Porto Velho (RO) sábado, 5 de dezembro de 2020
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Montezuma Cruz

À beira do abismo


À beira do abismo - Gente de Opinião

Quando os bastidores do poder se tornam mais ativos do que os atores que circulam pela arena pública é porque a situação está se agravando. É o que acontece agora no Brasil. 

Os personagens individuais e os grupos de pressão não emergem inteiramente no cenário, mas estão mais ativos do que nunca. Mexem vários cordões para provocar ou reagir aos atos públicos, conforme seus próprios interesses, em geral camuflados e escondidos do conhecimento da sociedade. Pretendem mantê-la submissa à sua vontade e dirigi-la para seus objetivos. Mesmo que para isso seja necessário estabelecer o cais.

O presidente da república, que é o mais poderoso dos agentes, pelos instrumentos e meios colocados à sua disposição, por ser o chefe do poder maior do aparato institucional do país, é um destruidor feroz, não um construtor de projetos, programas, planos e tudo mais que constitua um governo. O item mais importante na carreira de Jair Bolsonaro foi conceber um ato de terrorismo político. Nunca é demais relembrar esse episódio. Agora, mais do que antes, ele ajuda a entender a personalidade do presidente.

No segundo semestre de 1987, dois anos depois da volta à democracia, o então capitão do exército, na ativa, aos 28 anos, cursava a Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais, e morava na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Ele saíra da obscuridade no ano anterior. Assinou um artigo na revista Veja para protestar contra os baixos vencimentos dos militares. A ousadia lhe acarretou a prisão. Mulheres de oficiais da ativa, que, ao contrário dos maridos, podiam sair em passeata sem o risco de serem presas, protestaram contra a punição.

Em outubro 1987, a revista, provavelmente acionada por Bolsonaro, mandou a repórter Cassia Maria à Vila Militar para cobrir a prisão de outro militar, o capitão Saldon Pereira Filho, pelo mesmo motivo, . Ali ela conversou com Bolsonaro, outro capitão e da esposa dele.

Sob condição de sigilo, a mulher do militar contou à repórter (com a confirmação dos dois capitães, que a ouviam) que estava sendo preparado um plano batizado de Beco sem saída. O objetivo era explodir bombas de baixa potência em banheiros da Vila Militar, da Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende, e em alguns quartéis.

A intenção era deixar clara a insatisfação da oficialidade com o índice de reajuste salarial, que seria anunciado em poucos dias, e com a política do então ministro do exército, Leônidas Pires Gonçalves. Não haveria vítimas, mas os atentados atingiriam a autoridade do ministro na tropa.

O relato da repórter foi publicado nas páginas 40 e 41 da edição 999 (de 27/10/1987) de Veja, nestes termos:

‘‘Temos um ministro incompetente e até racista’, disse Bolsonaro a certa altura. ‘Ele disse em Manaus que os militares são a classe de vagabundos mais bem remunerada que existe no país. Só concordamos em que ele está realmente criando vagabundos, pois hoje em dia o soldado fica o ano inteiro pintando de branco o meio-fio dos quartéis, esperando a visita dos generais, fazendo faxina ou dando plantão’. Perguntei, então, se eles pretendiam realizar alguma operação maior nos quartéis. ‘Só a explosão de algumas espoletas’, brincou Bolsonaro. Depois, sérios, confirmaram a operação que Lígia chamara de Beco sem Saída. ‘Falamos, falamos, e eles não resolvem nada’, disseram. ‘Agora o pessoal está pensando em explorar alguns pontos sensíveis.’

Sem o menor constrangimento, o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria o trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite. O plano dos oficiais foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problemas para o ministro Leônidas,

(...) Nervoso, Bolsonaro advertiu-me mais uma vez para não publicar nada sobre nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?’, perguntou. E eu respondi: ‘Você não pode esquecer que sou uma profissional"’.

A repórter não cumpriu o trato. Deu mais importância à gravidade do fato. Bolsonaro foi submetido a julgamento pela justiça militar e absolvido, mas ali encerrou a carreira militar, no que pode ter sido um acerto de bastidores para poupar a instituição. Ficou suficientemente conhecido no Rio para se eleger deputado federal e se manter no cargo até ser eleito presidente da república, em 1987. Sempre agredindo.

Esse é o Bolsonaro da reunião do ministério de 22 de abril, da obsessão em fazer os brasileiros tomarem cloroquina contra a covid-19, que demitiu dois ministros da Saúde em plena ascensão da pandemia, tornando o Brasil o novo epicentro mundial da doença, e que mantém a sua ofensiva sobre a Polícia Federal indiferente às medidas e riscos de enfraquecer ou mesmo desmoralizar a corporação.

Num dia a ofende, no outro a exalta. Critica a PF por fazer o jogo dos que querem atingi-lo através da sua família e dos amigos. E a elogia por ter feito uma operação contra o governador do Rio de Janeiro, um dos seus maiores inimigos políticos. Despreza os atos de ofício da justiça ou as decisões fundamentadas que toma para tingi-los de tendenciosidade e corrupção. Superdimensiona os males históricos do país, mal escondendo o seu propósito de conduzir o Brasil ao impasse, quando se apresentará como o salvador.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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