólida perseverança milhares de quilômetros ao longo de 104 anos e chegou sua
hora de não mais ser um rio.
Agora minha Mãe, Elsa
Matzenbacher Machado, é oceano de amor, de ternura, de pura paixão e eterna
saudade.
Carlos Henrique
– Blog do CHA
Maravilhosa homenagem em
texto como sempre brilhante, meu amigo. O poema de Gibran evoca em mim a
lembrança dos versos de Djavan: “Você deságua em mim, e eu, oceano / E esqueço
que amar é quase uma dor”.Já escrevi certa vez que “Quero viver intensamente.
Quero morrer de repente”.
Acho que aconteceu
a Elsa Matzenbacher Machado algo que ela – nesse nosso tempo unidimensional e
linear – construiu a cada momento de seus maravilhosos 104 anos. Por isso
oceanou serenamente.
Não lhe envio condolências,
meu amigo. Antes o parabenizo pela protagonista de tão comovente texto, na
certeza de que, como disse Santo Agostinho, ““A morte não é nada./ Eu somente
passei / para o outro lado do Caminho./ (…) / Vocês continuam vivendo / no
mundo das criaturas, / eu estou vivendo / no mundo do Criador”.
Um forte abraço!
Terça-feira, 9 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Flávio é o pesadelo da direita
Como explicar mancha de batom na cueca? Respostas para a coordenação de campanha de Flávio Bolsonaro. Para lembrar: ele viajou aos EUA na tentativa

Bruno (somente) Scheid e o “Dark Horse” paraguaio
A supressão, determinada pelo TRE, da apropriação do sobrenome Bolsonaro, digamos autorizada pelo chefe do clã, pode transformar novamente Bruno Sch

Flávio Bolsonaro é muito esperto!
Ele fez o diabo produzir dinheiro antes mesmo da eleição do pai. Conseguia tirar leite de vaca pintada. E convenceu o pai a indicá-lo como candidato

A verdade não rende dividendos. Nem votos
Embora hilário e muito adequado às características conhecidas dos personagens desse diálogo, não consta que de fato ele tenha ocorrido. Nancy Astor,
Terça-feira, 9 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)