Porto Velho (RO) sexta-feira, 23 de outubro de 2020
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Um compromisso com a liberdade de pensar


Paulo Freire - Gente de Opinião
Paulo Freire

Há um certo pensamento medíocre, que pavimenta o ideário brasileiro, e quer impor uma visão distorcida, sobre fatos, questões, alguns temas candentes, fundamentais para a dinâmica da nossa sociedade, sem qualquer leitura aprofundada, estudo ou pesquisa devidamente balizados, se tornando em mera opinião, palpite, descompromissados com a realidade concreta. 

Vejam por exemplo, a desconstrução que muitos querem e tentam fazer, sobre a figura do pedagogo Paulo Freire.

Eu me pergunto, o que uma figura amável, lúcida, preocupado com a situação da educação brasileira, e por consequência, com a realidade social do brasileiro, sobretudo, o trabalhador não alfabetizado, o que demonstra a sua generosidade, poderia fazer de mal para o País?

Procurem qualquer fala desse intelectual, e vejam se em algum momento, ele se coloca como ameaça para a educação e para a sociedade brasileira.

O objeto de Freire por excelência, a depreender das suas obras, foi construir um pensamento, capaz de possibilitar principalmente aos mais oprimidos, uma identidade cultural, em relação ao seu ambiente circundante, sua realidade, suas experiências, de tal sorte, a galgar um estágio de consciência, através de uma educação libertadora. Ou seja, formar um cidadão consciente, do papel que ele exerce na sociedade, e o seu engajamento, no sentido de transformá-la para o seu bem estar e da imensa maioria.

Faço de novo a pergunta: onde reside alguma coisa de nefasto, nos propósitos de Paulo Freire?

Para quem não possui nenhuma informação sobre esse pilar da nossa educação, e se intoxica com a maldade gratuita dos seus detratores, ele foi o primeiro pedagogo, a criar uma forma ou um método como queiram, de alfabetização para adultos.

A primeira experiência exitosa com o seu método, foi colocado em prática, na cidade de Angico-Pernambuco, início da década de 60, alfabetizando 300 adultos em 45 dias, numa realidade de um Brasil predominantemente rural, com milhões de analfabetos, nos mais diversos quadrantes desse imenso pais, de dimensões continentais, e que cariciam de uma luz para iluminar os seus caminhos, através da educação.

O que de fato incomoda as elites econômicas e os grupos políticos, em relação ao legado de Freire? Uma coisa simples. Ele pensou uma educação transformadora, dialógica, comprometida com a realidade, na perspectiva de transformá-la, e em transformando-a, criando as melhores condições,  para a melhoria da situação de cada cidadão ou cidadã.

O problema, que falar em transformação num país como o  Brasil, de raízes agrárias, escravocrata, oligárquica, que quer perpetuar um sistema, que aniquila a vida da maioria, e beneficia sempre alguns poucos, é algo de subversivo, coisa de comunista. Quanta má fé, desinformação e estupidez.

Muitos que o satanizam, se quer, leu uma orelha de alguma de suas obras. Se comportam, quase que de maneira uniforme, naquilo que vulgarmente costumamos denominar, massa de manobra. Reproduzem simplesmente, algo já encaixotado, pronto, sem nenhuma reflexão sobre os seus conteúdos.

Ninguém é obrigado a concordar com o modo de pensar desse intelectual. Desse ponto de vista, o debate sobre formas de educar, é algo que está em aberto, e se impõe, como uma necessidade. Fundamental, é que seja realizado com responsabilidade, com propósitos de contribuir com um tema, que é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade. Mas é preciso fazê-lo com respeito, e sobretudo, com honestidade intelectual.

Problemas na nossa educação sempre existiram. Desde a concepção elitista de um Brasil colônia, quando ela era apropriada apenas por poucos, e foi se reproduzindo no tempo histórico, com acúmulos de problemas nunca resolvidos, aprofundando-se cada vez mais, até os nossos dias.

Se temos um sistema de educação decadente, capenga, que não atende aos parâmetros internacionais, não é por culpa de um cidadão, mas pela situação estrutural da sociedade brasileira, e a incompetência dos governantes, que  se sucederam no tempo, sem nunca  estabelece-la, como uma prioridade. Sem nunca aportarem os investimentos necessários, de forma adequada e bem gerenciados. Nunca capacitaram esse sistema, na sua longa trajetória histórica, desde um Brasil colonial, através de uma política, de um planejamento para a educação, que de fato fosse capaz, de responder aos imensos desafios, que o ensino impõe, para se atingir patamares de uma sociedade civilizada.  

Quanto a Freire, o que deixa como exemplo, é a dimensão das suas obras, a gratidão e admiração, daqueles que se beneficiaram e ainda se beneficiam do seu saber pedagógico.

Um cidadão respeitado em todo o mundo, premiadíssimo, com as mais variadas formas de honrarias, que chegam às dezenas, sendo injustamente vilipendiado, no seu torrão natal.

O que poderíamos referenciar com orgulho, se torna um “perigo” para a sociedade.

Brasil! Como sempre, um País caminhado em marcha à ré, com suas enormes contradições.

 

Edilson Lôbo

Prof. De economia - UNIR

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