Porto Velho (RO) quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
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Montezuma Cruz

Jornalismo - Depois de 1969


Jornalismo - Depois de 1969 - Gente de Opinião
Jornalismo - Depois de 1969 - Gente de Opinião

Amanheci em São Paulo no primeiro dia de janeiro de 1969. Estava garoando no belo (na época) aeroporto de Congonhas, sem o movimento de hoje nem os enormes aviões. Havia quase só aviões de motor convencional. Constellation, Avro, Convair, DC-6. Escassos jatos, ainda apegados à estética dos planadores. 

No hall principal, uma muito fornida loja da livraria Laselva, com jornais e revistas estrangeiros, o cheiro de papel recentemente impresso, recendendo a tinta, numa cápsula de cultura, que o tempo arrastou pelo ar da memória.

Terminei o dia em cama de beliche, melancólico e triste, ainda sob o impacto da decisão de deixar Belém depois que o golpe do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968, não deixou dúvida: o jornalismo na cidade ia bater em retirada ou marcar passo, submetido às ordens telefônicas da censura. O fim antecipado do ano que não terminaria indicava qual era o destino natural. 

O olho do furacão estava mesmo em São Paulo, onde os mais ricos iam financiar a Operação Bandeirantes para liquidar com a esquerda e sufocar a liberdade.

Numa pequena eletrola coloquei o disquinho com F Comme Femme, de Salvatore Adamo, para mim o hino daqueles dias tão difíceis. Ouvi até a saturação, sem esgotar o desejo de ouvir mais, me dissociar da realidade e seguir por aquele canto de sereia para dentro de mim, pelo F gris de Femme, a mulher que nos originou e que procuramos num ponto brilhante e mínimo no céu nublado,a estrela idílica da nossa razão de ser.

O meio século de 1968 está terminando e o lembro neste dias chuvoso de natal de uma cidade que não foi favorecida pela volta à democracia, desleixada, submissa, vítima de seus próprios desatinos, o mais grave dos quais é não saber escolher quem a guia - ou não ter escolhas na mediocridade que se apresenta.

E no entanto, prosseguimos. O ano não terminou em 1968, mas quem quis conseguiu sobreviver com dignidade à sombria e enorme mancha de negrume que se seguiu. Eu cheguei aos 70 e Salvatore Adamo, um descendente de italianos que a França precisou aceitar e consagrar, já passou da marca. E continuamos. Cada um na sua, cabelos brancos à parte.


* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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