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Paulo Saldanha

Crônicas Guajaramirenses -tive amigos que se foram! Muitos, mais novos, outros, eram mais velhos que eu...


Crônicas Guajaramirenses -tive amigos que se foram! Muitos, mais novos, outros, eram mais velhos que eu... - Gente de Opinião

            Nas voltas que a vida dá, sempre meus amigos eram bem mais velhos que eu, posto que, por exemplo, com 18 anos, meus companheiros tinham, 30, 40 e 50 anos, bem mais experientes que eu.

          Alguém definiu o amigo como se tratasse do irmão escolhido, selecionado em cima das afinidades, daí a troca de desabafos e confidências. Ele é a presença constante (ainda que um esteja a 4.000 km de distância) e confiável na vida do outro.

          Demonstrando que esse fraterno estará presente nos instantes ruins e ótimos! Busca-se no amigo a reciprocidade no compartilhamento de ideias, experiências, músicas, literaturas e vivências, sempre com lealdade e abertura, pois, além de irmão ele vira cúmplice do bem...

          Mesmo na mais tenra idade, costumeiramente sempre me aproximava de gente de perfil moral elevado, afastando-me daqueles que poderiam tentar inocular-me com exemplos nada edificantes. Era como se fosse uma espécie de auto defesa contra espíritos nada republicanos, para manter a conversa num nível mais elevado. E fugia desses, como o diabo foge da Cruz.

         Ocorre que, paralelamente às perdas de companheiros que partiam para o Oriente Eterno, fossem os da minha geração, fossem aqueles “menos crianças” (diriam os antigos cuiabanos), eu ia empobrecendo nos meus ativos sentimentais e espirituais.

           E de repente me descobri descapitalizado emocionalmente diante das mortes que eu ia lamentando, ao tempo em que me entristecia!

         Lembro-me da partida precoce do Clayton Guimarães Cova, do Homero Kang Tourinho, João de Deus, Jacy de Alencar Farias (o dr Polegar), Nelson Madeira Casara, Almério Madeira, José Nilson Guimarães, Ana Benita Perez Pontes, José Caboquena Maia, Paulo Cruz Rodrigues, Issao Kawataki, Nicandro Fontoura, Josefina da Cruz Coelho, Arlene Ferreira, João Miguel de Araújo Lima, Anizinho Gorayeb, Cândido Sabino de Lima, o Candoca, Maria Teresa Merino Chamma e outros... Todos esses integrantes da minha meninice e da minha juventude.

           Enquanto eu chorava as perdas daqueles da minha geração, na imediatamente anterior, eu pranteava a partida de um Wilson Nunes Brayner, Francisco das Chagas Cavalcante, Armando Borges, Gentil Medeiros de Almeida, Felipe Assad Azzi, Odenil Jacinto de Oliveira, Eliezer Rebelo, Estácio Lopes Gusmão, Militão da Silva Rufino, Joazir Bucair, Aquilino Arruda, Walmen Hoffmann de Souza, Orion Barreto da Rocha Klautau, João Bosco de Araújo Pinto, Simão Salim, Luziano Borges Muniz,  Moacir do Couto, João Bosco de Araujo Costa, Antônio Paula da Costa Bilego, Ladislau Cristino Cortes, Euro Tourinho, Adhemar da Costa Salles, Dom Geraldo Verdier, Cesar Romero Cavalcante de Albuquerque, Izabel Assunção,  amigos que eu transformei em irmãos nesta e noutras terras aonde vivi.

         Um dia sumiram dos meus olhos a mãe, o pai, avós, tios, tias tão amadas, até que perdi de vista meu segundo filho, sepultado na cidade de Cuiabá... Todavia, guardo-os como num sacrário: dentro do meu coração...

          Afinal, a desaparecimento, o passamento de alguém de quem nos tornamos “amigo de fé, um irmão, camarada” – diriam Roberto e o Erasmo — machuca de forma intensa e “tão doída”, porque se trata de um rompimento de laços profundos e intensos, pela perda no plano físico de um afeto que nos unia e nos aperfeiçoava, num rumo indecifrável e indefinível chamado “Não nos veremos mais”, pelo menos aqui neste planeta secundário.

       Na verdade, o falecimento de um amigo tão querido é como se fosse uma unilateral ruptura, pois deixamos de merecer aquele vínculo, aquela cumplicidade que só encontramos no núcleo familiar. Ficamos enlutados tal qual experimentamos como vazio pelo luto de um parente.

           Quando alguém do nosso convívio é chamado para o andar de cima, passamos a questionar: –Quando será a nossa vez?

          Assim impactados psicologicamente pela violenta emoção vivenciada, perdemos o chão e vertemos todas as lágrimas possíveis no estuário dos nossos rostos ou as derramamos, repito, dentro de uma espécie de relicário quase sagrado, que é o nosso coração.

          Todavia, neste terço da minha vida, já vejo, num misto de alegria e tristeza, que meus amigos são quase todos mais novos do que eu...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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